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Ficar a pátria livre dos golpistas

Lula reeleito faz da soberania a marca do quarto mandato. Os grilhões de hoje não são os de 1822: são digitais e silenciosos, de nuvens a juros sem controle nacional.

Por Márcio Gimene

 

Na noite de 25 de outubro, a Avenida Paulista cantou o Hino da Independência a pedido do reeleito presidente Lula. Quando a multidão entoou “ou ficar a pátria livre, ou morrer pelo Brasil”, ficou claro que o presidente pretende tratar a soberania como uma marca do seu próximo mandato.

No discurso da vitória, Lula anunciou uma mudança no modo de governar. Vai conversar com o povo diretamente, evitando que suas palavras sejam filtradas por quem as interpreta de má-fé. Durante a campanha, canais como o Exército do Lula mostraram que milhões de brasileiros podem se informar e se organizar sem depender da mediação dos grandes grupos de comunicação. O desafio do quarto mandato é transformar essa rede de mobilização eleitoral em força permanente de transformação. Nenhuma grande mudança no Brasil saiu do papel apenas pela vontade de quem governa. Saiu porque havia povo na rua mobilizado para sustentá-la. Manter ativa a química construída coletivamente no segundo turno será fundamental para lidar com as resistências dos donos dos grandes meios de comunicação, do mercado financeiro e dos representantes do atraso no Congresso Nacional. 

Duas iniciativas emblemáticas indicam o rumo: o fim da escala 6×1 e a proposta de tarifa zero no transporte público nos fins de semana. As duas têm algo em comum, porque devolvem tempo e cidade a quem trabalha. Combinar o direito a dois dias de descanso por semana com a gratuidade do transporte público nos fins de semana é um avanço civilizacional que se traduzirá em mais qualidade de vida, cultura, esporte e lazer para trabalhadoras e trabalhadores de todo o país. 

 

Os grilhões de agora

“Já raiou a liberdade no horizonte do Brasil”, diz o hino. Em 1822, os grilhões eram mais visíveis. Hoje, a soberania se disputa em terrenos menos óbvios:

  • no sistema de pagamentos que governos estrangeiros tentam enquadrar;
  • nos dados dos brasileiros que treinam modelos de inteligência artificial controlados no exterior;
  • nos minerais críticos exportados sem agregação de valor;
  • na dependência de fertilizantes importados para produzir os alimentos que exportamos; e
  • nos juros que inviabilizam a ampliação em larga escala do consumo popular e dos investimentos produtivos de média e alta complexidade tecnológica.

O hino fala dos grilhões forjados pelo “astuto ardil” da perfídia. Os de hoje são digitais e silenciosos. Um país pode se tornar intensamente digitalizado e, ao mesmo tempo, mais dependente, pagando em dólares por nuvem, software e plataformas que não controla. Por isso foi acertado o recado da Paulista: o Brasil não aceita ser quintal de ninguém. Regular as grandes plataformas, instalar capacidade computacional no país e desenvolver inteligência artificial brasileira não são caprichos tecnológicos. São a versão contemporânea do grito do Ipiranga.

Num mundo em que tarifas, sanções e controle tecnológico viraram armas econômicas, o Brasil não precisa escolher entre alinhamento automático e isolamento. Precisa diversificar parcerias, fortalecer a integração sul-americana e falar com voz própria nos fóruns internacionais. 

 

Sem Estado e cidadãos ativos, não há soberania

Nada disso acontece com um Estado passivo, que se limita a administrar a escassez e a aceitar regras escritas por outros. O “tesouraço” prometido pela candidatura derrotada, um corte de centenas de bilhões sem destino declarado, descontinuaria inúmeras políticas públicas, com destaque para educação, ciência, universidades e investimentos. 

Há também uma razão democrática para essa agenda. A erosão das democracias contemporâneas avança pelo desgaste lento da confiança, quando o Estado deixa de entregar resultados e a indignação legítima da população é capturada por grupos extremistas e plataformas que lucram com a raiva. A melhor defesa da democracia não é retórica. É escola em tempo integral, consulta marcada, ônibus gratuito, jornada humana. É o povo percebendo, na própria vida, que as instituições funcionam para ele.

“Vossos peitos, vossos braços são muralhas do Brasil”, canta o hino. A muralha de 2026 foi erguida por uma nova cidadania em construção. Mas ela precisa ser diariamente fortalecida, pois não serão poucas as tentativas de destrui-la.

 

É hora de distinguir quem conspira contra o Brasil   

Em sua primeira fala após ser derrotado por mais de 4,4 milhões de votos, Flávio Bolsonaro se recusou a reconhecer o resultado e anunciou que pedirá a anulação da eleição. É o mesmo roteiro do campo político que celebrou tarifas e sanções impostas contra o próprio país: desqualificar o sistema eleitoral, atacar o Judiciário, semear a dúvida para colher a desordem. Diante desses personagens, vale o conselho do Hino da Independência: “não temais ímpias falanges, que apresentam face hostil”. 

O hino tem um verso que serve de aviso: “longe vá temor servil”. Não há espaço para neutralidade diante de quem tenta rasgar a vontade popular expressa nas urnas. Silêncio, neste momento, também é posição. Por isso, é obrigação dos governadores, senadores e deputados eleitos, inclusive os que se apresentam como “direita moderada”, repudiarem publicamente a fala golpista do candidato à Presidência derrotado, caso não queiram ser confundidos com conspiradores a serviço de interesses alheios aos do povo brasileiro.

 

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Márcio Gimene é Analista de Planejamento e Orçamento. Mais informações em www.gimene.com.br.
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