Um carro de som reuniu 100 mil pessoas em Brasília, o maior protesto em 18 anos. Com pautas claras, os estudantes disputam o futuro que 2013 deixou à extrema direita.
Por Pedro Assumpção Alves
Um carro de som e 100 mil pessoas. Essa é uma descrição simples do que aconteceu em Brasília no dia 13 de outubro de 2026. O Diretório Central dos Estudantes da Universidade de Brasília (UnB) conseguiu reunir mais manifestantes do que qualquer outro protesto realizado na capital federal nos últimos 18 anos.
Confesso que, quando a manifestação chegou à altura do Palácio Itamaraty, na Esplanada dos Ministérios, senti um frio percorrer a espinha. Foi inevitável lembrar de junho de 2013, quando uma multidão de dimensões semelhantes ocupou os arredores do Congresso Nacional e abriu um período de profundas transformações na política brasileira, nos colocando, talvez, no trilho da ascensão da extrema direita.
Mas existe uma diferença marcante entre aqueles dois momentos, capaz de alterar radicalmente as consequências políticas e históricas que podem surgir das ruas.
Em 2013, a multidão que se dirigiu ao Congresso expressava um mal-estar amorfo, sem uma direção política definida. Parte daquela insatisfação acabou capturada por discursos simplistas de combate à corrupção, alimentando um processo que passou pelo lavajatismo, pelo impeachment de Dilma Rousseff e pela ascensão de Jair Bolsonaro à Presidência da República.
Já a manifestação de 2026 foi impulsionada pelo movimento estudantil em torno de pautas claras. A defesa da educação, dos direitos trabalhistas e a reivindicação de uma agenda mais progressista do que aquela efetivamente praticada ao longo do terceiro mandato do presidente Lula, inclusive como horizonte para sua reeleição.
Ainda tomado pela energia contagiante dos jovens nas ruas, fico pensando se esse movimento poderá representar uma inflexão na política brasileira. Se será capaz de tirar o campo progressista da defensiva e devolver a ele a capacidade de mobilizar a sociedade em torno de um sonho coletivo de país.
A retomada das ruas, tem sido acompanhada de um hercúleo esforço de ocupação das redes. Apesar da capacidade de nossos telefones celulares invadirem a privacidade e a subjetividade de praticamente todos os cidadãos brasileiros. Temos de assumir que no atual contexto, fazer campanha nas redes sociais tem sido jogar no campo do adversário, que tem a Meta ao seu lado. Mas o homem coletivo não pode esquecer que vive no espaço compartilhado e que a rua deve ser o habitat da pressão popular.
Porque o tempo urge, e administrar o presente já não parece suficiente para disputar o futuro.
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Pedro Assumpção Alves é Economista e Mestre em Demografia, Servidor Público Federal da carreira de Especialista em Políticas Públicas e Gestão Governamental, atualmente em exercício na Secretaria de Gestão de Pessoas do MGI. Já atuou em temas relacionados ao Desenvolvimento de Capacidades Estatais, determinantes sociais da saúde, Direitos Humanos e Desenvolvimento Agrário e Rural.
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