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A urgência de imaginar futuros como exercício de sobrevivência

A cultura contemporânea domina a arte de representar colapsos, mas perdeu a capacidade de sonhar alternativas. Imaginar futuros deixou de ser luxo e tornou-se um urgente exercício de sobrevivência civilizatória.

Por Pedro Assumpção Alves

 

Em De Volta para o Futuro II, lançado em 1989, Marty McFly chega a 2015 e encontra carros voadores, skates flutuantes, roupas inteligentes e tecnologias incorporadas ao cotidiano. A construção de futurologia se mostrou imprecisa em boa parte de suas projeções, e, ainda assim, talvez tenha sido um dos últimos exercícios de imaginação mais importantes para a atualidade: construir uma relação confiante com o futuro.

Aquele 2015 não era uma utopia. Havia conflitos e desigualdades. Mas o amanhã apresentava um território de novidade e possíveis soluções. Hoje a paisagem cultural é quase antagônica. Cinema, literatura e séries estão povoados por colapsos, autoritarismos, inteligências artificiais hostis e vigilância. De Black Mirror a tantas outras distopias, desenvolvemos enorme sofisticação para representar diversas versões do que pode dar errado.

Essa mudança parece traduzir uma transformação da subjetividade coletiva. Deixamos de produzir confiança no futuro e passamos para a antecipação de diversas ameaças. O sentido de subjetividade coletiva faz alusão a construção compartilhada de nossa sociedade com o tempo. 

A distopia se tornou o exercício corriqueiro de construção de futuros. Uma das razões para esta preponderância parece estar no fato de que a distopia não precisa romper com o presente. Basta intensificá-lo. A vigilância já existe; amplia-se sua escala. A desigualdade já existe; radicalizam-se seus efeitos. A crise climática já começou; aceleram-se suas consequências. Contudo, como tudo no mundo das ideias, parece que este não é o único motivo.

Nos últimos dois séculos correntes políticas muito distintas compartilhavam a percepção de que a sociedade podia assumir outras formas. O futuro era também espaço de disputa. Esse horizonte começou a se estreitar nas últimas décadas do século XX, com as crises dos anos 1970, o desgaste das grandes narrativas políticas e a queda do bloco soviético como alternativa concreta de exercício de alternativas de organização social.

É dentro daquilo que a literatura chama de “Consenso de Washington” que a noção de “realismo capitalista”, de Mark Fisher, ganha força. Fisher descreve não apenas a predominância de uma doutrina econômica, mas uma atmosfera na qual determinada organização da sociedade passa a parecer natural e inevitável. Outras possibilidades passam a soar ingênuas ou inviáveis.

Certas escolhas passaram a representar modernização; outras, resistência ao curso da história. A disputa política pelo futuro se viu cada vez mais limitada pelo que parecia possível.

A trajetória chinesa introduz um incômodo nessa narrativa. Enquanto parte do debate ocidental caminhava para a convergência em torno de determinadas escolhas econômicas, a China combinava mercados, abertura internacional e expansão do setor privado com planejamento de longo prazo, forte presença estatal e orientação estratégica do desenvolvimento.

Vale a reflexão de que a China não é uma utopia nem um modelo a ser reproduzido. Sua importância aqui é mostrar que a história não havia se fechado. Enquanto parte do Ocidente internalizava a ideia de que a margem de escolha diminuía, outro país construía um presente que não cabia inteiramente naquele consenso.

O limite do possível não é apenas material. Ele também é subjetivo. Sociedades aprendem a desejar determinadas coisas e a considerar outras absurdas. Produzem consensos não apenas sobre o que existe, mas sobre aquilo que pode existir.

É nesse sentido que a perda da utopia importa. Não porque precisemos recuperar sociedades perfeitas, mas porque existe diferença entre utopia como destino e utopia como exercício. A primeira oferece uma resposta definitiva. A segunda rompe a naturalização do presente e recorda que aquilo que existe não esgota aquilo que pode existir.

Essa capacidade se torna decisiva diante da inteligência artificial, da transição climática e das transformações do trabalho. Nunca dispusemos de tantos instrumentos para alterar produção, conhecimento e formas de vida. Ao mesmo tempo, nossa percepção coletiva parece organizada pela antecipação de perdas.

Esses riscos são reais. O problema começa quando o medo se torna a única linguagem disponível para falar do amanhã. Uma sociedade que representa detalhadamente aquilo que teme, mas encontra dificuldade para formular aquilo que deseja, desenvolve uma relação fatalista com o futuro, sem margem para ações alternativas.

Imaginar futuros torna-se, então, um exercício de sobrevivência. Não porque a imaginação substitua a política, mas porque nenhuma transformação positiva começa sem o sonho de uma alternativa.

No Brasil, esse exercício exige recuperar a capacidade de formular caminhos próprios. Ir além do repertório associado ao Consenso de Washington não significa rejeitar estabilidade macroeconômica ou integração internacional. Significa assumir que elas limitam o debate sobre desenvolvimento. Significa recolocar em discussão transformação produtiva, desigualdade, transição ecológica, capacidade estatal e soberania tecnológica. Imaginar alternativas pode ser o primeiro passo para que o Brasil volte a acreditar em seu próprio futuro.

 

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Pedro Assumpção Alves é Economista e Mestre em Demografia, Servidor Público Federal da carreira de Especialista em Políticas Públicas e Gestão Governamental, atualmente em exercício na Secretaria de Gestão de Pessoas do MGI. Já atuou em temas relacionados ao Desenvolvimento de Capacidades Estatais, determinantes sociais da saúde, Direitos Humanos e Desenvolvimento Agrário e Rural.
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