16 de junho de 2026
Sociedade

Educação de qualidade: a infraestrutura humana que o Brasil ainda não construiu

O Brasil universalizou o acesso à escola, mas não a aprendizagem. Enfrentar esse déficit exige valorizar professores, reestruturar o ensino e garantir políticas contínuas para impulsionar o desenvolvimento econômico nacional


Por Jaqueline Maria

Há uma frase que sintetiza décadas de diagnósticos sobre o Brasil: o país universalizou o acesso à escola, mas não universalizou a aprendizagem. A distinção não é apenas conceitual — ela revela um problema com profundas implicações econômicas, sociais e políticas. O Brasil conseguiu colocar quase todas as crianças dentro das salas de aula, mas não garantiu que a maioria delas aprendesse o necessário. Essa lacuna, acumulada ao longo de gerações, tornou-se um dos principais entraves ao desenvolvimento nacional.

Os dados disponíveis são consistentes nesse diagnóstico. Avaliações nacionais e internacionais indicam que uma parcela significativa dos estudantes conclui o ensino fundamental com déficits relevantes em leitura, escrita e matemática. Essas competências são a base de todo o aprendizado posterior, e sua ausência não se dissipa com o tempo. Ao contrário, tende a se aprofundar, comprometendo o desempenho no ensino médio, limitando o acesso ao ensino superior e reduzindo as possibilidades de inserção produtiva.

As consequências desse quadro vão além da trajetória individual dos estudantes. Países com baixos níveis médios de aprendizagem tendem a ocupar posições subordinadas nas cadeias globais de valor, concentrando-se em atividades de menor intensidade tecnológica. A limitação educacional reduz a capacidade de inovação, compromete a produtividade e dificulta a absorção de tecnologias complexas. Nesse sentido, a desigualdade educacional não apenas reflete, mas também reproduz a desigualdade econômica.

A primeira infância ocupa um papel central nesse processo. A literatura sobre desenvolvimento humano é clara ao apontar que os primeiros anos de vida são decisivos para a formação de habilidades cognitivas e socioemocionais. Crianças que têm acesso à educação infantil de qualidade chegam ao ensino fundamental em condições mais favoráveis, com efeitos que se acumulam ao longo da vida escolar. No Brasil, no entanto, a oferta de creches e pré-escolas ainda é insuficiente, especialmente para as famílias de menor renda, justamente aquelas cujas crianças mais se beneficiariam desse acesso.

Esse desafio é agravado por características do federalismo brasileiro. A responsabilidade pela educação infantil e pelo ensino fundamental recai sobre os municípios, que, em muitos casos, possuem limitações administrativas e financeiras. Sem mecanismos mais robustos de cooperação, como consórcios intermunicipais ou maior coordenação federativa, a capacidade de promover avanços estruturais nessas etapas permanece limitada.

 

O gargalo do ensino médio e o desafio da valorização docente

Se a educação infantil define o ponto de partida, o ensino médio evidencia as fragilidades do sistema. É nessa etapa que se concentram os maiores índices de evasão e onde a desconexão entre o conteúdo oferecido e as expectativas dos jovens se torna mais evidente. Para muitos estudantes, especialmente os de baixa renda, a permanência na escola é dificultada por pressões econômicas e pela percepção de que o ensino não dialoga com suas perspectivas de vida.

Políticas de permanência, como alimentação escolar, transporte e apoio financeiro, são fundamentais, mas não resolvem o problema por completo. É necessário repensar o próprio modelo de ensino médio, tornando-o mais conectado à realidade contemporânea, com itinerários formativos consistentes e maior integração com a educação técnica e profissional. A expansão do ensino técnico de qualidade, nesse contexto, não deve ser vista como alternativa inferior ao ensino superior, mas como parte de uma estratégia de qualificação produtiva.

A valorização docente é outro eixo central. Professores são o principal fator associado à qualidade da educação, e qualquer tentativa de reforma que desconsidere essa dimensão tende a fracassar.

Isso envolve formação inicial sólida, formação continuada efetiva, carreira estruturada e condições de trabalho adequadas. Embora avanços recentes, como a recomposição do piso salarial e investimentos em infraestrutura, sejam relevantes, ainda há um longo caminho a percorrer para que o magistério se torne uma carreira atrativa e compatível com sua importância estratégica.

A educação superior e a pesquisa científica completam esse quadro. Em um cenário global marcado por rápidas transformações tecnológicas, a qualificação da força de trabalho e a capacidade de produzir conhecimento são determinantes para a inserção internacional dos países. Universidades e institutos de pesquisa desempenham papel central nesse processo, formando profissionais e desenvolvendo tecnologias que podem posicionar o Brasil de forma mais competitiva.

Fortalecer essas instituições, com financiamento adequado e integração com o setor produtivo, é condição para reduzir a dependência tecnológica e ampliar a capacidade de inovação. A articulação entre ensino, pesquisa e aplicação prática do conhecimento é um dos caminhos para transformar potencial científico em desenvolvimento econômico.

Por fim, há um elemento que atravessa todas essas dimensões: a continuidade das políticas públicas. Resultados educacionais não são imediatos e dependem de planejamento de longo prazo, estabilidade institucional e financiamento consistente. Tratar a educação como prioridade exige mais do que discurso — requer compromisso concreto e sustentado ao longo do tempo.

A construção de uma educação pública de qualidade é, em última instância, um projeto de país. Seus efeitos não se medem apenas no presente, mas na capacidade de formar gerações preparadas para enfrentar os desafios do futuro. Ignorar essa agenda é perpetuar desigualdades; enfrentá-la, com seriedade, é condição para qualquer estratégia de desenvolvimento.

 

====================
Jaqueline Maria é jornalista e gestora pública com 10 anos de experiência em assessoria de comunicação governamental.
====================

📲 Participe do nosso grupo de avisos no WhatsApp e receba notificações de todas as nossas publicações. Clique AQUI e acesse.

👉 Comente essa matéria no instagram do Contexto Brasil!