Contexto Brasil Blog Entrevistas Refletir sobre o amanhã e agir hoje: os cenários possíveis para o Brasil em 2045
Entrevistas

Refletir sobre o amanhã e agir hoje: os cenários possíveis para o Brasil em 2045

Elaine C. Marcial explica nesta entrevista como estudos prospectivos e cenários futuros ajudam o Brasil a superar o imediatismo, compreender incertezas e tomar decisões estratégicas para construir um futuro sustentável

 

Em um país marcado por urgências cotidianas e ciclos políticos curtos, pensar o longo prazo pode parecer um luxo. Mas é justamente essa capacidade de antecipar caminhos, reconhecer tendências e enfrentar incertezas que pode fazer a diferença entre estagnação e desenvolvimento sustentável.

Nesta entrevista ao Contexto Brasil, a especialista em estudos de futuro e coorganizadora da publicação Cenários Brasil 2045, Elaine C. Marcial, fala sobre os aprendizados, desafios e potencialidades do processo que envolveu mais de 480 especialistas em oficinas realizadas por todo o país. Ela explica como os quatro cenários construídos — Protagonismo Global, Inclusão sem Ambição, Sem Rumo e Ilhas de Desenvolvimento — foram elaborados a partir de megatendências e incertezas críticas que moldam o presente e projetam futuros possíveis para o Brasil.

Mais do que uma leitura do que pode acontecer, a proposta do estudo é provocar ação estratégica no presente. “Cenários não são um fim em si mesmos, mas um insumo para decisões estratégicas”, afirma Elaine. “Somos todos agentes de mudança — está em nossas mãos construir o futuro que queremos.”

 

O livro abre com a afirmação de que “o presente nos traz desafios e o futuro esperança”. Qual foi a principal motivação para construir este estudo sobre cenários para o Brasil em 2045?
Foram várias as motivações, como por exemplo a necessidade de levar a sociedade a refletir sobre o futuro. No mundo atual, onde tudo é urgente, estamos perdendo a capacidade de reflexão, e o processo de construção de cenários nos obriga a refletir. Refletir sobre o passado, o presente e o futuro. A cada etapa somos levados a avaliar as informações levantadas sob diferentes perspectivas. Cabe lembrar que essas reflexões são realizadas com base em dados e informações, que também são levantadas e produzidas durante o processo e tratadas de forma sistêmica por meio do uso de diversas “ferramentas do foresight”, que nos trazem conhecimentos que nos conduzirão a melhores tomadas de decisão. Outra motivação é mostrar a importância de sairmos de uma visão e ação curto prazista, muito associada à urgência, para uma visão de longo prazo. Ao olharmos para o longo prazo, conseguimos enxergar melhor o que devemos fazer hoje ao tempo em que nos prepara para enfrentar os desafios futuros. Por fim, completar uma grande lacuna existente no país, que é a falta de estudos de longo prazo baseados em foresight.

 

Quais desafios atuais mais pesaram na construção dos quatro cenários apresentados?
Foram vários, mas, para mim, os principais são: o baixo nível educacional da população em uma sociedade do conhecimento, o baixo nível de desenvolvimento tecnológico e de inovação do país, e o processo de desindustrialização que sofremos há décadas. Mas há fatores exógenos como as mudanças climáticas, as sucessivas crises econômicas e financeiras e as novas disputas geopolíticas, que causam um ambiente de tensão internacional e, com efeito, as guerras.

 

A elaboração contou com a participação de 481 especialistas e foi feita em oficinas em diferentes regiões. Quais foram os principais aprendizados desse processo colaborativo? Como a diversidade regional e temática foi incorporada nos cenários?
Para mim, o principal aprendizado foi que as regiões possuem melhores soluções para os seus desenvolvimentos que Brasília, o que faz muito sentido, pois somos um país continental com uma diversidade muito grande. Ou seja, a política não pode ser única, tem que atender a essa diversidade regional.

Outro aprendizado foi perceber que o conhecimento e as competências existentes no norte e nordeste do país não ecoam, ou seja, o conhecimento deles não se difunde pelo país. A postura paternalista do Estado, na minha opinião, impede o desenvolvimento de algumas regiões. Por outro lado, ao termos a chance de ouvir esses brasileiros que estão fora do eixo Brasília, Sudeste e Sul, além de aprendermos um pouco mais sobre o nosso país, nos fez ver a potencialidade dessas regiões e como podem contribuir com o desenvolvimento do Brasil, o que foi amplamente incorporado nos cenários. Entretanto, há a necessidade de elevar o nível de educação da população como um todo e levar acesso à informação e a possibilidade de promoção do desenvolvimento tecnológico.

 

Houve alguma surpresa relevante nas percepções captadas pelos especialistas?
Sim, todos sabemos que estamos vivendo um ambiente altamente polarizado, e buscamos trabalhar com os diversos espectros da nossa sociedade, o que em alguns momentos não foi fácil. Entretanto, algo que me chamou muito a atenção é que o futuro nos une. As potencialidades brasileiras são percebidas por todos. Todos nós queremos viver em um país mais livre, desenvolvido, com redução dos níveis de criminalidade, com inclusão produtiva por meio da melhoria da educação e do dinamismo da economia, pela retomada da reindustrialização do país e da valorização e aproveitamento das nossas riquezas e potencialidades.

 

O livro identifica 13 megatendências nacionais e apresenta diversos fatores de incerteza. Quais megatendências você considera mais críticas para o futuro do Brasil?
Esta é uma pergunta difícil de ser respondida, em função da força que todas as 13 megatendências possuem de influenciarem o desenvolvimento do Brasil. Mas vale a pena destacar pelo menos cinco: Transição demográfica, nova corrida espacial, biorrevolução, automação inteligente hiperconectada e escalada das tensões geopolíticas. Quanto à transição demográfica, destaco o impacto no processo produtivo, criativo e na previdência e saúde. Já a nova corrida espacial, pelo potencial que o Brasil possui de estar inserido nessa nova força transformadora, em especial pela sua posição geográfica e o ecossistema existente em torno da Embraer e da Avibras. Ao olhar para a biorrevolução, as oportunidades são maiores ainda, pois temos uma biodiversidade fantástica que abre espaço para avançarmos em várias áreas do conhecimento. Quanto à automação inteligente hiperconectada, essa é uma força arrebatadora, que traz grandes impactos e transformarão os processos produtivos e sociais. Entretanto, demandarão um nível maior de educação da sociedade para que possam aproveitar as oportunidades que se abrem, mas também irão impor diversos desafios, como, por exemplo, o impacto na redução de postos de trabalho e a necessidade de avanços na área de semicondutores.

 

Entre as incertezas mapeadas, qual delas você acredita que pode ter o maior poder de inflexão na trajetória do país?
Da lista de incertezas levantadas, foram cinco as classificadas como críticas ao desenvolvimento e muito motrizes (Taxas de juros brasileiras estabilizadas em patamares favoráveis aos investimentos produtivos; Sistema tributário brasileiro com maior previsibilidade e segurança jurídica para o ambiente e negócios; O Brasil dispõe de instrumentos adequados de financiamento de longo prazo para alavancar os investimentos em infraestrutura e o desenvolvimento produtivo; O sistema educacional brasileiro oferta educação adequada às demandas do setor produtivo; Fortalecimento do papel das instituições públicas na promoção desenvolvimento do Brasil). Para mim, a que possui o maior poder de inflexão na trajetória do país é “O sistema educacional brasileiro oferta educação adequada às demandas do setor produtivo”. Acredito que por meio da educação você transforma um povo e um país. É por meio da educação que se inova, que promovemos uma inclusão produtiva, que formamos cidadãos conscientes e aumentamos a produtividade. Ou seja, é por meio da educação que vamos, efetivamente, atingir um desenvolvimento sustentável e inclusivo. Será necessário a promoção de uma educação que atenda mais do que as demandas do setor produtivo, mas da economia e da sociedade do futuro.

 

“Cenários não são um fim em si mesmos, mas um insumo para decisões estratégicas. Somos todos agentes de mudança — está em nossas mãos construir o futuro que queremos.”

 

Os cenários são “Protagonismo Global”, “Inclusão sem Ambição”, “Sem Rumo” e “Ilhas de Desenvolvimento”. Como foi o processo de escolha dos eixos estruturantes dos cenários?
A escolha dos eixos foi realizada em uma oficina com a utilização das incertezas listadas, os participantes foram organizados em três grupos e cada um deles teria que avaliar e combinar essas incertezas. Todos os grupos optaram pelo cruzamento de eixos ortogonais, sendo que vários eixos foram criados. Após a análise e debate das propostas apresentadas essas ideias foram integradas e esses quatro cenários emergiram. 

 

Você destacaria algum dos quatro cenários como mais provável ou mais desejável para o Brasil? Por quê?
Eu não gosto de pensar em um cenário mais provável, pois isso traz conforto a quem constroi estratégia e, na maioria das vezes, impede o surgimento do novo, pois levam os estrategistas a pensarem: “o futuro será assim e tenho que me preparar para ele”. Por outro lado, quando se considera que todos os cenários possuem a mesma probabilidade de ocorrência, abre-se a oportunidade não somente de se preparar para o futuro incerto, mas principalmente para construir o futuro desejado, e essa é a principal função dessa metodologia, abrirmos mão da inércia, de para onde estamos indo, “arregaçarmos as mangas” e mudarmos o curso da história. Está em nossas mãos construir o futuro. Somos todos agentes de mudança.

 

O livro discute a ausência de uma estratégia nacional de longo prazo e faz referência ao conceito de Grand Strategy. O que falta, na sua visão, para o Brasil construir uma estratégia nacional consistente, que transcenda governos?
No âmbito do Estado, falta future literacy e uma Proposta de Emenda Constitucional que obrigue os governos a formularem estratégias de longo prazo que orientem as formulações dos Planos Plurianuais (PPAs). Essa estratégia de longo prazo deve ser aprovada pelo Congresso, garantindo a continuidade, independentemente do partido que esteja no poder. A estratégia de longo prazo deve fornecer orientações, visão de futuro, objetivos e metas de longo prazo, e os PPAs vão descrever como cada governante vai atingir as metas estabelecidas pela estratégia de longo prazo. 

Quanto à sociedade, considero a falta de future literacy. Se as pessoas e as organizações compreenderem a importância de se olhar para horizontes distantes demandariam estratégias de longo prazo. Segundo a UNESCO, future literacy é a capacidade de as pessoas compreenderem por que e como se deve usar o futuro para nos prepararmos, planejarmos e  interagimos com a complexidade da nova sociedade. E assim, estarmos preparados para construir o futuro.

 

Como os estudos prospectivos podem apoiar esse processo sem caírem no “futurismo vazio”?
Os estudos prospectivos representam processos de reflexão sobre o presente e o futuro com base nas informações levantadas em duas etapas (1) na de análise retrospectiva e da situação atual; e (2) no processo de justificação, com fatos e dados, das sementes de futuro identificadas, sejam por meio da análise retrospectiva ou pela coleta da percepção de experts a respeito do futuro. A escolha dos experts também garante a qualidade dos levantamentos e da análise, o que conduz a produção de visões a respeito do futuro consistentes e coerentes, voltadas para apoiar o processo decisório e de formulação de estratégias.

 

Você afirma que cenários não são um fim em si mesmo, mas insumo para decisões estratégicas. Como fazer com que esses cenários cheguem, de fato, aos tomadores de decisão e se transformem em políticas públicas?
Para que os cenários cheguem aos tomadores de decisão, vamos promover uma ampla divulgação e disponibilizá-los gratuitamente. Entretanto, para que se transformem em políticas públicas, passarão pela disposição dos policymakers de avaliar os quatro cenários construídos e refletir sobre seus impactos e possibilidades de caminhos a serem seguidos. Identificar em cada um deles e de forma conjunta, as oportunidades e ameaças que eles apresentam, debater os desafios e investirem na transformação das políticas públicas frente a essas reflexões realizadas.  


Como o público pode acessar e usar os resultados desse trabalho em suas próprias organizações e planejamentos?
Os resultados estarão disponíveis para download por todas as instituições parceiras. Os resultados do projeto, sejam os cenários, as megatendências e as sementes de futuro destacadas em cada um dos capítulos temáticos, oferecem uma riqueza de informações sobre o futuro que poderão ser utilizados pelas organizações públicas e privadas.

Apesar de todas essas informações poderem ser utilizadas para apoiar uma reflexão sobre o futuro e as decisões que precisam ser tomadas hoje, os cenários trazem uma reflexão maior, pois eles apresentam de antemão as decisões que foram tomadas e os resultados dessas escolhas antes dos eventos ocorrerem. Ao transportarem o leitor para o final do horizonte temporal, permitem que as organizações saibam,  com antecedência,  o que poderá ocorrer em função do curso dos acontecimentos, e agir antes, adotando ação proativa,  e assim construir o futuro  desejado.

 

BAIXE O LIVRO CENÁRIOS BRASIL 2045 GRATUITAMENTE AQUI >> https://brasil2100.com.br/

 

====================
Jaqueline Nunes
 é jornalista e gestora pública com 10 anos de experiência em assessoria de comunicação governamental.
====================

 

📲 Participe do nosso grupo de avisos no WhatsApp e receba notificações de todas as nossas publicações. Clique AQUI e acesse.

Comente essa matéria no instagram do Contexto Brasil!

Sair da versão mobile