Dependência de importações, limites geológicos, bioinsumos e biotecnologia mostram por que a busca por maior autonomia no campo é bem mais complexa do que simplesmente produzir fertilizantes dentro do país
Por Jaqueline Maria
O Brasil costuma ser apresentado como uma potência agrícola. E os números justificam a reputação. O país está entre os maiores produtores e exportadores de alimentos do mundo, lidera mercados estratégicos como soja, café, açúcar, carne bovina e carne de frango, e transformou o Cerrado em uma das mais produtivas fronteiras agrícolas do planeta.
Por trás desse desempenho, porém, existe uma vulnerabilidade que raramente ocupa o centro do debate público. Para sustentar sua produtividade agrícola, o Brasil depende fortemente de fertilizantes importados. Cerca de 90% dos fertilizantes utilizados nas lavouras brasileiras vêm do exterior.
A constatação costuma levar a uma pergunta aparentemente simples: se o Brasil é uma potência agrícola, por que não produz os próprios fertilizantes de que precisa?
A resposta parece óbvia, mas está longe de ser simples. O problema não é apenas industrial, econômico ou tecnológico. Em grande medida, é geológico.
Compreender essa realidade ajuda a qualificar um debate que frequentemente oscila entre soluções simplistas e diagnósticos incompletos. A soberania agrícola que o Brasil busca construir não será resultado de autossuficiência absoluta. Ela dependerá da capacidade de reduzir vulnerabilidades estratégicas por meio de uma combinação de produção nacional, inovação tecnológica, pesquisa científica e diversificação de fornecedores.
A agricultura moderna depende fundamentalmente de três nutrientes: nitrogênio, fósforo e potássio — o conhecido NPK presente em praticamente todos os fertilizantes utilizados em larga escala. Cada um deles possui características próprias e enfrenta desafios distintos.
O nitrogênio, por exemplo, existe em abundância na atmosfera. O problema é que as plantas não conseguem utilizá-lo diretamente. Para transformá-lo em fertilizante é necessário um processo industrial intensivo em energia, baseado principalmente no uso de gás natural. Embora o Brasil possua reservas de gás, a produção nacional ainda não é suficiente para sustentar uma indústria de fertilizantes nitrogenados capaz de atender toda a demanda agrícola do país em condições competitivas.
O fósforo apresenta uma situação diferente. Trata-se de um recurso mineral finito, concentrado em poucos países. Nesse caso, o Brasil possui uma posição relativamente favorável, com reservas importantes localizadas principalmente em Minas Gerais, Goiás e Mato Grosso do Sul. Ainda assim, a produção nacional atende apenas parte da demanda interna.
Já o potássio representa o maior desafio. As maiores reservas mundiais estão concentradas em países como Canadá, Rússia e Bielorrússia. O Brasil importa mais de 95% do potássio que consome, e a geologia nacional oferece poucas alternativas capazes de alterar significativamente essa dependência no curto prazo.
Essa é uma realidade frequentemente ignorada em discussões sobre soberania produtiva. O país pode ampliar a produção doméstica de alguns insumos e explorar novas reservas minerais, mas não possui, em seu território, todos os recursos necessários para eliminar a dependência externa dos três principais nutrientes utilizados pela agricultura moderna.
Foi justamente essa vulnerabilidade que se tornou mais visível nos últimos anos.
Primeiro, durante a pandemia de Covid-19, quando interrupções logísticas e restrições comerciais afetaram cadeias globais de suprimento. Depois, com a guerra entre Rússia e Ucrânia, que produziu uma das maiores crises recentes no mercado internacional de fertilizantes.
A Rússia e a Bielorrússia ocupam posições centrais no comércio global de potássio e fertilizantes nitrogenados. As sanções econômicas, as dificuldades logísticas e as incertezas geopolíticas provocaram uma disparada nos preços internacionais. Em poucos meses, produtores rurais brasileiros viram seus custos de produção aumentarem drasticamente.
A crise serviu como um alerta. Assim como a pandemia revelou a importância da capacidade nacional de produzir vacinas e medicamentos, a turbulência no mercado de fertilizantes expôs a fragilidade de uma agricultura excessivamente dependente de insumos concentrados em poucos fornecedores internacionais.
Mas reconhecer essa vulnerabilidade não significa concluir que a solução esteja apenas na mineração ou na construção de novas fábricas de fertilizantes.
É nesse ponto que os bioinsumos ganham relevância.
Embora frequentemente apresentados como uma novidade, eles já fazem parte da agricultura brasileira há décadas. O exemplo mais conhecido está na produção de soja. A utilização de bactérias capazes de fixar biologicamente o nitrogênio atmosférico permite que grande parte da cultura seja produzida com uso mínimo de fertilizantes nitrogenados sintéticos.
O que mudou nos últimos anos foi a ampliação das possibilidades tecnológicas. Hoje existem bioinsumos capazes de melhorar a absorção de nutrientes, aumentar a eficiência do uso do fósforo presente no solo, estimular o crescimento das plantas e reduzir a necessidade de determinados insumos químicos. O Brasil, impulsionado pela pesquisa da Embrapa e de universidades públicas, tornou-se uma das referências mundiais nesse campo.
Em determinadas condições, o uso combinado de diferentes soluções biológicas permite reduzir significativamente a aplicação de fertilizantes sintéticos sem comprometer a produtividade. Em alguns casos, os ganhos vão além da redução de custos, contribuindo também para a melhoria da qualidade biológica dos solos.
Mas há um risco crescente de tratar os bioinsumos como uma solução milagrosa. Os próprios pesquisadores da área alertam que a adoção dessas tecnologias exige conhecimento técnico, assistência especializada e adaptação dos sistemas produtivos. Diferentemente dos fertilizantes convencionais, muitos bioinsumos dependem de condições específicas de manejo para funcionar adequadamente.
Temperatura, umidade, qualidade do solo, compatibilidade com defensivos agrícolas e momento correto de aplicação influenciam diretamente os resultados. O sucesso não depende apenas do produto, mas de todo o sistema de produção.
Além disso, parte dos benefícios aparece apenas ao longo do tempo. A melhoria da saúde microbiológica do solo é um processo cumulativo que exige continuidade e planejamento. Em um setor frequentemente pressionado por resultados imediatos, essa característica pode dificultar a adoção em larga escala.
Talvez a melhor forma de compreender esse processo seja olhar para uma experiência brasileira bem-sucedida: o etanol. Quando o Programa Nacional do Álcool foi criado, na década de 1970, o objetivo era reduzir a dependência do petróleo importado após os choques internacionais de preços. O etanol não se tornou competitivo da noite para o dia. Foram necessárias décadas de investimentos em pesquisa, infraestrutura, inovação tecnológica e políticas públicas consistentes. O resultado foi a construção de uma das cadeias de biocombustíveis mais eficientes do mundo.
A trajetória dos bioinsumos guarda algumas semelhanças com essa experiência. Eles dificilmente substituirão os fertilizantes sintéticos em curto prazo. Tampouco eliminarão a necessidade de importações. O que podem fazer é reduzir gradualmente a exposição do país às oscilações do mercado internacional, aumentando a resiliência da produção agrícola diante de crises futuras.
Essa discussão se torna ainda mais relevante quando se observa o avanço de novas fronteiras tecnológicas. Pesquisas em biologia sintética, engenharia genética e microbiologia agrícola buscam ampliar a capacidade de fixação biológica de nitrogênio para culturas como milho e trigo, hoje fortemente dependentes de fertilizantes industriais. Outros estudos procuram desenvolver variedades mais eficientes no uso de fósforo e tecnologias capazes de aumentar significativamente a produtividade dos sistemas agrícolas com menor consumo de insumos externos.
Se parte dessas iniciativas alcançar escala comercial nas próximas décadas, o impacto sobre o mercado global de fertilizantes poderá ser tão transformador quanto foi a expansão dos biocombustíveis para o setor energético. Por isso, a discussão sobre soberania agrícola talvez precise começar por uma mudança de perspectiva.
Soberania não significa produzir tudo internamente. Tampouco significa abandonar o comércio internacional. Significa reduzir vulnerabilidades estratégicas e ampliar a capacidade de resposta diante de crises externas.
No caso brasileiro, isso passa por múltiplas frentes: ampliar a produção nacional onde ela é viável, diversificar fornecedores internacionais, fortalecer a pesquisa pública, investir em extensão rural, estimular a adoção de bioinsumos e preparar o país para as transformações que a biotecnologia poderá trazer nos próximos anos.
A maior potência agrícola tropical do mundo continuará dependente de parte dos fertilizantes que utiliza. A questão central não é eliminar completamente essa dependência. É construir uma agricultura capaz de continuar produzindo mesmo quando o mundo se torna mais instável.
E essa é uma tarefa que depende menos da geologia que o Brasil herdou e mais das escolhas que fará daqui para frente.
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Jaqueline Maria é jornalista e gestora pública com 10 anos de experiência em assessoria de comunicação governamental.
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