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O que está acontecendo talvez seja maior do que uma “guerra mundial”

Guerra no Oriente Médio desorganiza economia global, preços de petróleo e fertilizantes disparando e gás hélio para IA seriamente ameaçado; Brasil deve enfrentar recessão agrícola e dilema de realinhamento estratégico

Por Fausto Oliveira

Após um mês de conflito no Oriente Médio, a desorganização da economia mundial já é uma realidade, mesmo que muitos ainda prefiram tapar o sol com a peneira. Acompanhamento diário feito pela agência Bloomberg, uma das mais confiáveis, mostrava na data de ontem (30/3) os seguintes efeitos acumulados em pouco mais de 30 dias de guerra:

• 103 navios a menos por dia atravessando o Estreito de Ormuz;
• aumento de 58,4% nos contratos futuros de petróleo Brent;
aumento médio de 31,4% na gasolina paga por consumidores americanos;
• aumento de 71% no preço base do gás na Europa;
• queda média de 9,2% no mercado global de ações. 

Como se não bastasse, as perspectivas de futuro fazem jus aos piores adjetivos: são sinistras, terríveis, imprevisíveis. Já se discute, por exemplo, que o preço do barril de petróleo possa chegar a inéditos US$ 200. Pode acontecer, caso o Irã mantenha o Estreito fechado à passagem da maioria dos navios, liberando apenas as embarcações daqueles que se comprometeram a não apoiar o ataque de EUA e Israel (China, Paquistão, Espanha e poucos mais). 

Mas há muitos outros estragos associados que, aos poucos, vão se revelando. A escassez de fertilizantes é um deles. Nos Estados Unidos, os meses de março e abril são a semeadura da safra anual. E já há registro de falta de fertilizantes, o que comprometerá os preços de alimentos em todo o mundo (jogando sal na ferida do preço dos combustíveis). O gás natural, cuja oferta proveniente do Golfo Pérsico é de cerca de 20% do mercado mundial, ficará cada vez mais caro, impactando uma série de produções industriais em muitos lugares. 

Um problema específico, que nos anteriores choques (1973 e 1979) não se verificou, agora está aí: cerca de 30% da produção mundial de gás hélio provém do Golfo. E sem uma provisão regular de gás hélio, os microprocessadores especiais para os datacenters de Inteligência Artificial não podem ser produzidos. Com isso, estão em risco investimentos trilionários de magnatas da tecnologia e dos fundos financeiros que os bancam. Na verdade, a própria aposta de Donald Trump numa “Golden Age” dos Estados Unidos estava assentada em larga medida sobre os retornos de produtividade prometidos pela IA. Caso este processo paralise, adeus “Golden Age”. 

Em suma, estamos diante de um novo choque do petróleo, mesmo que parte dos analistas ainda não aceite a amarga realidade. Teremos alta inflação proveniente de custos internacionais, globalmente distribuída. Teremos, em consequência, uma tendência a forte alta nos juros dos mercados desenvolvidos. Portanto, repetindo o que vimos nos anteriores choques do petróleo, teremos recessão em ambiente inflacionário, ou seja, estagflação. 

É claro que tudo isso pode não acontecer se o conflito encontrar uma saída a curto prazo. Mas a julgar pelas atitudes dos envolvidos, não será assim. Irã tem arsenal para mais de um ano de guerra, com capacidade para destruir Israel e expulsar os EUA do Golfo Pérsico por meio da destruição de suas bases. Os estados do GCC (Gulf Cooperation Council), alinhados aos EUA, deverão pressionar Trump a sair do conflito, o que ele só fará se conseguir abrir o Estreito que ele próprio foi responsável por fechar ao iniciar a guerra. O cenário político doméstico nos EUA e o cenário geopolítico parecem estar amarrados em um nó cego, considerando ainda a impossibilidade total de diplomacias por agora. 

 

Fator de descompressão

Diferentemente dos anteriores choques do petróleo, hoje há um fator de descompressão. Atende pelo nome de República Popular da China. Uma das saídas mais evidentes para mitigar os efeitos imediatos dessa crise é a adoção universal do pacote elétrico chinês: carros e ônibus elétricos, baterias e sistemas de armazenamento, painéis solares e turbinas. 

O preço da solução, contudo, é geopolítico. A fim de se beneficiar das soluções chinesas, que têm a escala necessária para atender ao menos grande parte das demandas mundiais, o mundo terá que passar a usar o Yuan como moeda de curso internacional. Assim, vai se desenhando (ainda que um tanto à fórceps) a transição do Dólar para o Yuan. Não que a crise atual fará isso por completo, mas é definitivamente um passo que, quando for dado, não haverá retorno. 

Some-se a isso a provável incapacidade dos estados alinhados aos EUA no Golfo Pérsico em continuar operando seu comércio de recursos fósseis em dólar, é quase certo que tampouco seus excedentes financeiros terão Wall Street como destino. Em outras palavras, a “toll booth” do Irã em Ormuz, ou seja, uma cabine de pedágio para o transporte marítimo, vai cobrar em Yuan, forçando o curso internacional da moeda chinesa, o que vai levar somas enormes de capital a negociações de contratos futuros em Yuan, e nas bolsas asiáticas. Para que isso aconteça, basta que os estados do GCC sejam forçados pelo Irã a se desalinhar dos Estados Unidos. E isto já está acontecendo! 

Um declínio fenomenal da ordem ocidental pode estar em curso, com esta guerra absolutamente evitável que Donald Trump aceitou iniciar em nome de Benjamin Netanyahu, sob a falsa premissa de que o Irã estava “a duas semanas” de confeccionar um artefato nuclear.   

 

Alternativas para o Brasil

O Brasil será afetado pela crise de maneira menos grave em alguns aspectos, mas ainda assim grave. Em outros aspectos, podemos esperar um forte impacto. Importador líquido de cerca de 90% dos fertilizantes que utiliza, o Brasil será atingido em cheio pela crise no que diz respeito aos custos da produção agrícola e, em consequência, na alta de preços das commodities que já está no horizonte. Por outro lado, dificuldades logísticas deverão impactar o comércio internacional do agronegócio, tanto por quebra de cadeias de transporte marítimo como por alta nos custos de afretamento e seguro.

No aspecto de combustíveis, e seu conhecido efeito inflacionário sobre a economia doméstica, vamos agora pagar o preço de termos desinvestido em distribuição nacional de combustíveis. Petroleiros organizados já perceberam o erro estratégico e começam movimento para reestatizar a BR Distribuidora, que hoje se chama Vibra e não tem qualquer obrigação de contribuir para a formação de preços de gasolina e diesel mais condizentes com a realidade do consumo no país. É de se esperar que tenhamos alta generalizada nos preços e manutenção da taxa Selic em patamares altíssimos por mais tempo.

Com isso, o Brasil flerta seriamente com a recessão em um ano eleitoral. E os efeitos de uma recessão no Brasil costumam se espalhar até certo ponto por países vizinhos que exportam para cá diversos de seus produtos de mais alto valor. Por isso, o declínio ocidental provavelmente não nos deixará de fora. Nos veremos, então, confrontados com uma questão essencial: diferentemente dos Estados Unidos e Europa, nós temos a possibilidade de escolher um realinhamento estratégico. Ficaremos fiéis ao Ocidente geopolítico em crise permanente ou tomaremos um novo rumo?

 

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Fausto Oliveira
 é jornalista de economia com experiência nacional e internacional em setores industriais e infraestrutura.
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