Militarização de Ormuz e alta explosiva dos resseguros já encarecem o transporte marítimo de petróleo, enquanto proposta de resseguradora do BRICS surge como alternativa para reduzir vulnerabilidades energéticas dos emergentes
Por Fausto Oliveira
Com a militarização do Estreito de Ormuz, o tráfego de navios da marinha mercante está muito reduzido. Na data em que este artigo é escrito, ainda há passagem de alguns petroleiros pelo estreito, mas são autorizados apenas os de bandeira amiga ou neutra ao Irã, como navios paquistaneses ou indianos. O tráfego naval caiu entre 86% e 97%, de acordo com as estimativas divulgadas até o momento. Evidentemente, isso nos leva a considerar a hipótese de um novo choque do petróleo, uma vez que por ali passam cerca de 20% da produção mundial do recurso.
Porém, para além da militarização, o risco financeiro passou a contribuir significativamente para a redução do tráfego de navios em Ormuz. A maior resseguradora de contratos de alto risco do mundo, o tradicional Lloyd’s de Londres, diz ainda estar oferecendo resseguros aos armadores que operam no estreito, mas quintuplicou o valor de prêmio de risco para estes contratos.
Normalmente, o Lloyd’s cobra 0,2% em média do valor do navio para ressegurar uma operação de transporte de petróleo em Ormuz. Agora, está cobrando 1% do valor. Isso gera uma enorme diferença nos cálculos de custo benefício das operações de transporte, levando diversos armadores a evitar o afretamento de alto risco enquanto o conflito não arrefecer.
Como resultado, o mundo se encaminha para um novo choque de custos associados ao petróleo. Não é possível afirmar se será um choque como aqueles verificados nos anos 1970, ou um mini-choque que poderia ser amortecido com instrumentos governamentais convencionais. Vai depender do andamento da guerra. Mas já é certo que por pelo menos alguns meses veremos os preços de derivados de petróleo subindo a níveis bem incômodos.
Entendendo os resseguros
Resseguro é um seguro que se faz para uma apólice de seguro. Em situações envolvendo volumes financeiros realmente altos, como o transporte marítimo de cargas sensíveis, as seguradoras não assumem 100% do risco envolvido no seguro oferecido, a fim de evitar que um golpe de má sorte as leve à falência. Para isso, existem as resseguradoras, que recebem parte do risco das apólices (ou sua integralidade). Trata-se de um serviço financeiro como qualquer outro: a seguradora paga para a resseguradora para que no caso de um sinistro não assuma sozinha os custos do prêmio devido ao segurado.
O Lloyd’s de Londres, fundado para cobrir as operações navais da Grã-Bretanha ainda no século XVII, é a primeira e mais tradicional casa de resseguros do mundo. Ao longo do tempo, transformou-se em um mercado que hoje opera como plataforma de resseguros, acessado diariamente por seguradoras do mundo todo. Se lá o prêmio de resseguro está custando 5 vezes mais caro, é porque na ponta as seguradoras estão cobrando dos armadores navais prêmios que talvez estejam acima do próprio contrato de transporte. Ou seja, o transporte marítimo naquela região pode estar economicamente inviável, ou quase.
Um desafio aos emergentes
Quando o assunto é petróleo, há todo tipo de situação ao redor do mundo. O Brasil, por exemplo, é produtor de petróleo cru de qualidade alta no Pré-Sal. Mas optou por reduzir as capacidades nacionais de refino nos últimos anos, a fim de se concentrar em exploração e produção, com vistas ao mercado externo. Hoje, o excedente de petróleo exportado pelo Brasil é de cerca de 640 milhões de barris por ano. Em função disso, as necessidades de importação de combustíveis cresceram no País. O óleo diesel, por exemplo, tem cerca de 11,5% de seu consumo anual importado.
É uma situação de vulnerabilidade maior do que seria necessário e desejável. Há vulnerabilidades maiores, como a China, que é importadora líquida de petróleo. Mas o gigante asiático tem investido pesadamente em refino, não apenas para produção de combustíveis, mas também para produção de derivados petroquímicos.
No entanto, seja lá qual for o caso, os países emergentes sairão prejudicados do choque que está se desenhando com a guerra no Irã. E o acréscimo de custos ao transporte marítimo não os ajuda em nada no atual contexto. Diante disso, esta deveria ser a hora em que a organização dos países emergentes de nossa época, o BRICS, começasse a discutir uma alternativa de resseguro ao Lloyd’s de Londres.
Uma resseguradora interestatal
Caberia ao BRICS, através de seu banco, a estruturação de uma resseguradora internacional dedicada a cobrir contratos de seguro de alto risco dos países membros do bloco. Por ter lastros financeiros nos tesouros nacionais dos países que são membros plenos do bloco, esta entidade poderia assumir riscos maiores sem tomar pressão da parte de cotistas e acionistas em bolsas de valores.
Por outro lado, a mera existência de uma alternativa como esta daria ao mundo em desenvolvimento a possibilidade de planejar seus afretamentos marítimos em bases não críticas, como a que agora se apresenta. O resultado seria maior segurança energética e maior previsibilidade financeira para operadores públicos e privados dos países membros do BRICS.
Por fim, uma resseguradora interestatal do BRICS serviria como pólo de apoio à nova configuração geopolítica. Afinal, já se vão quase 400 anos de domínio absoluto da Inglaterra em uma área de serviço financeiro internacional que em questão de poucos dias pode desorganizar as economias nacionais de quase todos os países.
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Fausto Oliveira é jornalista de economia com experiência nacional e internacional em setores industriais e infraestrutura.
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