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O mundo precisa de um território tecnológico de paz

Em um mundo onde conflitos ignoram regras, o domínio tecnológico tornou-se essencial para garantir paz, soberania e defesa. O Brasil pode liderar criando um território tecnológico comprometido com a paz

 

Os mais recentes eventos geopolíticos mostram que a chamada “ordem internacional baseada em regras” se exauriu. Os conflitos que vêm ocorrendo nos últimos anos já não obedecem a qualquer tipo de lei ou convenção, os tribunais e o direito internacional parecem completamente esvaziados e práticas anteriormente comuns, como as declarações de guerra, foram substituídas por ataques preventivos, indistinção entre alvos militares e civis, uso indiscriminado de ciber ataques e outros novos elementos de guerra suja. 

Diante de um novo modelo de conflito internacional que mais se parece a terrorismo do que guerras entre Estados, a tecnologia exerce um papel fundamental. E o uso do adjetivo “fundamental” aqui não é meramente retórico, ou seja, não se trata de enfatizar a importância da tecnologia nas guerras atuais, mas de mostrar como as novas tecnologias fundaram uma nova metodologia de guerra

Tudo leva a crer que o ritmo impensavelmente rápido das ações de guerra atuais (apenas possíveis com a digitalização extremada dos sistemas de ataque e defesa) afasta do panorama de possibilidades o respeito às leis de guerra. Quem as respeitar pode estar sob risco de ser atacado ilegalmente enquanto cumpre o rito estabelecido nas convenções (ou, ao menos, alega que assim pode ser). Portanto, quem sabe que vai atacar já sai atacando antes de qualquer aviso, sem se importar se um crime de guerra será cometido. 

Já que é assim, mais do que nunca o mesmo vale para a defesa nacional. Ao mesmo tempo em que a autonomia e o domínio de tecnologias são condições críticas para prevalecer em posição de ataque, também são essenciais para oferecer resistência e contenção. Mesmo um país que tenha equipamento bélico em quantidade e qualidade relativamente boas, mas careça de sistemas de controle de informação e comando eletrônico sobre seu material de combate, terá problemas. 

 

Defesa, soberania, paz e tecnologia

O nexo criado entre domínio tecnológico e capacidade bélica, embora não seja novo, foi levado a este novo patamar de relevância com o advento dos sistemas atuais de informação digital e seus corolários. Consequência direta disto, portanto, é que a soberania nacional está estreitamente vinculada à capacidade de um Estado em administrar, manter e produzir estas tecnologias, em nível relevante. 

E se, mais do que nunca, o poder de dissuasão de um Estado sobre outro depende de capacidades tecnológicas para defesa, fica estabelecida uma relação crítica entre tecnologia e paz. Não há, e nem haverá mais, paz internacional sem domínio tecnológico relevante. Quem estiver fora do arco de domínio de tecnologias estará vulnerável. Pode ser atacado por meios militares, se for do interesse de alguém, ou economicamente, o que já é absolutamente comum. 

Diante disso, para aqueles países que, como o Brasil, por tradição trabalham pela paz internacional, a questão tecnológica transcende a noção consolidada de soberania nacional. É claro que deter tecnologias nacionais implementadas em sistemas de defesa no Brasil seria um fator crítico para a formação de uma estrutura de defesa, contenção e dissuasão. Isso continua valendo para o Brasil tanto quanto para qualquer outro país. 

Mas nos tempos atuais, em que as mesmas tecnologias levaram a guerra a se tornar um jogo de dominação e conquista, sem regras e a passo ultrarrápido, a dominância tecnológica em um país comprometido com a paz pode significar a criação de um espaço tecnológico e internacional de paz. 

A relevância estratégica para o Brasil em construir independência e domínio nas tecnologias de defesa não se resumirá, portanto, a garantir a segurança do território brasileiro frente a ameaças externas. Para além disso, um Brasil que consiga ter capacidades próprias em radares, satélites, sistemas de vigilância e observação, geoposicionamento, códigos de dados, comunicações e criptografia, entre vários outros, será um Brasil que pode se colocar como árbitro e mediador pela paz internacional. 

A construção das capacidades do Brasil deve obedecer às tradições nacionais de preferência radical pela diplomacia e de construção dialogada da paz. Porém, isto hoje não se faz mais apenas com discursos e viagens diplomáticas. Para dar conta dessa missão, é preciso ter acesso a dados e informações, imagens em tempo real, comunicações e sistemas de controle e ação. 

Só assim a vocação brasileira poderá se cumprir, ao passo que o mundo voltará a ter um de seus mais importantes reguladores e mediadores. O mundo só tem a ganhar com um Brasil tecnologicamente íntegro e independente, principalmente diante da selvageria que tomou conta das relações internacionais. 

 

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Fausto Oliveira
 é jornalista de economia com experiência nacional e internacional em setores industriais e infraestrutura.
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