Contexto Brasil Blog Sociedade Por que o debate eleitoral só piora no Brasil?
Sociedade

Por que o debate eleitoral só piora no Brasil?

O primeiro turno de 2026 confirmou: o debate eleitoral brasileiro se reduziu a bets, futebol e religião, sem discutir o país. O paradoxo é que seu rebaixamento tem limite incerto.

 

Por Fausto Oliveira

 

É muito ingrata a tentativa de analisar a qualidade de um debate político nacional no preciso momento em que ele se acirrará. Com o fim do primeiro turno das eleições de 2026, da maneira como ele aconteceu, agora estamos diante de alta probabilidade de agravamento de tudo que será criticado nas linhas abaixo. E se algum incauto talvez pense que aí está a oportunidade, que por isso mesmo o presente artigo ganhará valor, que de saída se recorde a realidade: a imensa maioria da sociedade hoje prefere e escolhe sustentar um debate político de baixa qualidade.

Isso não é de hoje, mas vem piorando. Há quantos ciclos eleitorais os principais concorrentes se ocupam de trocar acusações e golpes abaixo da cintura a fim de elevar a rejeição um do outro, em detrimento de uma discussão adulta sobre o país que desejam governar? Nessa toada, partidos e políticos já acostumaram o povo a um debate rasteiro e desprovido de qualquer ideia (ou mesmo sentimento) menos pedestre. 

A nova linha vermelha que foi cruzada em 2026 nos apresenta um elemento de curiosidade. Quem tem um pouco mais de idade deve se lembrar do que se dizia há tempos: “política, futebol e religião não se discute”. Décadas atrás, tratava-se de uma regra de etiqueta ainda algo marcada pelos silêncios impostos pelo ambiente do regime militar, mas que de alguma maneira era apropriada por pessoas bem intencionadas para que se mantivesse a harmonia nas relações interpessoais. Essas eram as usuais maneiras brasileiras de evitar ou contornar conflitos, já fomos assim!

Naquele instante histórico, a política se discutia nos debates da televisão, o futebol em botecos e encontros familiares, e a religião não eram exatamente discutida, mas aceita e praticada com certa reverência. Passados todos esses anos, os debates da televisão não valem mais nada, o futebol é um assunto corporativo tratado por especialistas e a religião é alvo de intensos debates.

Ironicamente, nesta eleição de 2026, em que muitos sentem o mundo girando ao contrário, o debate sem política apelou precisamente para futebol e religião como instrumentos de vitória eleitoral. 

A intervenção sobre o indecente, mas eficiente, mecanismo de financiamento do futebol provavelmente gerou tanto ganhos quanto perdas para o presidente da República, em termos de voto. Assim como a indecente, e quiçá eficiente, ideia de usar a padroeira do Brasil como trunfo eleitoral, pode até ter gerado ganhos, mas já sabemos que se os houve, foram insuficientes. E em ambos os casos, abrem-se relevantes questionamentos. 

No caso das casas de aposta digitais, o debate que se abre não é sobre o conteúdo da intervenção, que é meritório e certamente gerou avaliação positiva de parte importante do eleitorado. Mas ao optar por um corte seco e instantâneo, o governo pode ter criado animosidades junto a um eleitorado que já não lhe seria muito amistoso. Curiosamente, o uso de postagens de terceiros a respeito de Nossa Senhora Aparecida para associar supostas ameaças ao adversário pode ter cruzado uma linha inaceitável mesmo entre aqueles que talvez fossem o público alvo da estranha tentativa, os religiosos.     

Não há julgamentos definitivos a se fazer sobre estes fatos, o que há é apenas um diagnóstico sobre a impossibilidade prática das eleições no Brasil contemporâneo para abrir debates saudáveis. E sobre as causas disso, o que dizer? 

Sociólogos e cientistas políticos se revezarão em apontar a predominância das redes sociais com sua estética e algoritmos, ou os níveis educacionais persistentemente baixos, ou uma suposta preferência cultural da sociedade por “pão e circo” que levaria partidos e políticos inevitavelmente ao rebaixamento discursivo. Tudo isso são explicações aceitáveis, embora certamente incompletas. Em comum,  todas elas têm o seguinte: existem debaixo do grande guarda-chuva político e conceitual da democracia. E na democracia, quando acontece a degeneração do debate público, tudo o mais degenera por consequência, reservando aos analistas perplexos e aos intelectuais desiludidos um frustrante muxoxo que frequentemente culpabiliza a “ignorância do povo”. 

Proponho uma visão diferente. A degeneração do debate público na democracia deve ser afrontada ativamente. Quem parece ter entendido isso é o agora ex-candidato Renan Santos, que ousou apresentar sua visão de Brasil aos eleitores e foi sobejamente ignorado (e por isso, logo em seguida abraçou a degeneração). A menção a Renan é feita aqui pelo único propósito de ilustrar nossas terríveis condições, afinal quando somente um arrivista que reempacota o cardápio neoliberal se destaca como grande debatedor, é porque tudo vai muito mal. Ocorre que a proposição ativa de um debate de alto nível não pode estar fundamentada em falsidades e nem se sujeitar a relativizações. Saberemos se essa hipótese é crível se, e quando, aparecer um novo populismo brasileiro que levante os temas que o povo de fato quer ouvir.

Que temas são esses? Não sabemos, pois não somos populistas. Eis o paradoxo que nos consome. Mas talvez em algum breve futuro saibamos.  

 

====================
Fausto Oliveira
 é jornalista de economia com experiência nacional e internacional em setores industriais e infraestrutura.
====================

 

📲 Participe do nosso grupo de avisos no WhatsApp e receba notificações de todas as nossas publicações. Clique AQUI e acesse.

👉 Comente essa matéria no instagram do Contexto Brasil!

Sair da versão mobile