11 de agosto de 2026
Sociedade

O Brasil embaixo d’água

Enchentes devastam o Brasil e o debate entre mais infraestrutura ou integração com a natureza se polariza. Sem planejamento urbano e ação preventiva, milhões seguem expostas aos desastres climáticos iminentes.

Por Fausto Oliveira

Enquanto esperamos o anunciado “super El Niño” para o fim do ano, assistimos com pesar novas inundações e seus conhecidos desastres no sul do Brasil. Tudo indica que a situação vai piorar, se de fato tivermos um verão com níveis extraordinários de chuva no centro-sul do Brasil. Como se sabe, toda a região litorânea brasileira, do estado do Rio de Janeiro para baixo, e pelo interior vindo do sul de Minas Gerais até todo o Planalto Meridional, é de terras instáveis. Muitas encostas sobre rocha basáltica, ocupadas irregularmente por milhões de pessoas, favorecem os desastres. Some-se a isso uma urbanização que dispensou o planejamento, e assim até nas capitais existe fragilidade estrutural diante das chuvas que regularmente assolam a região. 

Debate-se como mitigar esse tipo de problema. Entre urbanistas e gestores públicos, há uma certa divergência conceitual, que divide as recomendações entre apostar ainda mais na infraestrutura conforme o modelo tradicional, ou apostar mais na reintegração dos espaços urbanizados à natureza, criando assim zonas de absorção dos impactos das grandes chuvas. 

Seria terrível se até um debate como esse, que ao final é um debate sobre como melhor preservar a vida de brasileiros em situação vulnerável, se perdesse nos meandros de uma ideologização maníaca que tomou conta do Brasil. Não se deve ceder à tentação de associar diretamente a defesa da infraestrutura com uma “direita pró-obras”, nem de associar diretamente a integração das cidades com a natureza a uma “esquerda ambientalista”. 

Ao menos nisto, deveria ser possível encontrar aquele território mediano em que conceitos opostos intercambiam expressões e criam uma zona comum de onde saem, em geral, as melhores soluções.

Não é razoável dispensar a recomendação de que as cidades brasileiras criem espaços de drenagem natural e absorção das águas de chuva, assim como também não é razoável dispensar a recomendação de fortalecer a infraestrutura urbana como forma de salvaguardar a população

 

Mais áreas verdes

O debate urbanístico pró-natureza advoga que a drenagem é a principal carência das grandes cidades brasileiras, que de fato são hoje bastante impermeáveis e sentem que seus sistemas de canalização e escoamento têm cada vez menos vazão diante das chuvas. Com mais “jardins de chuva”, áreas dedicadas à absorção da água e realimentação dos lençóis freáticos, as cidades poderiam reduzir os alagamentos. 

A ideia se baseia na física e nas evidências: os sistemas construídos para escoar água (canais, galerias, manilhas etc) têm capacidade limitada de vazão, que vem sendo atingida cada vez mais cedo. Quando isso acontece, param de funcionar e a cidade alaga. Para piorar, os lixos acumulados nos captadores de água favorecem o alagamento criando uma barreira extra para o escoamento. 

Entretanto, é necessário saber em que condições a solução da drenagem natural apresentaria suficiência. Se a física vale para criticar, também vale para endossar. Quantos hectares uma cidade como Porto Alegre teria que dedicar para drenagem natural? Estas áreas poderiam ser concentradas em poucos pontos ou necessariamente precisam estar dispersas? Qual percentual dos volumes registrados recentemente na cidade poderiam de fato ser absorvidos por esse sistema? Uma vez feita a absorção, o que impediria a água de escoar para o Guaíba e retornar à cidade via transbordamento? 

São questões legítimas e que devem ser feitas. Porém, nenhuma delas quer desqualificar a ideia da absorção da chuva por áreas verdes, nem negar seu valor de antemão. Ocorre que, ao imaginar soluções como essa, a gestão pública precisará projetá-la utilizando-se de engenharia e conhecimento técnico sobre o território. Em outras palavras: não é por envolver a natureza que uma solução urbanística deixa de ser uma obra técnica.

 

Mais engenharia

No outro polo do debate, existe a solução que por força do tempo pode ser classificada como tradicional: o uso de mais engenharia civil para ampliar as redes de escoamento, com a construção constante de mais galerias, canalizações e grandes tubulações. É quase auto-explicativo que pode chegar uma hora em que o volume de chuvas seja tão grande que não haja escoamento possível. Mas o limite aí não seria apenas material, mas possivelmente econômico. 

Ora, em geral chove forte em uma determinada região uma vez por ano, em um período de cerca de um mês, no máximo dois. Construir uma rede tão grande de escoamento hídrico, a um custo imenso, para ser usada apenas um décimo do ano, pode ser antieconômico. E no Brasil, rapidamente viriam os economistas de sempre criticar o “gasto público sem qualidade”. Não importa que salva vidas, não importa que naquele mês de chuvas o sistema ajuda demais, o que importa é que a planilha matemática aponta o gasto mal feito. É a chamada “dismal science” (a ciência sombria) em ação.

Mas, apesar disso, os sistemas de escoamento são sim necessários e úteis, e mesmo que as áreas verdes sejam implementadas com vigor, eles precisarão ser ampliados. E por razões, voltamos a dizer, físicas e técnicas. Provavelmente, não haverá bala de prata na adaptação do centro-sul do Brasil às novas condições climáticas. É melhor desde já entendermos que um conjunto variado de soluções, aplicadas com boa técnica e sem interdições ideológicas, será nosso melhor caminho para impedir a repetição dos desastres. 

 

Mais inteligência

O drama de verdade é outro, no entanto. O que fazer com os milhões de brasileiros que vivem em áreas absolutamente expostas aos riscos de alagamento e desabamento? É aí que a típica confusão kafkiana do Brasil entra em cena para nos brindar com a inércia desesperadora. 

Prefeituras não têm poder para remover famílias antes da consumação do desastre. Estados não têm dinheiro para financiar suas próprias obras de prevenção. A União só pode liberar créditos extraordinários quando os sobreviventes estão em ginásios, de resto vale a austeridade da “dismal science”. E a cereja do bolo é a ideologização da pobreza, que de uns tempos para cá resolveu insuflar o orgulho da favela como se ela não fosse um enorme problema humanitário, mas sim uma origem social e cultural, um modo de ser merecedor de todo respeito e consideração. Remover uma favela, ou uma aglomeração qualquer em área de risco, quase passa a ser tratado como crime cultural. 

O Brasil precisa, portanto, retomar níveis mínimos de razoabilidade em uma série de debates, a fim de realmente ser capaz de prevenir desastres como o que, de novo, assola nossos irmãos do sul. Mas, com o perdão do fecho pessimista, não há chance de isso acontecer antes da chegada do “super El Niño”, previsto para o fim do ano.


 

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Fausto Oliveira
 é jornalista de economia com experiência nacional e internacional em setores industriais e infraestrutura.
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