16 de setembro de 2026
Produção

A geopolítica do biometano: nova oportunidade para o Brasil

Enquanto o petróleo declina e a China propõe seu pacote elétrico, o biometano brasileiro cresce 75% ao ano. Com potencial de 43 bilhões de metros cúbicos, surge nova oportunidade estratégica.

Por Fausto Oliveira

 

Enquanto o mundo assiste o lento, porém irreversível, colapso da hegemonia petrolífera, a maioria dos países dispõe de pouquíssimas alternativas. Aquela que se apresenta como única saída para a crise energética fóssil vem da China, que propõe adoção passiva de veículos elétricos e sistemas eletrificados para uma imensa variedade de atividades produtivas. Vale notar que não se trata apenas de carros de passeio: a China também propõe a eletrificação de caminhões e ônibus, tratores e maquinário agrícola, maquinário de construção e mineração, produção de insumos de base como aço, químicos e celulose, entre outros. 

O plano chinês, que já está evidente, é com seu “pacote elétrico”, substituir a unipolaridade mundial hegemonizada pelos Estados Unidos por uma espécie de multipolaridade sob seu controle, em que um novo arranjo geopolítico governe o mundo de acordo com uma subserviência cooperativa ao governo chinês. Beijing coordenará a economia mundial, mas possivelmente legando aos demais países papéis menos indignos do que a ordem transatlântica do pós-Segunda Guerra. É a melhor hipótese para o futuro, e espera-se que a transição para este novo panorama se conclua rapidamente e sem conflitos ainda maiores do que já custou. 

Esta subserviência cooperativa, ao contrário do que propôs a ordem transatlântica que ora se derroca, pode enxergar benefícios em processos de desenvolvimento fora de suas fronteiras. Caso tudo isso possa de fato dar-se desta forma, o Brasil teria muito a oferecer e, portanto, a ganhar. Sabe-se, por exemplo, que o problema da energia é o foco central da sacudida geopolítica e produtiva que testemunhamos. Nossa posição é privilegiada para este debate, principalmente devido ao fato de que o Brasil tem um potencial altamente relevante em combustíveis de base biogênica. 

 

O caso do biometano

O biometano, entre todas as experiências produzidas pelo Brasil na área de combustíveis biogênicos, já é o segundo projeto mais bem sucedido. Fica atrás, logicamente, do etanol, que por força de lei ganhou mercado ao se misturar em generosas proporções à gasolina, e ao desenvolvimento do carro flex no início deste século (também por força de ação do Estado). 

Agora, por força da aprovação da Lei do Combustível do Futuro, em 2024, abriu-se o espaço para a constituição de novos mercados domésticos de combustível biogênico. E de lá para cá, o biometano vem se provando uma alternativa economicamente viável e com aplicabilidade industrial já em andamento. A produção anual do biometano no Brasil cresceu 75% entre 2025 e 2026, passando para 1 milhão de metros cúbicos por dia. Ainda muito pouco perto do potencial calculado em nada menos que 43 bilhões de metros cúbicos por ano, o que torna o Brasil o país com maior potencial de crescimento para biometano em todo o mundo. 

Hoje, o país tem 21 plantas de produção de biometano em operação e outras 48 plantas autorizadas. Estas autorizações possibilitam a previsão de investimentos de R$ 25 bilhões de agora até 2030. E seja qual for a origem do biometano, todos os processos de produção envolvem encadeamentos industriais que podem contribuir para, pelo menos, a manutenção dos patamares industriais do Brasil. 

O biometano brasileiro é produzido a partir de quatro principais fontes: a) subproduto da cana de açúcar (vinhaça); b) dejetos do gado de corte (suínos, bovinos e aves); c) resíduos de colheitas agrícolas; d) resíduos urbanos em aterros sanitários. Em todos os casos, os rejeitos são mantidos em grandes ambientes fechados onde produz-se o biogás. O biogás proveniente da decomposição do resíduo é uma mistura de moléculas que precisa passar por filtragem. Após a filtragem, obtém-se a molécula do biometano (CH4). 

O aproveitamento ainda tímido do biogás para produção de biometano já foi capaz de movimentar a cadeia automotiva, por exemplo. Duas grandes fabricantes de caminhão instaladas no Brasil (Scania e Volkswagen) já tem produção de caminhões adaptados para rodar com biometano.

São necessários em média dez tanques em cada unidade para atingir uma autonomia de 600 quilômetros. É uma autonomia ainda bem menor que o diesel, mas com vantagens cada vez mais ligadas à insegurança econômica decorrentes da dependência do óleo diesel importado. Além disso, as empresas brasileiras de gás já perceberam a oportunidade e começaram a instalar pontos de recarga de biometano em sedes de transportadoras. Assim, facilita-se a operação de caminhões cuja área de cobertura não exceda 300 quilômetros, que passam a poder realizar suas entregas e retornar à base para uma nova recarga. 

Como em todo o vasto assunto das novas energias e suas aplicações, o veredito possível é ainda cauteloso, embora otimista. É fato consumado que o biometano crescerá no Brasil, assim como é certo que terá posição relevante na matriz automotiva de veículos pesados. É incerto se este combustível poderá chegar a veículos leves, assim como não se conhece ainda o impacto que outras rotas tecnológicas poderão ter sobre esta nascente indústria nacional.

Mas em termos da economia política da energia deste século, parece claro que o sucesso do biometano no Brasil protege a economia nacional de choques provenientes da lenta mas certa crise do petróleo, sem no entanto nos deixar inteiramente vulneráveis aos interesses do “pacote elétrico” chinês. Por outro lado, agrega-se ao biometano a vantajosa perspectiva industrializante, tanto com veículos adaptados quanto com infraestrutura de produção e circulação da molécula. Isto, por fim, também pode significar uma proteção para eventuais crises de preço internacional de commodities agrícolas, oferecendo uma grande via de conversão para a agricultura caso nossos principais produtos de exportação sofram uma queda abrupta por fatores fora do nosso controle.           

    

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Fausto Oliveira
 é jornalista de economia com experiência nacional e internacional em setores industriais e infraestrutura.
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