A chegada da inteligência artificial revela que o Brasil continua subordinado: acessa a tecnologia, mas não controla infraestrutura, padrões ou dados, permanecendo dependente e distante de uma soberania tecnológica real
Por Gustavo Souto de Noronha
“Nos deram espelhos e vimos um mundo doente”
(Renato Russo)
Há momentos em que o problema não é a falta de mapa, mas o mapa em excesso. Não a ausência de técnica, mas a técnica já chegando com nome, dono, destino e manual de obediência. A inteligência artificial vem sendo discutida entre nós quase sempre do jeito errado: ou como milagre tecnológico prometendo varrer o atraso, ou como assunto de especialistas, reguladores e consultorias modernizantes. Para países como o Brasil, porém, a inteligência artificial não é apenas um novo capítulo da história da técnica. É uma nova estação da velha questão do desenvolvimento.
O problema já não é saber se teremos acesso à IA. O acesso chegou, sentou-se à mesa, pediu água, entrou na escola, invadiu o escritório, seduziu gestores públicos e produziu pânico entre trabalhadores. O acesso, no entanto, não resolve quase nada. Pode até agravar o problema. Um país pode consumir fartamente a técnica mais avançada do seu tempo e, ainda assim, permanecer condenado à condição de apêndice, mercado, laboratório, estoque de dados, fonte energética e reservatório de trabalho barato. A periferia conhece esse filme. Já o viu com as manufaturas, com a industrialização dependente, com as finanças, com a tecnologia da informação, com as plataformas digitais. O que muda não é a lógica profunda da hierarquia, mas a natureza do objeto em disputa.
A inteligência artificial recoloca, sob outra forma, perguntas antigas demais para serem tratadas como moda: quem controla a infraestrutura? Quem define os padrões? Quem decide o que conta como dado e o que conta como ruído? Quem transforma a experiência social em ativo econômico? Quem captura os ganhos de produtividade? A pergunta decisiva está mal formulada quando se resume à obsessão com “não ficar para trás”. Atrás de quê, exatamente, e atrás de quem? O atraso, em certas circunstâncias, é apenas um nome elegante para a subordinação. Há periferias que chegam cedo demais a tecnologias que jamais controlam. A pressa, nesse caso, não emancipa: encurta o caminho da dependência.
A disputa pelos nomes do mundo
A inteligência artificial não é apenas uma questão de máquinas, cabos e data centers. Ela opera também, e sobretudo, sobre linguagem, classificação e sentido. Sobre a forma com que as sociedades nomeiam o real, organizam a experiência, separam o visível do invisível, o relevante do descartável. É exatamente aí que a dependência se torna mais perigosa, porque deixa de parecer dependência e passa a se apresentar como neutralidade técnica, como se o mundo pudesse ser traduzido a um idioma único, a uma gramática sem resto, produzida em algum lugar acima da história.
Quando um modelo de linguagem é treinado sobretudo em inglês, com taxonomias extraídas das hierarquias centrais do conhecimento e do mercado, o problema não é apenas que ele funcionará pior em português. É que carregará uma teoria implícita do mundo, uma política subterrânea do que merece ser lido, arquivado, inferido e devolvido como inteligível. Não se trata de viés como erro marginal a ser corrigido na próxima atualização, mas de assimetria constitutiva na produção do inteligível.
O Brasil sabe disso pela dor e pela mistura. Uma formação que nunca coube inteiramente em taxonomias. Há um país que escreve pareceres, editais e notas técnicas; há outro que canta, inventa, mistura, erra, torce a norma e a devolve com outro sabor. A inteligência artificial, ao operar sobre linguagem em larga escala, entra diretamente nesse campo de forças. Se organizada apenas a partir dos registros dominantes, reproduzirá com grande eficiência o país oficial, tratando a pluralidade linguística real como desvio, informalidade ou ruído semântico. Um país cuja máquina aprende a ouvir mal seu próprio povo já começou a abdicar de governar em nome dele.
A lama por baixo da nuvem
Há algo de profundamente enganoso na imagem corrente da economia digital. A inteligência artificial se oferece ao olhar como leveza, interface, conversa, cálculo instantâneo — como se tivesse se libertado da sujeira da história e da rudeza do trabalho. Nada mais falso. A IA não nasce no céu dos engenheiros, nasce no subsolo das minas, no calor dos data centers, na água que resfria servidores, no trabalho invisível dos que etiquetam, moderam, corrigem, limpam, traduzem e alimentam sistemas. A nuvem sempre teve muito de latifúndio: parece suspensa no ar, mas tem dono, cerca e escritura.
A economia política da IA opera por exploração do trabalho, apropriação privada da cooperação social, renda monopolista sobre infraestruturas críticas e captura de linguagem em escala massiva. A máquina aprende porque a sociedade inteira trabalha para ela — mas a remuneração dessa inteligência social difusa continua sendo privada, concentrada e opaca. O usuário que gera gratuitamente dados comportamentais, o professor que corrige, o motorista que aceita a rota, o cidadão que preenche cadastro: nada disso aparece, de saída, como trabalho. E no entanto é trabalho que enriquece quem está longe.
Aqui no Sul Global, nossa inserção se dá justamente pelos elos mais brutos: fornecemos energia, território, água, minérios, trabalho desvalorizado, mercado consumidor e base de dados pouco protegida. As camadas decisivas de valorização — propriedade de modelos, nuvem, semicondutores, padrões técnicos — permanecem controladas de fora. Internalizam-se custos, externalizam-se decisões. Concentra-se a lama, exporta-se o céu.
Os podres poderes e a modernização da dependência
A inteligência artificial encontra, no Brasil, elites historicamente acostumadas a lucrar com a dependência. Seu horizonte de racionalidade não é o da construção paciente de capacidades nacionais, mas o da intermediação rentável entre o dentro e o fora. São elites compradoras: compram pacotes, revendem acessos, alugam soluções. Quando falam em modernização, quase sempre falam em modernização de cima, sem redistribuição de poder e sem a fadiga de erguer infraestrutura própria onde a dependência já oferece atalho lucrativo.
A IA combina três qualidades valiosas para esse tipo de classe dirigente. Primeiro, apresenta-se como técnica inevitável, despolitizando escolhas profundamente políticas. Segundo, chega modular, contratável, terceirizável — compatível com o padrão de acumulação baseado em aluguel de inteligência. Terceiro, oferece meios novos de comando social: mais dados, mais rastreabilidade, mais controle sobre trabalhadores e territórios, tudo embalado na linguagem da eficiência. Para elites historicamente desconfiadas do povo e fascinadas pela administração sem participação, trata-se de um brinquedo irresistível.
O mais insidioso é que a dependência algorítmica pode avançar justamente sob o discurso da autonomia. Um país contrata uma nuvem “soberana” operada segundo padrões que não controla; financia centros de IA que se tornam adaptadores locais de modelos externos; incentiva ecossistemas que vivem de revender API estrangeira; cria programas de capacitação que formam mão de obra para alimentar cadeias globais, e não para organizar capacidades próprias. Celebra-se a “entrada na fronteira tecnológica” quando, na realidade, apenas se alugou lugar um pouco melhor na arquibancada.
O que uma travessia de verdade exigiria
Uma estratégia soberana de inteligência artificial só tem sentido se for pensada como parte de uma transformação estrutural mais ampla. Ela exige combinar capacidade estatal, política industrial, governança pública de dados, apropriação crítica da técnica e abertura às formas de inteligência social que a modernização subordinada sempre preferiu chamar de atraso.
Isso significa, na prática, algumas coisas concretas. Um Estado que sabe o que quer comprar — e compra com regras de interoperabilidade, abertura e auditabilidade, puxando capacidade nacional. Uma política de dados que reconheça que variação linguística não é defeito, que oralidade não é imperfeição, que saber territorializado não é resíduo pré-científico. Uma cooperação latino-americana que permita negociar em bloco em vez de comprar separadamente, na posição de clientes solitários diante de vendedores onipotentes. E uma clareza sobre o que não pode ser aceito: a redução da política tecnológica à atração de plataformas, a transformação do Estado em corretor de soluções prontas, a modernização autoritária da desigualdade.
A resposta não está na cópia servil dos repertórios centrais, nem na fantasia de uma autenticidade imaculada. Está em algo mais difícil: tomar o artefato alheio, desmanchar sua pretensão de universalidade, reordenar seu uso, incorporar o que serve, rejeitar o que subordina, misturar o que veio de fora com o que já fermentava por dentro. A questão não é recusar a técnica produzida no centro, mas recusar a posição de discípulo.
Talvez a pergunta mais honesta que resta seja esta: que tipo de futuro o Brasil está disposto a recusar para que outro futuro, ainda incerto, tenha alguma chance de nascer? Porque todo gesto de soberania contém esse momento: dizer não àquilo que se quer fazer passar por inevitável. Não à ideia de que a inteligência virá sempre em nuvens alheias. Não à tese de que nossas línguas, nossos territórios e nossos saberes devam servir apenas de matéria-prima para modelos concebidos longe daqui. Não à velha catequese segundo a qual nosso lugar natural é o de consumidores agradecidos do elaborado e exportadores disciplinados do bruto.
A inteligência artificial já mostrou do que é capaz quando serve ao monopólio e à disciplina. Resta saber do que poderá ser capaz quando atravessada por uma imaginação periférica menos servil e mais inventiva. No fim, não se pede muito. Pede-se apenas o que sempre foi enorme: que um povo não seja obrigado a olhar para o espelho tecnológico do seu tempo e enxergar nele, mais uma vez, um mundo doente como destino. Que possa, ao menos, ferir esse espelho, deslocar-lhe a imagem, devolver-lhe sotaque, conflito, território, memória, vontade e trabalho. Que possa, por fim, fazer do cálculo um campo de luta e não um veredito. O resto já não será pouca coisa.
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Gustavo Souto de Noronha é Economista do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA)
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