22 de julho de 2026
Sociedade

La Dolce Vita da elite X Recordes na inadimplência

Recorde de recuperações judiciais e 81 milhões de inadimplentes expõem o esgotamento do modelo econômico. Enquanto a elite vive la dolce vita do rentismo, juros altos sufocam empresas e famílias.

 

Por Fausto Oliveira

 

O Brasil que chega ao início de mais um ciclo eleitoral convive com algumas crises silenciosas. A alta na inadimplência entre pessoas físicas e o número recorde de recuperações judiciais é uma delas. Pouco se fala, e decerto os mecanismos oficiais entrarão em cena para aliviar ambas as situações a tempo de não deixá-los causar grande estrago nas votações, mas em ambos os casos estamos diante de um indício de esgotamento do modelo atual de política econômica. 

O número de empresas que entraram em recuperação judicial foi recorde em 2025, um total de 5.680 pessoas jurídicas. Mas no primeiro trimestre de 2026, o número de novos pedidos de recuperação judicial já havia chegado a 5.931 (nem todos os pedidos são aceitos pela Justiça, mas o número serve como indicativo de que o aperto é generalizado). 

Como se sabe, as recuperações judiciais são solicitadas por aquelas empresas que passam a ter muita dificuldade em honrar compromissos financeiros. Em situações normais, isto acontece com empresas mal administradas, incapazes de se manter por incompetência ou má sorte. Mas no Brasil de hoje, o fenômeno tem outro motivo: a persistente alta do custo de capital, devido aos altíssimos juros, que encarece as despesas financeiras de todas as empresas que têm dívidas e financiamentos de qualquer tipo.

Desnecessário dizer, portanto, que num quadro como esse a taxa de investimento cai brutalmente. Ora, se muitas empresas estão sem capacidade de lidar com seus níveis de endividamento, como investir? 

Do lado dos consumidores, mesmo após duas tentativas de renegociação generalizada de dívidas de cidadãos por meio do programa “Desenrola”, o número de endividados continua altíssimo. Nada menos que 81 milhões de pessoas estão com seus nomes negativados em função de dívidas não pagas. Deste contingente, a imensa maioria é de brasileiros que devem aos cartões de crédito (uma dívida caríssima que rapidamente escala a níveis impagáveis graças ao spread bancário que se permite cobrar no Brasil). Imagine-se o que é ter uma dívida de R$ 100 que em poucos meses vira uma dívida de mais de R$ 1.000. A inadimplência é efeito do spread bancário, e não o contrário, como querem nos fazer crer os bancos privados. 

Tudo isso vai indicando um esgotamento do modelo atual. A causa comum de ambos os problemas, um contexto de juros altíssimos, é apenas a parte visível de um arranjo macroeconômico que apodreceu.

Ele se assenta na pressuposição de que a economia pública brasileira é cronicamente deficitária, ao mesmo tempo em que a sociedade consome além do que deveria, gerando uma situação de pressão permanente sobre a capacidade produtiva. Demanda aquecida e recursos escassos levariam o Estado a liberar recursos para atender a demanda, o que causaria inflação. Isso nos levaria a ter que inevitavelmente viver com juros altos e spread bancário indecente. 

Porém, nada mais falso. Quem declara este tipo de coisa sequer se dá ao trabalho de restabelecer o que causa e o que é efeito. É graças a uma situação de desatendimento crônico das necessidades sociais, que se explica por uma taxa de crescimento econômico persistentemente baixa, que a taxa de poupança é baixa, elevando o dispêndio com consumo em proporção à (insuficiente) renda familiar. Mesmo assim, a causa principal continua sendo a nossa contínua e crescente dependência econômica, que cada vez mais nos faz importar manufaturados tecnológicos para satisfazer a demanda de classes mais abastadas, forçando o câmbio a valorizar e gerando inflação. 

Inflação esta que, de acordo com a cartilha dos economistas ortodoxos, só pode ser corrigida com repressão à demanda pela via dos juros altos. Juros altos estes que elevam o nível da dívida pública assim como da dívida privada. Mas como exatamente por isso o erário público fica mais pressionado, o “mercado” pede juros mais altos para carregar os títulos da dívida pública. Enquanto isso, a economia real vai escorrendo pelo ralo, e só não morre de vez graças a todo tipo de remédio paliativo que o governo lhe administra para evitar uma catástrofe política.  

É um modelo sem solução. Para que ele pudesse sair desse ciclo de retroalimentação por inércia, precisaria de um choque terrivelmente maléfico sobre a economia, cujos danos durariam por décadas (falências empresariais e familiares, desagregação social, violência, suicídios etc). 

Podemos, no entanto, admitir que o modelo se esgotou. Podemos ouvir os sinais de que já não há mais solução dentro deste modelo, e partir para um outro, usando para isso um conjunto de práticas de transição e um acordo político mais racional do que o atual.

Mas quem tem coragem para sequer propor isso aos donos do Brasil, que vivem La Dolce Vita do rentismo?        

 

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Fausto Oliveira
 é jornalista de economia com experiência nacional e internacional em setores industriais e infraestrutura.
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