Plataformas digitais, inteligência artificial e jornadas exaustivas revelam o paradoxo do mercado de trabalho brasileiro: o emprego cresce, mas direitos seguem fragilizados. Repensar proteção social e qualificação tornou-se urgência inadiável
Por Jaqueline Maria
Às sete da manhã, um entregador liga o aplicativo esperando que o algoritmo distribua as primeiras corridas do dia. Horas depois, uma analista financeira revisa um relatório parcialmente produzido por inteligência artificial. Em outra cidade, uma atendente encerra mais um turno de seis dias consecutivos antes do único dia de folga da semana. Essas três pessoas provavelmente nunca se encontrarão. Ainda assim, compartilham uma mesma realidade: trabalham em um mercado que mudou mais rápido do que as regras criadas para protegê-las.
Nunca houve tanta tecnologia disponível para aumentar a produtividade do trabalho. Inteligência artificial, plataformas digitais, automação e novas formas de prestação de serviços transformaram o cotidiano de empresas e trabalhadores em um ritmo que desafia a capacidade de adaptação das instituições. No Brasil, esse cenário convive com uma realidade aparentemente contraditória: enquanto o desemprego atinge os menores níveis da série recente, milhões de pessoas seguem submetidas a relações de trabalho marcadas pela insegurança, pela informalidade e pela ausência de proteção social.
Esse paradoxo ajuda a explicar por que o debate sobre emprego não pode ser tratado apenas como uma questão econômica. Trabalhar nunca foi somente um meio de obter renda: é pelo trabalho que as pessoas constroem identidade, estabelecem vínculos sociais, desenvolvem capacidades e participam da vida econômica e cultural de suas comunidades. Quando esse vínculo é rompido — pelo desemprego, pela precarização ou pela baixa remuneração —, os efeitos ultrapassam o orçamento familiar e alcançam dimensões como saúde, educação, autoestima e participação cívica.
Os avanços dos últimos anos merecem reconhecimento. Depois de um longo período de desemprego elevado e deterioração das relações de trabalho, o país voltou a registrar crescimento do emprego formal, aumento real do salário mínimo e expansão da massa salarial. Esses resultados, porém, não encerram a discussão. Ao contrário, tornam mais evidente uma pergunta ainda mais relevante: que tipo de trabalho o Brasil pretende construir para as próximas décadas?
A resposta exige olhar para além dos indicadores conjunturais. A digitalização da economia alterou cadeias produtivas, modelos de negócios e formas de contratação. Enquanto novas ocupações surgem, outras desaparecem ou são profundamente modificadas pela automação. A inteligência artificial acelera esse processo ao assumir tarefas que, até pouco tempo atrás, eram consideradas exclusivamente humanas. E o impacto não será uniforme: como em outros momentos da história, os benefícios tendem a concentrar-se entre aqueles que já possuem maior acesso à educação, ao capital e à tecnologia, enquanto trabalhadores menos qualificados enfrentam riscos crescentes de substituição e precarização.
Basta observar a rotina de quem trabalha por aplicativos. O dia começa sem garantia de renda e termina da mesma forma. A remuneração depende da demanda, da localização, das avaliações dos clientes e, sobretudo, de decisões tomadas por algoritmos que ninguém conhece — embora milhões de pessoas dependam deles para trabalhar.
A promessa inicial era sedutora: mais autonomia, horários flexíveis e liberdade para organizar a própria rotina. Na prática, grande parte desses trabalhadores passou a depender economicamente de uma ou poucas plataformas, sem acesso aos direitos tradicionalmente assegurados pelas relações formais de emprego.
Está aí a contradição que desafia o Direito do Trabalho contemporâneo. Embora subordinados a algoritmos que definem remuneração, distribuição de demandas, avaliações de desempenho e até a permanência na plataforma, esses trabalhadores continuam sendo classificados, em muitos casos, como empreendedores independentes. Trata-se de uma ficção jurídica que transfere praticamente todos os riscos da atividade econômica para quem trabalha, dispensando as empresas da responsabilidade por proteção previdenciária, cobertura contra acidentes ou estabilidade de renda em períodos de baixa demanda. Não se trata, portanto, de uma expansão espontânea do empreendedorismo, mas da construção de novas formas de subordinação adaptadas à economia digital. A linguagem mudou; a vulnerabilidade, nem tanto.
É nesse ponto que a discussão deixa de ser apenas tecnológica e assume um caráter político. A inovação, por si só, não produz inclusão nem precarização: o resultado depende das regras que orientam seu funcionamento. A legislação trabalhista brasileira foi construída para responder a um mercado organizado em torno do emprego tradicional — empresas identificáveis, jornadas fixas, subordinação direta e relações relativamente estáveis. A economia digital rompeu boa parte dessas referências, e a capacidade regulatória do Estado passou a caminhar atrás da realidade.
A regulamentação aprovada em 2025 para parte dos trabalhadores de plataformas representou um passo importante, ao reconhecer que novas formas de organização do trabalho exigem instrumentos igualmente novos de proteção social. Ainda assim, está longe de encerrar o debate: a rápida evolução das tecnologias digitais produz continuamente formas inéditas de contratação e intermediação que escapam aos marcos jurídicos existentes. O desafio não é impedir o avanço das plataformas ou inviabilizar novos modelos de negócio, mas assegurar que a modernização econômica não aconteça à custa de direitos conquistados ao longo de décadas — o que exige capacidade institucional permanente, capaz de acompanhar as mudanças em vez de reagir apenas quando seus efeitos já estão consolidados.
As transformações do mundo do trabalho atingem também uma dimensão menos visível e, talvez por isso, frequentemente negligenciada: o tempo dedicado ao trabalho. Durante grande parte do século XX, as principais conquistas trabalhistas estiveram associadas à redução das jornadas, que permitiu diminuir acidentes, melhorar as condições de saúde e criar espaço para educação, lazer e convívio familiar. A Constituição de 1988 incorporou parte desse processo ao estabelecer a jornada semanal máxima de 44 horas.
Quase quatro décadas depois, a produtividade do trabalho foi transformada por tecnologias digitais, automação e novos processos organizacionais, mas a duração da jornada permaneceu praticamente inalterada. Cerca de três quartos dos empregados regidos pela Consolidação das Leis do Trabalho ainda cumprem 44 horas semanais, e milhões de pessoas seguem submetidas a regimes como a escala 6×1, na qual apenas um dia da semana é reservado ao descanso. A realidade afeta especialmente o comércio, a alimentação, o transporte e a construção civil — setores em que predominam salários mais baixos e menor escolaridade.
Para esses trabalhadores, a folga semanal raramente representa descanso. Ela é consumida por pendências acumuladas durante seis dias consecutivos: supermercado, limpeza da casa, consultas médicas, contas, deslocamentos e cuidados com os filhos. Quando essas tarefas terminam, a semana seguinte já começou. Com o tempo, a rotina favorece o surgimento de transtornos como ansiedade, depressão, síndrome de burnout, doenças osteomusculares e hipertensão, além de aumentar o risco de acidentes provocados pela fadiga.
Os impactos não recaem apenas sobre os trabalhadores. Empresas convivem com maiores índices de absenteísmo, rotatividade e presenteísmo — situação em que o empregado permanece no posto de trabalho, mas sem condições de manter desempenho compatível com sua capacidade. Sistemas públicos de saúde e previdência absorvem parcela crescente dos custos do adoecimento relacionado ao trabalho. O que aparece como economia de curto prazo pode representar, na prática, uma despesa muito maior distribuída por toda a sociedade. A experiência internacional reforça o diagnóstico: países que reduziram suas jornadas observaram aumento da produtividade por hora trabalhada, melhora dos indicadores de saúde ocupacional e menor rotatividade. Trabalhadores descansados tendem a produzir melhor, cometer menos erros e permanecer mais tempo nas empresas.
No Brasil, a aprovação, pela Câmara dos Deputados, da redução gradual da jornada máxima semanal para 42 horas e, posteriormente, para 40 horas, mantendo dois dias consecutivos de descanso e preservando os salários, recolocou a discussão no centro da agenda pública. A matéria ainda depende do Senado, mas já evidencia uma mudança de perspectiva: qual é o equilíbrio desejável entre produtividade, competitividade e qualidade de vida em uma economia intensamente marcada pela inovação tecnológica?
Outra transformação, igualmente profunda, ocorre de maneira mais silenciosa: a redefinição das competências exigidas para permanecer empregado. A inteligência artificial já participa do cotidiano de milhões de profissionais — softwares elaboram contratos, auxiliam diagnósticos médicos, analisam balanços financeiros, produzem textos e desenvolvem códigos de programação. Em muitos escritórios, quem antes passava horas elaborando relatórios, apresentações ou peças jurídicas agora divide parte dessas tarefas com sistemas automatizados. A tecnologia não elimina necessariamente essas ocupações, mas modifica o conteúdo do trabalho.
Isso não significa que o trabalho humano desaparecerá. As revoluções tecnológicas anteriores mostraram que, à medida que determinadas ocupações deixam de existir, outras surgem para atender às novas demandas. A diferença, desta vez, está na velocidade: o intervalo entre o desaparecimento de funções e o surgimento de novas oportunidades tornou-se significativamente menor, e as competências exigidas pelo mercado mudam em ritmo acelerado. A atualização profissional passou a ser uma necessidade permanente, e não mais uma etapa restrita ao início da carreira.
Por isso, a qualificação deixa de ser apenas uma política educacional para se tornar componente estratégico da política de desenvolvimento. Mas oferecer cursos, por si só, não resolve o problema. Grande parte dos trabalhadores que mais necessitam de qualificação enfrenta justamente as maiores dificuldades para estudar: jornadas extensas, longos deslocamentos, responsabilidades familiares e restrições financeiras. Horários flexíveis, oferta territorializada, ensino híbrido e apoio financeiro tornam-se condições tão importantes quanto o próprio conteúdo ofertado.
Esse ponto se conecta diretamente ao debate sobre a jornada. Reduzir o tempo dedicado ao trabalho não amplia apenas o descanso: devolve aos trabalhadores um recurso cada vez mais escasso, o tempo para aprender. Em um mercado no qual a atualização permanente virou condição de empregabilidade, jornadas excessivas produzem um efeito perverso, dificultando o acesso à formação necessária para enfrentar as transformações tecnológicas.
A reorganização do trabalho também precisa considerar as desigualdades históricas que continuam estruturando o mercado. Mulheres, pessoas negras, jovens e pessoas com deficiência seguem enfrentando obstáculos significativamente maiores para acessar empregos de qualidade, progredir na carreira e alcançar remuneração equivalente à de outros grupos.
Em inúmeras famílias, quando termina a jornada remunerada, começa outra: preparar refeições, acompanhar tarefas escolares, cuidar de crianças e idosos, organizar a casa. Essa segunda jornada recai de forma desproporcional sobre as mulheres, limitando oportunidades de qualificação, reduzindo a disponibilidade para promoções e influenciando a permanência no mercado de trabalho. A desigualdade não decorre apenas da discriminação salarial, mas da distribuição desigual do tempo dedicado ao cuidado. Discutir políticas trabalhistas implica, portanto, discutir creches, escolas em tempo integral, serviços voltados às pessoas idosas e redes de apoio às famílias — medidas que ampliam a participação feminina no mercado, reduzem desigualdades de renda e fortalecem o crescimento econômico.
Ganha relevância, ainda, o fortalecimento de formas alternativas de organização econômica. Cooperativas, empreendimentos solidários e iniciativas de economia popular demonstram que é possível combinar geração de renda, participação coletiva e desenvolvimento territorial, sobretudo em regiões onde o mercado formal apresenta baixa capacidade de absorção da mão de obra. Para deixarem a posição periférica que ocupam na economia brasileira, essas experiências precisam de políticas de acesso ao crédito, assistência técnica, compras governamentais e capacitação gerencial.
Vistas em conjunto, essas transformações indicam que o mercado de trabalho do século XXI será definido menos pela quantidade de empregos disponíveis e mais pela qualidade das oportunidades oferecidas. E o Brasil discute isso em uma situação relativamente favorável: com emprego formal e renda em recuperação, há condições mais propícias para enfrentar desafios estruturais que, durante muito tempo, permaneceram em segundo plano.
Esse enfrentamento depende do Estado — não apenas como fiscalizador das relações de trabalho, mas como coordenador de políticas capazes de integrar educação, inovação, proteção social e desenvolvimento produtivo. O mercado responde rapidamente aos estímulos econômicos, mas não corrige desigualdades históricas nem assegura que os benefícios do crescimento alcancem toda a população. A qualificação profissional precisa dialogar com as estratégias de desenvolvimento industrial; a proteção previdenciária, acompanhar as novas formas de contratação; a política educacional, antecipar as competências exigidas nos próximos anos. Quando essas agendas caminham separadamente, as respostas tendem a ser fragmentadas diante da velocidade das mudanças.
Será preciso, também, abandonar a falsa oposição entre competitividade e proteção social. As experiências internacionais mostram que economias inovadoras não são as que reduzem direitos, mas as que combinam investimento em tecnologia, educação e instituições capazes de oferecer segurança durante períodos de transição. Empresas inovam com mais facilidade quando contam com trabalhadores qualificados; trabalhadores se qualificam com mais facilidade quando dispõem de tempo, renda e perspectivas de futuro. Esses elementos não competem entre si: são parte de uma mesma estratégia de desenvolvimento.
As perguntas que orientam o debate, portanto, são mais amplas do que os indicadores tradicionais de desemprego e informalidade:
- Como preparar trabalhadores para profissões que ainda não existem?
- Como assegurar proteção social em relações de trabalho cada vez mais flexíveis?
- Como distribuir os ganhos de produtividade produzidos pela inteligência artificial?
- Como garantir que a inovação reduza desigualdades, em vez de aprofundá-las?
Não há respostas definitivas para um fenômeno em constante transformação, mas as escolhas feitas agora influenciarão a capacidade do país de crescer de forma sustentável e reduzir desigualdades.
Afinal, a tecnologia pode ampliar a produtividade, criar novas ocupações e impulsionar o crescimento econômico. Mas também pode aprofundar desigualdades, fragilizar direitos e concentrar renda, caso seus benefícios permaneçam restritos a uma parcela da sociedade. Essa escolha não será feita pelos algoritmos nem pelo mercado: dependerá da capacidade da sociedade de construir instituições compatíveis com os desafios do nosso tempo.
O entregador que abriu o aplicativo antes do amanhecer, a atendente que encerrou o sexto dia consecutivo de trabalho e a analista que divide parte de sua rotina com sistemas de inteligência artificial representam faces distintas de uma mesma transformação. O futuro do trabalho já começou. A pergunta que permanece em aberto é se o Brasil conseguirá transformá-lo em oportunidade de desenvolvimento inclusivo ou se permitirá que ele reproduza, sob novas formas, desigualdades que atravessam sua história.
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Jaqueline Maria é jornalista e gestora pública com 10 anos de experiência em assessoria de comunicação governamental.
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