13 de julho de 2026
Sociedade

O SUS foi criado para o Brasil do século XX. O desafio agora é prepará-lo para o país que está surgindo

Envelhecimento da população, doenças crônicas, mudanças climáticas e revolução tecnológica estão transformando os desafios da saúde pública brasileira, exigindo a reinvenção do SUS para garantir atendimento universal nessa nova realidade

 

Por Jaqueline Maria

 

Quando a Constituição Federal de 1988 definiu a saúde como um direito universal e dever do Estado, o Brasil era um país muito diferente daquele que existe hoje. A população era mais jovem, a expectativa de vida era menor, as doenças infecciosas ocupavam parcela significativa das preocupações sanitárias e a medicina ainda estava distante das transformações tecnológicas que começam a redefinir os sistemas de saúde em todo o mundo.

Foi nesse contexto que nasceu o Sistema Único de Saúde (SUS), uma das maiores conquistas da redemocratização brasileira. Ao garantir acesso universal à saúde, o país assumiu um compromisso que permanece extraordinário até hoje: oferecer atendimento a toda a população, independentemente de renda, região ou condição social.

Ao longo de quase quatro décadas, o SUS produziu resultados que transformaram a realidade brasileira. Estruturou campanhas de vacinação que se tornaram referência internacional, ampliou o acesso à atenção básica, consolidou um dos maiores sistemas públicos de transplantes do mundo e demonstrou sua importância estratégica durante a pandemia de Covid-19. Em um país marcado por profundas desigualdades sociais e territoriais, tornou-se uma das principais infraestruturas de cidadania construídas pelo Estado brasileiro.

Mas preservar essa conquista talvez não seja o principal desafio das próximas décadas.

O Brasil mudou. E continuará mudando em velocidade acelerada. O sistema de saúde construído para responder aos desafios do final do século XX precisará se adaptar a um novo conjunto de transformações que já estão em curso. Algumas delas são silenciosas. Outras já produzem impactos visíveis. Todas exigem repensar a forma como o país organiza suas políticas de saúde.

A primeira dessas mudanças é demográfica.

O Brasil envelhece rapidamente. O aumento da expectativa de vida e a redução das taxas de fecundidade alteram a composição da população em uma velocidade raramente observada em outros países. Em poucas décadas, o país terá mais idosos do que crianças e adolescentes.

Trata-se, antes de tudo, de uma conquista social. Significa que mais brasileiros estão vivendo mais tempo. Mas o envelhecimento populacional também produz novas demandas para o sistema de saúde.

Uma população mais idosa necessita de acompanhamento contínuo, reabilitação, cuidados de longa duração e atendimento especializado para condições que acompanham as pessoas por muitos anos. Não se trata apenas de ampliar hospitais ou aumentar o número de consultas. Trata-se de construir uma rede capaz de oferecer cuidado permanente.

Essa transformação traz ainda uma questão frequentemente invisibilizada nos debates públicos: quem cuidará dessas pessoas?

Hoje, grande parte do trabalho de cuidado continua sendo realizado pelas famílias, especialmente pelas mulheres. São elas que interrompem carreiras, reduzem jornadas de trabalho ou assumem responsabilidades adicionais para acompanhar idosos, pessoas com deficiência e familiares com doenças crônicas. À medida que a população envelhece, cresce também a necessidade de discutir o cuidado como uma política pública e não apenas como uma responsabilidade privada das famílias.

O envelhecimento, por sua vez, está diretamente ligado a uma segunda transformação que já redefine o perfil sanitário do país.

As doenças crônicas não transmissíveis tornaram-se protagonistas dos desafios de saúde pública. Hipertensão, diabetes, câncer, doenças cardiovasculares e condições neurodegenerativas passaram a ocupar espaço cada vez maior na demanda por atendimento.

Diferentemente de muitas doenças infecciosas que marcaram etapas anteriores da história brasileira, essas condições exigem acompanhamento contínuo, monitoramento frequente e uma relação permanente entre os pacientes e os serviços de saúde.

Nesse cenário, a atenção primária ganha importância estratégica. Equipes que conhecem os territórios, acompanham famílias ao longo do tempo e atuam preventivamente conseguem reduzir internações, evitar agravamentos e melhorar a qualidade de vida da população. Mais do que uma porta de entrada para o sistema, a atenção básica torna-se elemento central de uma estratégia voltada para a prevenção e para o cuidado continuado.

Se o envelhecimento e as doenças crônicas já impõem desafios significativos, uma terceira transformação amplia ainda mais a complexidade do cenário.

A crise climática deixou de ser um tema restrito às políticas ambientais para se tornar uma questão de saúde pública.

Os impactos já são visíveis. O crescimento dos casos de dengue em diferentes regiões do país, a expansão de doenças transmitidas por vetores para áreas antes pouco afetadas, as enchentes que atingiram cidades inteiras e as sucessivas ondas de calor registradas nos últimos anos revelam que as mudanças climáticas produzem efeitos diretos sobre a saúde da população.

Os desafios vão muito além das emergências imediatas. Eventos climáticos extremos afetam a qualidade da água, ampliam riscos sanitários, pressionam redes hospitalares e provocam impactos duradouros sobre a saúde mental das populações atingidas.

Preparar o SUS para essa nova realidade exige fortalecer sistemas de vigilância epidemiológica, ampliar capacidades de monitoramento territorial e integrar as políticas de saúde às estratégias de adaptação climática.

Ao mesmo tempo em que enfrenta essas transformações, o sistema de saúde brasileiro também precisa lidar com uma mudança de natureza completamente diferente.

O mundo vive uma revolução científica e tecnológica que começa a redefinir a própria prática da medicina.

Avanços em inteligência artificial, genômica, biotecnologia, terapias celulares e medicina de precisão estão alterando a forma como doenças são diagnosticadas, prevenidas e tratadas. Tecnologias que há poucos anos pareciam restritas a laboratórios de pesquisa começam a chegar aos sistemas de saúde e prometem transformar profundamente a assistência médica nas próximas décadas.

A questão que se coloca para o Brasil é estratégica: o país participará dessa transformação como produtor de conhecimento e tecnologia ou apenas como consumidor de inovações desenvolvidas em outros lugares?

A resposta depende de investimentos em pesquisa, universidades, formação de profissionais e fortalecimento das instituições científicas nacionais. Depende também da capacidade de integrar ciência, tecnologia e política pública em uma estratégia de longo prazo.

Foi justamente a pandemia de Covid-19 que evidenciou outra dimensão frequentemente esquecida do debate sobre saúde: a soberania sanitária.

Durante a crise, países disputaram equipamentos, insumos, medicamentos e vacinas em um mercado global submetido a fortes restrições. A experiência revelou o quanto a dependência externa pode comprometer a capacidade de resposta diante de emergências.

Ao mesmo tempo, instituições brasileiras como a Fiocruz e o Instituto Butantan demonstraram a importância de manter capacidade nacional de pesquisa, desenvolvimento e produção.

A lição deixada pela pandemia vai além da gestão de crises. Ela recoloca no centro da discussão o papel do Complexo Econômico-Industrial da Saúde, conjunto de instituições, empresas, centros de pesquisa e estruturas produtivas responsáveis por desenvolver e fabricar tecnologias estratégicas para o setor.

Essa perspectiva amplia a compreensão tradicional sobre o SUS. Saúde não é apenas uma política social. É também uma política de desenvolvimento. Investimentos em pesquisa biomédica, inovação tecnológica, produção de medicamentos e equipamentos médicos geram empregos qualificados, fortalecem a capacidade produtiva nacional e aumentam a autonomia do país diante de crises futuras.

Por isso, o debate sobre o futuro do SUS não pode se restringir a filas, hospitais e orçamento, embora todos esses temas sejam fundamentais.

O que está em discussão é a capacidade do sistema de saúde brasileiro de responder a um país que envelhece rapidamente, convive com um novo perfil epidemiológico, enfrenta os impactos das mudanças climáticas e ingressa em uma era de transformações tecnológicas sem precedentes.

O SUS foi criado para o Brasil do século XX. O desafio agora é prepará-lo para o país que está surgindo.

Mais do que uma discussão sobre saúde, trata-se de uma discussão sobre desenvolvimento, ciência, capacidade estatal e projeto de futuro.