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A geopolítica dos minerais críticos e o lugar do Brasil e da América do Sul

A disputa entre EUA e China por minerais críticos projeta-se sobre a América do Sul. Com reservas estratégicas, o Brasil deve diversificar parceiros e internalizar tecnologia para garantir soberania mineral.

Por Raphael Padula

Os chamados minerais críticos são recursos naturais considerados essenciais para a economia, a defesa e a segurança nacional, por sua importância para indústrias de alta tecnologia – como a transição energética e a transformação digital – e/ou para capacidades estratégicas do Estado, combinada a elevado risco de interrupção de suprimento em razão de sua concentração geográfica e/ou controle de suprimento. Estão entre eles o lítio, o cobalto, o níquel, a grafite e as terras raras, essenciais para baterias e ímãs permanentes; o cobre e o silício, centrais para redes elétricas e semicondutores; e o nióbio, o gálio e o germânio, aplicados em ligas especiais e em eletrônica avançada. Esses minerais sustentam tanto a transição energética – cuja aceleração rumo a emissões líquidas zero (NZE) depende intensivamente de recursos não renováveis – quanto a própria infraestrutura física da transformação digital: semicondutores, data centers, redes elétricas e sistemas de armazenamento que sustentam a Inteligência Artificial (IA) e a computação avançada, cuja expansão eleva continuamente a demanda por energia e por esses minerais.

A conjuntura de intensificação da disputa de poder global entre Estados Unidos e China engendra inevitavelmente uma competição geopolítica pelo controle desses minerais e de suas cadeias de suprimento, expressa tanto por políticas que visam a internalização de setores estratégicos quanto por estratégias externas de acesso a recursos por meio de alianças e/ou investimentos. Nesta competição, as políticas estatais expressaram não somente a busca por uma inserção econômica nas etapas de maior valor agregado e intensidade tecnológica em cadeias globais de valor, mas, principalmente, o controle e/ou segurança de suprimento em cadeias e/ou etapas consideradas estratégicas para a autonomia nacional, deixando em segundo plano a preocupação com ganhos econômicos. Essa disputa projeta-se sobre o Brasil e a América do Sul, como região de grande relevância em reservas globais de minerais críticos, ampliando riscos, mas também abrindo oportunidades para os países da região.

 

  1. A geopolítica global dos minerais críticos: posições e estratégias das grandes potências

A China construiu, ao longo das duas últimas décadas, posição dominante não somente na extração, mas sobretudo no processamento, no refino e na manufatura avançada associados às cadeias de transição energética, baterias, semicondutores e IA. Isto fruto de uma estratégia estatal deliberada e de longo prazo, que articula política industrial (como o Made in China 2025), financiamento público, diplomacia Estado-Estado e internacionalização de empresas estatais, inclusive por meio da Belt and Road Initiative (BRI). Essa posição não decorre de disponibilidade geológica, mas de capacidade e ação estatal: a China controla cerca de 90% do refino mundial de terras raras e de grafite anódica, 70% do processamento de lítio e 45% da produção de cobre refinado, entre outros. Desde 2023, o país vem utilizando controles de exportação sobre minerais estratégicos (terras raras, grafita, gálio, germânio, antimônio) como instrumento geopolítico de coerção diante da contenção tecnológica ocidental.

Essa posição chinesa articula-se também a uma preocupação central com segurança energética: o país lidera a transição energética mundial, respondendo por cerca de um terço dos investimentos globais em energia limpa e pela maior capacidade instalada de solar e eólica, ao mesmo tempo em que amplia usinas a carvão e seu programa nuclear, revelando uma estratégia voltada à redução de vulnerabilidades externas. Entre 2023 e 2025, medidas como os Regulamentos de Gestão de Terras Raras e a revisão da Lei de Recursos Minerais reforçaram a propriedade estatal sobre os recursos e o controle sobre cotas de mineração, evidenciando que o domínio chinês nas cadeias de minerais críticos é, antes de tudo, resultado de decisão política e de planejamento estatal de longo prazo.

Os EUA apresentam elevada dependência externa de minerais críticos processados, com um índice de suprimento externo em relação à demanda interna (NIR – Net Import Reliance) de 100% em 13 minerais críticos – entre eles gálio, grafita natural e índio (USGS, 2026). Diante dessa posição, os EUA reagem na busca por segurança de suprimento e redução da dependência da China, colocando em prática ações internas de fortalecimento de suas bases produtivas domésticas, como o CHIPS and Science Act e o Inflation Reduction Act; que condicionam incentivos fiscais e créditos para veículos elétricos à origem doméstica ou de países parceiros dos minerais críticos utilizados em baterias. No início de seu segundo mandato em 2025, o presidente Donald Trump assinou diversas ordens executivas relacionadas ao tema dos minerais críticos – como a America First Investment Policy e as ordens voltadas a minerais críticos processados (ações da Seção 232) e a minerais críticos offshore. A Minerals Security Partnership, substituída em 2026 pelo FORGE (Forum on Resource Geostrategic Engagement), é liderada pelos EUA e reúne a UE e outros aliados para coordenar investimentos e estoques estratégicos, enquanto o projeto Vault estrutura uma reserva estratégica de minerais críticos por meio de parceria público-privada. Documentos estratégicos recentes, como a National Security Strategy dos EUA (NSS, 2025), tratam os minerais críticos como recursos vitais para a segurança nacional, afirmando inclusive que os EUA devem desenvolver conjuntamente com “parceiros hemisféricos” os recursos estratégicos do Hemisfério Ocidental, afastando a presença de potências externas rivais. Para além do permanente interesse dos EUA em manter sua supremacia hemisférica, a conjuntura recente apresenta uma postura agressiva de Washington em relação à América do Sul, região onde se registram também ações mais diretas de projeção de poder estadunidense, como a recente captura do presidente venezuelano Maduro em janeiro de 2026.

A União Europeia, por sua vez, ocupa posição de elevada dependência externa, sobretudo da China, em praticamente todos os minerais críticos relevantes para a transição energética e digital. Por exemplo, 97% do magnésio e 98% de grafite são importados da China, assim como a quase totalidade do refino de terras raras pesadas utilizadas em ímãs permanentes e a maior parte do cobalto refinado, cuja extração se concentra na República Democrática do Congo. O Critical Raw Materials Act (CRMA), em vigor desde abril de 2024, estabelece metas ousadas para 2030: ao menos 10% da extração de minerais críticos em solo europeu, 40% da capacidade de refino localizada no bloco, 25% de reciclagem a partir de fontes secundárias e limite de 65% do suprimento de qualquer material estratégico proveniente de um único país terceiro. No plano externo, a UE promove parcerias de friend-shoring com 14 países e lançou o projeto Global Gateway, em 2021, para competir com a BRI chinesa, associando financiamento de infraestrutura logística ao acesso a recursos estratégicos.

Essa disputa é agravada pelo fato de que os mesmos minerais críticos que sustentam a transição energética também são a base física da infraestrutura de IA e de computação avançada – semicondutores, GPUs, data centers e redes elétricas -, o que faz com que a competição tecnológica em curso entre as potências não se restrinja ao setor energético, mas atravesse também a indústria de defesa e as telecomunicações, entre outras. É por isso que a disputa por minerais críticos deve ser lida não como um tema setorial isolado, mas como parte central da própria disputa de poder global contemporânea entre EUA e China, e seus respectivos aliados.

A combinação dessas posições revela uma disputa geopolítica global estruturada em dois movimentos complementares: de um lado, a internalização de cadeias produtivas por meio de políticas minerais, industriais e científico-tecnológicas explícitas; de outro, a projeção externa de poder, por meio de investimentos, financiamentos e alianças, para garantir acesso a recursos localizados fora dos respectivos territórios nacionais. É justamente essa segunda dimensão que projeta a disputa sobre regiões como a América do Sul, inclusive no plano da infraestrutura logística: a China ampliou sua presença na região por meio da BRI – com destaque para o investimento de US$ 3,5 bilhões da estatal COSCO no Porto de Chancay, no Peru, que reduz significativamente o tempo de transporte de minerais sul-americanos até a China -, enquanto EUA e UE buscam alternativas de conectividade e financiamento associadas a suas próprias iniciativas de segurança de suprimento.

 

  1. A América do Sul e o Brasil no tabuleiro geopolítico global

A América do Sul consolida-se como uma das regiões mais ricas do mundo em minerais críticos, concentrando cerca de 26,5% das reservas globais de cobre (lideradas por Chile e Peru, com quase 40% da produção mundial) e 38,5% das reservas comercializáveis de lítio, no chamado “triângulo do lítio” (Chile, Argentina e Bolívia). O lítio extraído de salmoras é o mais rentável do mercado, e a região responde por 32% da produção mundial, embora com modelos de governança distintos entre os países: no Chile, contratos estatais envolvendo a chilena SQM (com 24% de capital chinês, via Tianqi Lithium) e a estadunidense Albemarle na extração de lítio, e a estatal Codelco, em joint-venture com a SQM, no cobre; na Argentina, um modelo de mercado aberto, com presença variada de capitais chinês e ocidental; e, na Bolívia, controle estatal integral, cujo desenvolvimento em escala, no entanto, ainda enfrenta desafios técnicos e de infraestrutura, apesar de deter o maior potencial de reservas.

Posição do Brasil em reservas mundiais de minerais críticos selecionados

Mineral Posição do Brasil
Nióbio Maiores reservas mundiais; ~93% da produção mundial
Grafita natural 2ª maior reserva mundial, atrás apenas da China
Terras raras 2ª maior reserva mundial (empatado com o Vietnã), atrás apenas da China
Manganês ~16,7% das reservas mundiais (atrás de Austrália e África do Sul)
Níquel ~15% das reservas mundiais; “ator emergente chave” para níquel de grau bateria

Fonte: elaborado pelo autor com base em USGS (2026) e IEA (2025).

 

A posição da América do Sul ganha relevância adicional diante das projeções de demanda: a IEA estima crescimento acelerado do consumo mundial de minerais críticos até 2050, puxado pela transição energética, com destaque para o lítio – cuja demanda deve aumentar 4,7 vezes entre 2024 e 2040 – e para o cobre, cuja oferta projetada pode não ser suficiente para atender à demanda até 2035, com déficit implícito de 30%. Como a América do Sul concentra parcela expressiva das reservas globais de ambos os minerais, a região tende a se tornar alvo ainda mais disputado de investimentos estratégicos nos próximos anos, o que reforça tanto o potencial econômico da região quanto os riscos de uma inserção baseada apenas na exportação de recursos brutos.

De fato, essa dotação de recursos já se traduz na projeção de potências externas, por meio de instrumentos econômicos e políticos. Desde 2010, empresas chinesas expandiram fortemente sua presença na mineração latino-americana – com cerca de US$ 15 bilhões investidos no Peru (controlando minas como Las Bambas e Toromocho) e presença relevante no Chile, na Argentina, no Brasil e no Equador -, ao mesmo tempo em que os EUA reagem com instrumentos próprios de geoeconomia. Exemplo emblemático é a aquisição da mineradora brasileira Serra Verde (única mina em operação comercial de terras raras no Brasil e única a produzir, em escala, os quatro elementos magnéticos fora da Ásia) pela estadunidense USA Rare Earth, no valor de US$ 2,8 bilhões, com amplo apoio de financiamento estatal. A operação por meio de uma Sociedade de Propósito Específico (SPV) reúne US$ 750 milhões do Departamento de Defesa dos EUA, uma linha de crédito de até US$ 500 milhões, e o compromisso do governo dos EUA de comprar ao menos US$ 300 milhões em terras raras ao longo de cinco anos (USA RARE EARTH, 2026). Nas relações comerciais com a China, o padrão primário-exportador se confirma: 43% das importações chinesas provenientes da região correspondem a minerais, com Peru e Chile — os dois maiores exportadores mundiais de cobre para a China — registrando entre 79% e 90% de suas exportações à China concentradas em minérios.

Contudo, a capacidade de a região negociar de forma mais vantajosa com essas potências é limitada pela fragmentação política regional. A paralisia da Unasul, a partir de meados da década de 2010, evidenciou o predomínio de políticas de governo – e não de Estado – na integração sul-americana, abrindo espaço para maior atuação de potências externas. Iniciativas recentes, como o Consenso de Brasília (2023), sinalizam esforços de reaproximação entre os países da região, mas operam sob institucionalidade deliberadamente mais flexível, refletindo a persistência de alinhamentos externos divergentes entre os governos, que expõe os limites ainda estreitos da coordenação regional como instrumento de negociação coletiva frente às grandes potências.

 

  1. Oportunidades e desafios para o Brasil

Nesse quadro global e regional, o Brasil enfrenta oportunidades e riscos que recomendam uma postura pragmática na escolha e diversificação de parceiros. A diversidade das reservas brasileiras (nióbio, grafita, terras raras, níquel) oferece ao país uma janela de oportunidade para avançar além da exportação de minério bruto, buscando internalizar etapas de maior valor agregado – processamento, refino e manufatura avançada -, reproduzindo, em alguma medida, a lógica de controle de cadeia que caracteriza a própria estratégia das grandes potências. 

O Brasil é reconhecido pela IEA e pelo USGS como parceiro-chave para a redução de risco das cadeias de suprimento ocidentais e como destino estratégico de investimentos voltados à diversificação e à redução da dependência ocidental da China. Isto já se traduz em financiamento estatal direcionado pelos EUA, como visto no caso da empresa Serra Verde. Trata-se, contudo, de uma frente a ser negociada com cautela, considerando os interesses estruturais dos EUA de supremacia e controle do hemisfério ocidental, combinados à postura do governo atual – marcada por unilateralismo comercial, condicionalidades políticas e instabilidade mesmo em relação a aliados tradicionais. Tal quadro limita sensivelmente o alcance dessa parceria como eixo estruturante da estratégia mineral e industrial brasileira, tornando mais prudente tratá-la como uma entre várias frentes de negociação simultânea, e não como opção preferencial.

Nesse esforço estatal ativo de diversificação pragmática, as parcerias no âmbito do Sul Global e do BRICS – em especial com a China – devem ser valorizadas e ampliadas, por abrirem leque relevante de opções de financiamento e parcerias tecnológicas, sem que isso implique alinhamento automático ou substituição de uma dependência por outra. No mesmo espírito, o atual estremecimento das relações dos EUA com antigos parceiros, como o Canadá e a UE – em razão de divergências originadas pela aplicação de tarifas comerciais e pela guerra no Irã -, também abre ao Brasil oportunidades concretas de parcerias pragmáticas com esses países, envolvendo investimentos associados a transferências tecnológicas. No caso da Europa, sua perda de importância política global pode ser aproveitada em favor de parcerias com ganhos conjuntos, inclusive no âmbito do acordo Mercosul-UE. O objetivo dessa estratégia deve ser manter o país como negociador ativo entre múltiplos parceiros, evitando tanto o alinhamento automático a qualquer um deles quanto a posição passiva de mero território de disputa entre grandes potências.

A busca pela redução de emissões de gases poluentes e a aceleração da pressão externa por transição energética, bem como a crescente competição econômica associada à transformação digital e IA, tendem a pressionar o Brasil e seus vizinhos rumo a uma exploração acelerada de recursos, com risco de reproduzir um padrão histórico de inserção subordinada, a “maldição dos recursos” econômica e geopolítica, caso a extração não venha acompanhada de desenvolvimento produtivo e tecnológico nacional, gerando autonomia em setores estratégicos. Indo além da soberania sobre a extração dos recursos e seu aproveitamento, é preciso avançar em toda cadeia em direção à ampliação da autonomia digital e energética. 

O risco da “maldição dos recursos” é potencializado pela fragmentação política sul-americana, que reduz o poder de barganha regional diante de EUA e China e dificulta a coordenação de políticas de exploração e de agregação de valor entre os países vizinhos. Ao mesmo tempo, a política externa mais agressiva de Washington em relação ao Hemisfério Ocidental, expressa na NSS 2025, coloca a região sob pressão explícita sobre seus recursos naturais, velada sob o discurso de combate a “novas ameaças” como o narcotráfico, servindo como instrumento de ingerência política. Some-se a isso os desafios técnicos, ambientais e sociais já registrados na exploração de lítio e outros minerais na região, como os impactos hídricos no deserto do Atacama, que exigem marcos regulatórios robustos para equilibrar exploração econômica e sustentabilidade socioambiental.

Nesse contexto, o aprofundamento de mecanismos de financiamento e cooperação no âmbito do Sul Global, incluindo o Novo Banco de Desenvolvimento do BRICS e acordos bilaterais de transferência tecnológica com a China e outros potenciais parceiros, desponta como uma das frentes mais promissoras dessa diversificação pragmática, por reduzir a dependência de capital e tecnologia ocidentais ou chinesas isoladamente e ampliar o espaço de manobra do Brasil e de seus vizinhos sul-americanos. Trata-se, contudo, de uma alternativa que poderia ser potencializada pela capacidade de coordenação regional – historicamente o elo mais frágil da inserção internacional sul-americana -, dado que iniciativas isoladas por parte de cada país tendem a reproduzir a mesma lógica de barganha desigual observada nas relações bilaterais com EUA e China.

Em termos mais concretos, como sugere a experiência das potências mencionadas, o Brasil deveria avançar na construção de uma Política Nacional de Minerais Críticos (atualmente em debate no Congresso Nacional) orientada por uma visão estratégica e apoiada na combinação de recursos substanciais e instrumentos de política articulados. Isso envolve, de um lado, investimentos estatais em ciência, tecnologia e inovação, mobilizando fundos, bancos e empresas públicas; e, de outro, o uso de compras públicas, margens de preferência e requisitos de conteúdo nacional. Implica também a oferta de crédito em condições favoráveis e de incentivos fiscais às empresas, de modo a estimular o processamento dos minerais e o desenvolvimento produtivo e tecnológico ao longo de suas cadeias de valor, em articulação com as cadeias energética e digital. Essa estratégia deveria ser complementada por instrumentos de política industrial, comercial e tecnológica, incluindo mecanismos de transferência de tecnologia e contrapartidas associadas aos financiamentos e investimentos, bem como medidas destinadas a evitar a exportação de minerais sem agregação de valor no território nacional. Ao mesmo tempo, seria necessário alavancar investimentos privados e atrair investimentos estrangeiros sob condições que contribuam efetivamente para o adensamento produtivo, a transferência de tecnologia e a capacitação nacional nas cadeias mineral, energética e digital. 

O objetivo dessa combinação de instrumentos deve ser promover o avanço do Brasil em direção à soberania mineral, e à ampliação da autonomia digital e energética, por meio do fortalecimento de segmentos estratégicos dessas cadeias produtivas e da ampliação da agregação de valor no país. Essa estratégia deve, ainda, incorporar padrões ambientais e sociais mais robustos para a atividade mineral, considerando os impactos socioambientais já registrados em outros países da região e a necessidade de que a expansão da mineração seja compatível com objetivos de desenvolvimento sustentável e de longo prazo.

Assim, o principal desafio brasileiro está em calibrar a velocidade de exploração de seus minerais críticos com a construção de capacidade produtiva e tecnológica doméstica, o que depende tanto das políticas e instrumentos estatais mencionados, quanto, de forma decisiva, da capacidade de articulação interestatal para uma inserção internacional mais autônoma. Nesse sentido, iniciativas de coordenação regional, ainda que num formato mais flexível e limitado como o Consenso de Brasília, segue sendo um caminho a ser cultivado, combinada a uma negociação pragmática e simultânea com múltiplos parceiros, despontando como via potencialmente mais viável para que o Brasil transforme sua abundância mineral em desenvolvimento produtivo e tecnológico, e, sobretudo, em soberania em áreas estratégicas (energética e digital), em vez de apenas em uma nova fronteira de disputa entre grandes potências.

Em síntese, o Brasil está diante de uma janela de oportunidade real, mas condicionada. Sua abundância de reservas o coloca como peça relevante na competição geopolítica global pelos minerais críticos, disputada por EUA e China por meio de instrumentos econômicos e políticos. Diante de uma parceria com os EUA hoje marcadamente limitada por sua postura unilateral, e de uma coordenação regional ainda obstaculizada por décadas de fragmentação política – sem que isso justifique abandoná-la -, o caminho mais realista para o país é uma diversificação pragmática de parceiros, que não descarte nem a articulação sul-americana, nem a China e o Sul Global. A forma como o Brasil e seus vizinhos souberem coordenar politicamente e calibrar essa diversificação de parceiros, bem como a exploração e adensamento de cadeias para os minerais críticos, poderá definir se essa condição de abundância de reservas se traduzirá em desenvolvimento produtivo e tecnológico autônomo, ou na reprodução de um padrão histórico de dependência externa. Assim, a soberania sobre minerais crítico é um elemento crucial.

 


Referências

CHINA. State Council. Made in China 2025. Beijing: State Council, 2015.

ELLIS, R. Evan. Preparing for the Strategic Fallout of China’s Advance in Latin America. Washington, DC: CSIS, 2021.

INTERNATIONAL ENERGY AGENCY. Global Critical Minerals Outlook 2025. Paris: IEA, 2025.

UNIÃO EUROPEIA. European Commission. Critical Raw Materials Act. Bruxelas: European Commission, 2023.

UNIÃO EUROPEIA. European Parliament. Regulation (EU) 2024/1252. Official Journal of the European Union, 03/05/2024.

U.S. GEOLOGICAL SURVEY. Mineral Commodity Summaries 2026. Reston, VA: USGS, 2026.

USA. National Security Strategy 2025. Washington, DC: The White House, 2025.

USA. Congress. CHIPS and Science Act of 2022. Washington, DC: U.S. Government Publishing Office, 2022.

USA. Congress. Inflation Reduction Act of 2022. Washington, DC: U.S. Government Publishing Office, 2022.

USA RARE EARTH. USA Rare Earth Announces Completion of Upsized $1.55 Billion Capitalization of the U.S. Government-Backed Special Purpose Vehicle (SPV) for Serra Verde Offtake. GlobeNewswire, 24 ago. 2026. Disponível em: https://www.globenewswire.com/news-release/2026/08/24/3349611. Acesso em: 26 ago. 2026.


 

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Raphael Padula é Professor Associado da UFRJ, da área de Economia Política Internacional.
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