Brasil desperdiça sua maior riqueza criativa enquanto mundo inteiro lucra com economia criativa; entenda como transformar a diversidade cultural brasileira em desenvolvimento econômico real, sustentável e de verdadeiro longo prazo
Por Jaqueline Maria
Existe uma armadilha recorrente no debate público brasileiro sobre cultura: a de tratá-la como ornamento — algo nobre, digno de apoio retórico, mas frequentemente adiado diante das chamadas “urgências”. Trata-se de uma visão equivocada e, ao mesmo tempo, custosa. Custosa porque desperdiça um dos maiores ativos competitivos do país em um momento em que a economia criativa global cresce de forma acelerada. Equivocada porque ignora o papel concreto da cultura na sociedade: construir identidade coletiva, gerar coesão social, criar empregos, dinamizar economias locais e projetar o país internacionalmente com uma força que nenhuma estratégia convencional de marketing consegue reproduzir.
O Brasil reúne uma das culturas mais ricas, diversas e originais do mundo. Da música ao cinema, do artesanato às artes visuais, da literatura à moda, das festas populares às tradições indígenas e afro-brasileiras, o país detém um patrimônio imaterial de valor incalculável. Ainda assim, esse potencial permanece subexplorado como vetor de desenvolvimento econômico e de inserção internacional. Transformar essa riqueza em força produtiva organizada, com políticas públicas consistentes e financiamento adequado, é um dos desafios centrais do desenvolvimento nacional.
A economia criativa, que abrange setores como audiovisual, música, design, moda, jogos digitais, arquitetura e produção cultural em sentido amplo, mobiliza cadeias produtivas complexas e intensivas em conhecimento. Em países como Reino Unido, Coreia do Sul e França, esse campo é tratado como estratégico, com políticas industriais específicas, instrumentos robustos de financiamento e metas claras de internacionalização. No Brasil, apesar do potencial evidente, o setor ainda enfrenta obstáculos estruturais, como a concentração de investimentos nos grandes centros urbanos, a dependência excessiva de mecanismos de incentivo fiscal e a ausência de uma estratégia integrada que articule cultura, educação, turismo, tecnologia e desenvolvimento territorial.
Modelos internacionais baseados em fundos públicos descentralizados, como os adotados na França e na Alemanha, mostram que a distribuição territorial dos investimentos é condição para fortalecer a diversidade cultural. No caso brasileiro, essa descentralização não é apenas uma questão de equidade, mas um requisito para que a riqueza cultural do país seja efetivamente dinamizada, e não apenas celebrada no plano simbólico.
Entre reconstrução e estratégia de longo prazo
Entre 2019 e 2022, o Brasil atravessou um período de desestruturação das políticas culturais, marcado pela extinção do Ministério da Cultura, pelo esvaziamento de fundos setoriais e pelo contingenciamento sistemático de recursos. Esse processo produziu impactos concretos sobre trabalhadores, instituições e cadeias produtivas do setor. A retomada recente, com a recriação do ministério, a reativação de instrumentos de fomento e novos investimentos em infraestrutura cultural, representa um passo importante na reversão desse quadro.
No entanto, a reconstrução, por si só, não é suficiente. O desafio agora é estruturar um sistema de financiamento que seja robusto, previsível e menos dependente de ciclos políticos. Isso passa pela diversificação de fontes de recursos, pelo fortalecimento dos fundos públicos e pela criação de mecanismos que ampliem o acesso ao financiamento para regiões e públicos historicamente marginalizados.
A preservação do patrimônio cultural, material e imaterial, também demanda uma abordagem que vá além das lógicas de curto prazo. Sítios históricos, saberes tradicionais, línguas indígenas e práticas culturais de comunidades diversas enfrentam pressões constantes. Garantir sua continuidade exige não apenas proteção formal, mas a construção de vínculos vivos com as novas gerações. Nesse sentido, a integração entre cultura e educação é central, seja por meio de programas de educação patrimonial, seja por iniciativas que conectem a produção contemporânea às tradições locais.
A transformação digital introduz, ao mesmo tempo, oportunidades e desafios. A ampliação do acesso por meio de plataformas digitais permitiu alcançar novos públicos e reduzir barreiras de entrada para produtores independentes. Por outro lado, a crescente concentração nas grandes plataformas internacionais levanta questões sobre remuneração, direitos autorais e controle dos fluxos de distribuição cultural. Enfrentar essas questões exige atualização regulatória e atuação coordenada no plano internacional, além de investimentos em infraestrutura que reduzam a exclusão digital.
A cultura também desempenha um papel estratégico na projeção internacional do país. A capacidade de mobilização simbólica da produção cultural brasileira é reconhecida globalmente, mas ainda carece de políticas consistentes de internacionalização. Diplomacia cultural ativa, apoio à participação em circuitos internacionais e promoção da língua portuguesa são instrumentos fundamentais para ampliar esse alcance e posicionar o Brasil como um dos principais polos criativos do mundo.
Investir em cultura, portanto, não é apenas uma escolha estética ou simbólica. Trata-se de uma decisão estratégica, com impactos econômicos, sociais e geopolíticos. Reconhecer a diversidade cultural brasileira como ativo central e estruturá-la por meio de políticas públicas consistentes, financiamento adequado e visão de longo prazo é condição para que o país transforme sua riqueza criativa em desenvolvimento efetivo.
====================
Jaqueline Maria é jornalista e gestora pública com 10 anos de experiência em assessoria de comunicação governamental.
====================

