Contexto Brasil Blog Produção É a Geografia, neoliberal!
Produção

É a Geografia, neoliberal!

A instabilidade no Estreito de Ormuz expõe a velha verdade: geografia é destino. O Brasil tem vantagens únicas, mas segue incapaz de convertê-las em segurança estratégica, autossuficiência e desenvolvimento sustentável

Por Fausto Oliveira


Há um ditado muito verdadeiro nas discussões sobre política internacional: geografia é destino. Pode chorar, berrar e espernear, mas país nenhum consegue superar por completo suas limitações geográficas. Pelo oposto, algo curioso também se verifica: nem sempre as possibilidades abertas pela geografia são bem aproveitadas a ponto de converter natureza em bônus econômico, político e social. 

O mundo encara, novamente, essas bárbaras verdades neste início de 2026, quando o estrangulamento militar de uma rota geográfica fundamental para o comércio global — o Estreito de Ormuz — encontra-se em alta instabilidade. No momento em que este artigo é escrito, Donald Trump havia anunciado o início de uma operação de retomada de tráfego sob controle da Marinha dos EUA (divulgada sob o nome de Project Freedom). O Irã, por sua vez,  afirmou nada tinha a ver com isso e manteve suas ameaças. Todo esse vaivém indica duas verdades perenes sobre esse conflito que a toda hora muda: Trump é errático em sua política, e o Estreito de Ormuz é de fato um ativo estratégico do Irã, confirmando a importância de sua geografia para a soberania do país. 

Porém, o que nos interessa mais é o efeito econômico da geopolítica, que por sua vez ensina aquela velha lição: nunca é demais lembrar que vivemos num mundo material, onde bilhões de seres materiais têm necessidades materiais constantes, e que por isso não são as infovias ou sistemas virtuais que trarão alimento, insumos básicos e condições de manutenção da vida humana. As rotas marítimas cumprem a maior parte deste papel, e utopia digital nenhuma conseguirá alterar o drama contido na expressão fatal: geografia é destino. 

Assim sendo, o destino do Brasil é sempre menos pior do que muitos outros, visto que nossa geografia é ímpar, um tesouro de possibilidades que deve causar inveja a muitos por aí. Além de uma posição no mapa mundial bem distanciada de eixos de conflito, o País tem terras agricultáveis em larga quantidade, abundante saída para o mar, rios navegáveis de sobra, subsolo riquíssimo, sol todo o ano e espaço, muito espaço. 

Nosso problema é pelo lado oposto do ditado fatalista. Nem sempre uma geografia favorável se converte em vantagens econômicas, políticas e sociais. No caso brasileiro, como sói acontecer, aproveitamos as vantagens naturais até um certo ponto, e então paramos. Enquanto o mundo vive a possibilidade real de escassez de insumos básicos, como petróleo e refinados, gás natural e outros gases, químicos manipulados e vários outros produtos, nós aqui desperdiçamos a chance de uma autossuficiência relativa maior. 

É o preço que se paga por acreditar demais, e por tempo demais, na suposta cooperação comercial internacional trazida pelas chamadas cadeias globais de valor. As falsidades impostas aos países periféricos (nós entre eles!) pela globalização começam a cobrar seu preço mais alto. Por que o Brasil, que conseguiu ser exportador líder de tantos bens agrícolas (soja, milho, algodão, celulose, café, suco de laranja, açúcar), é o mais dependente de fertilizantes entre os grandes produtores? 

Chegamos à maior crise do século XXI sendo a maior economia agropecuária do hemisfério sul e uma das maiores do mundo, porém importando nada menos que 85% dos fertilizantes que mantêm viva toda essa produção. E eis que cerca de 1/3 dos fertilizantes do planeta Terra são transportados via Estreito de Ormuz. E agora? 

E agora que o preço está aumentado e o cenário de escassez é uma realidade. Graças à geografia do Brasil, nossas safras são permanentes. Nos Estados Unidos, que tem uma única safra por ano devido ao clima, a época do plantio é exatamente agora, entre abril e maio, e por lá já surgem notícias de que falta fertilizantes. As conseqüências são desastrosas para todos: menor produção de alimentos, maior preço, clima de insatisfação generalizada em muitos lugares. Um caldo de instabilidade propício a todo tipo de estalo social imprevisível. 

A prudência que tivemos ao investir por quatro décadas em formar uma alternativa ao combustível fóssil, não tivemos para criar autossuficiência em fertilizantes agrícolas. 

O etanol hoje é um substituto nacional da gasolina, e a indústria automotiva nacional desenvolveu uma solução — o motor Flex — que nos permite dentro de certos limites quase que dar de ombros para um choque do petróleo. É diferente com o diesel, mas ainda assim, temos o biodiesel na mistura do diesel comercializado. E embora entre 25% e 30% do diesel sejam importados e cerca de 8% da gasolina também sejam, em ambos os casos temos margem de manobra por aproveitamento de nosso potencial geográfico. O que não significa que o Brasil não deva aumentar sua capacidade de refino de petróleo e garantir ainda mais segurança energética ao país. Deve! 

Mas para proteger nossas super safras agrícolas, não tivemos o mesmo cuidado. A própria Petrobras, que tinha uma estrutura de produção de fertilizantes nitrogenados, foi sabotada pelo governo anterior que decidiu reduzir o tamanho da empresa por pura crença na “metafísica” neoliberal. Com isso, agravou-se o que já era ruim. Seja como for, mesmo com as fábricas da Petrobras, a dependência ainda é muito alta para um país de produção agrícola tão expressiva como o Brasil. 

Correndo em paralelo, a Embrapa já tem décadas de pesquisas feitas sobre fertilizantes biológicos. Estas pesquisas abordam as possibilidades de fertilizar o solo com bactérias, que aplicadas de certa forma, produzem o nitrogênio que o solo necessita para gerar melhores cultivos. Por que isto não está no centro do debate neste momento? 

A situação exige, em termos gerais, muito mais atenção aos antigos ditames do nacionalismo. A proteção das soberanias nacionais em todos os aspectos é um imperativo redescoberto. Todos o estão redescobrindo ao mesmo tempo. E escolhemos o termo “redescoberta” pela simples e prática razão de que ele sempre esteve aí. Foi um lapso de compreensão e confusão coletiva que levou muitos a acreditar que um cenário geopolítico diferente do tradicional se havia instalado no mundo com o fim da Guerra Fria. 

Passada a ilusão, é hora de trabalhar. Se geografia é destino, o do Brasil é um destino potencialmente glorioso, farto e tranquilo. Tão farto e tranquilo que pode servir de tábua de salvação para muita gente necessitada mundo afora. Mas sem um projeto nacional sério que converta tudo isso em realidade, corre o sério risco de ficar na promessa e frustrar as melhores expectativas. 


.
====================
Fausto Oliveira
 é jornalista de economia com experiência nacional e internacional em setores industriais e infraestrutura.
====================

 

 Participe do nosso grupo de avisos no WhatsApp e receba notificações de todas as nossas publicações. Clique AQUI e acesse.

 Comente essa matéria no instagram do Contexto Brasil!

Sair da versão mobile