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Como responder a agressão de Trump com o olhar no futuro

Ameaçado por tarifas e pressões geopolíticas dos Estados Unidos, o Brasil precisa combinar uma resposta diplomática imediata com ações estruturantes de soberania tecnológica, energética, comercial e monetária de longo prazo

 

Quando Donald Trump tomou posse para seu segundo mandato como presidente dos Estados Unidos, quase todos os principais magnatas da tecnologia compareceram à cerimônia. A exceção, dentre os grandes, foi Bill Gates. Estavam lá Elon Musk, apoiador de primeira hora que foi nomeado assessor especial para um departamento de eficiência governamental, Jeff Bezos (Amazon), Mark Zuckerberg (Meta), Tim Cook (CEO da Apple), Sundar Pichai (CEO do Google) e Shou Zi Chew (CEO do TikTok).

Ficava clara a aliança entre o poderio da economia digital sediada no Vale do Silício e o novo governo. Não chegou a ser surpresa para os observadores atentos, visto que a retórica do movimento MAGA, que inspira reflexos em diversos movimentos nacionais da nova direita pelo mundo, defende com força uma ideia distorcida do princípio de liberdade de expressão nas redes sociais. Faz parte da agenda deste movimento situar o conflito político do mundo digital como se ele fosse uma questão de censura estatal X liberdade individual.

Assim, consegue-se um mecanismo poderoso para atuar politicamente. Isto foi feito internamente, nos Estados Unidos, e passou a ser exportado. Trata-se de um instrumento de intervenção política. Assim como a nova política tarifária com a qual o governo de Trump passou a redesenhar as relações comerciais do mundo. Também são um instrumento político, cujo uso claramente serve ao interesse de renovar a hegemonia política dos Estados Unidos sobre o mundo.

De fato, há mais de uma razão para que os Estados Unidos ser preocupem com a possível perda de sua hegemonia. O cenário atual é muito diferente daquele em que, após a segunda Guerra Mundial, os EUA coordenaram a construção de um sistema de instituições planetárias para servir a seus interesses.

Foram muitas as instituições e espaços de poder internacional criados segundo o interesse dos Estados Unidos, a exemplo de: Organização das Nações Unidas, General Agreement of Trade and Tariff (GATT, que mais tarde se tornou a Organização Mundial do Comércio), Fundo Monetário Internacional (criado a partir do acordo de Bretton-Woods que impôs o dólar como moeda de curso mundial), Banco internacional de Recuperação e Desenvolvimento (conhecido como Banco Mundial), Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), e muitas mais.

Mas os recentes movimentos de ordem política e econômica no mundo, com a ascensão espetacular da economia chinesa, e com a criação de novos blocos internacionais que se pretendem fora da esfera de influência dos EUA (como o BRICS) representam um desafio àquele cenário de hegemonia absoluta (que se consolidou após o fim da Guerra Fria). A resposta de Trump a esses desafios, até o momento, é na forma de uso de redes sociais como cavalo de batalha (a “luta pela liberdade”) e imposição de um novo regime comercial por meio de tarifas escorchantes para acesso ao mercado deles (a “luta por justiça contra países que levam vantagem contra os EUA”).

Agora, chegou a vez do Brasil. Estamos na mira de Donald Trump, inicialmente com uma tarifa de 50% para todos os produtos brasileiros exportados para lá, o que inviabilizará o comércio bilateral se for de fato implementado. Como responder?

Pedir negociações e tentar entender até que ponto isso deverá de fato acontecer, e neste caso trabalhar relativizações da ordem presidencial, visando por exemplo isentar  da tarifa os aviões da Embraer, é um bom começo. Mas a carta que Trump enviou ao Brasil faz menção explícita a um processo judicial em curso no STF, pedindo que parem a “caça às bruxas” contra Jair Bolsonaro e seus aliados, que segundo ele o processo representa. Reciprocidade comercial dá conta disso? Ao que parece, não.

Por outro lado, a prudência recomenda prever que as investidas do governo dos EUA não pararão por aí. Exatamente porque os interesses dos magnatas da economia digital estão em jogo. A defesa de Jair Bolsonaro, como deveria ser claro para todos, é apenas um pretexto para forçar o Brasil a não regular ou taxar as plataformas digitais dos EUA que operam por aqui. Assim sendo, o elemento político visível é subordinado a um objetivo econômico. Que, por sua vez, responde a um objetivo político invisível: a retomada da hegemonia mundial pelos Estados Unidos. Isto é o que lá se chama de “make America great again”.

Ocorre que a estratégia de resposta, agora, não pode se resumir à defesa da refundação do multilateralismo sob bases justas e inclusivas, como defendido pelo presidente brasileiro em artigo publicado hoje (11/7) em jornais de diversos países. Afinal, não há nenhuma evidência de que os governos dos países com maior poderio bélico, tecnológico e econômico estejam dispostos a contribuir com a construção do novo multilateralismo idealizado pela diplomacia brasileira.

Do ponto de vista estritamente diplomático, é até compreensível que o Brasil siga se manifestando favorável à cooperação internacional. Mas é preciso que o governo brasileiro adote providências concretas que reforcem a soberania nacional de fato, a exemplo de: assumir agora maior independência e pró-atividade na soberania energética; defender a Amazônia Azul como um território produtivo, ambiental e tecnológico nacional; estabelecer uma política ampla de infraestrutura visando retomar as capacidades da engenharia nacional perdidas; por fim e mais importante, assumir uma defesa de uma moeda (ou cesta de moedas) alternativa ao dólar nas negociações do BRICS.

O idealismo universalista não deve ser confundido com resignação diante de relações internacionais que certamente seguirão pautadas no futuro próximo pelos instrumentos de poder econômico, tecnológico e militar que cada país dispõe.

 

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Fausto Oliveira
 é jornalista de economia com experiência nacional e internacional em setores industriais e infraestrutura.
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