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O Brasil na encruzilhada geopolítica do século XXI

O Brasil enfrenta uma encruzilhada geopolítica decisiva. Entre crises globais e ascensão asiática, precisa escolher se será protagonista soberano no sistema multipolar emergente ou satélite subordinado a interesses externos globais

Por Jaqueline Maria

 

O mundo atravessa uma transição histórica sem precedentes. A ordem internacional estabelecida após a Segunda Guerra Mundial, e reformulada com o fim da Guerra Fria, encontra-se em profunda crise. Conflitos armados, disputas econômicas, polarização tecnológica e emergência climática se entrelaçam, tornando incerto o futuro da humanidade. Nesse cenário, o Brasil precisa compreender os movimentos em curso para definir seu lugar no sistema internacional.

José Luis Fiori, em seu estudo “Caminhos e cenários geopolíticos até meados do século XXI”, publicado no âmbito da Iniciativa Brasil Saúde Amanhã, da Fiocruz, oferece uma análise crítica das dinâmicas do poder mundial, identificando tendências que moldarão as próximas décadas. Fiori destaca que o sistema interestatal capitalista, nascido na Europa entre os séculos XIII e XIV, sempre se expandiu por meio da competição violenta entre Estados nacionais que eram, ao mesmo tempo, economias e máquinas de guerra. Hoje, vivemos a quarta grande expansão sistêmica, marcada pela multiplicação de Estados nacionais e pelo ingresso da China no sistema de Westfália como potência central.

O autor também aponta quatro grandes crises simultâneas que o mundo enfrenta: a crise da ordem bipolar da Guerra Fria, a crise da ordem unipolar dos anos 1990, a crise da globalização neoliberal e a crise da hegemonia ocidental. Essas crises revelam a erosão do poder do Atlântico Norte e o surgimento de uma nova configuração internacional.

Fiori identifica que poucos Estados possuem capacidade de formular grandes estratégias com horizonte de décadas, como os EUA, União Europeia/OTAN, Rússia, China, Índia e, em certa medida, o BRICS. Ele destaca que os EUA buscam impedir o surgimento de rivais globais, a União Europeia permanece prisioneira de suas contradições internas, a Rússia reconstruiu seu Estado e firmou aliança estratégica com a China, a China aposta em sua modernização até 2050, a Índia busca autonomia frente ao Ocidente e o BRICS se afirma como polo alternativo ao G7.

O estudo também aborda conflitos estruturantes que expressam as disputas de poder globais, como a guerra na Ucrânia, o impasse em Gaza, o risco de guerra em Taiwan e a guerra econômica com o bloqueio financeiro contra Rússia e China. Esses conflitos apontam que o sistema mundial já entrou em uma era de disputas prolongadas, sem hegemonia estável.

Até 2030, a disputa central será entre EUA e China, com possibilidade de guerra aberta, ainda que improvável. Até 2050, a transição geopolítica tende a consolidar um sistema multipolar, com protagonismo da Ásia e declínio relativo do Ocidente. Outro vetor decisivo será a emergência climática, com a transição energética sendo peça central da competição tecnológica e geopolítica.

Para o Brasil, esse cenário impõe escolhas estratégicas. Não há espaço para neutralidade ingênua. O país precisa se engajar no fortalecimento do BRICS, diversificar parcerias, defender sua soberania e resistir à subordinação a interesses externos. Mais do que nunca, torna-se necessário um Estado ativo, com capacidade de planejar sua inserção internacional, coordenar políticas industriais e energéticas e proteger seu território diante das turbulências globais.

O Brasil só poderá construir um futuro de desenvolvimento sustentável e soberano se compreender que a nova ordem não será benevolente nem harmoniosa. A competição entre potências é inevitável, e os países que não planejarem sua estratégia estarão condenados a ser satélites de interesses alheios.



Referência:
FIORI, José Luis. Caminhos e cenários geopolíticos até meados do século XXI. TD-93. Fundação Oswaldo Cruz, 2025. Disponível em: https://saudeamanha.fiocruz.br/wp-content/uploads/2025/07/Fiori-JL_Caminhos-e-cenarios-geopoliticos-ate-meados-do-seculo-XXI_TD93.pdf. Acesso em: 10 set. 2025.

 

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Jaqueline Maria é jornalista e gestora pública
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