O patriotismo real hoje é defender a soberania do Brasil de guerras híbridas e de quem, internamente, alinha-se a interesses externos. Não basta bradar: é preciso proteger recursos e autonomia
Por Márcio Gimene
A natureza dos conflitos internacionais passou por transformações substanciais nas últimas décadas. O modelo clássico de guerra, caracterizado por declarações formais, batalhas campais entre Estados soberanos e ocupações territoriais explícitas, cedeu lugar a formas mais difusas, assimétricas e sofisticadas de confronto. As chamadas guerras não convencionais incluem operações clandestinas, intervenções veladas, ataques cibernéticos, campanhas de desinformação, guerras econômicas, sabotagem tecnológica e manipulação de fluxos informacionais.
Essa nova configuração bélica se articula com o uso intensivo de tecnologias avançadas, como drones, satélites, inteligência artificial, algoritmos de reconhecimento comportamental e plataformas digitais de disseminação massiva de conteúdos. Trata-se de um contexto em que os conflitos extrapolam os limites geográficos e temporais dos confrontos armados tradicionais, atingindo esferas políticas, econômicas, sociais e cognitivas.
As guerras contemporâneas são travadas tanto por Estados quanto por corporações privadas. O domínio sobre cadeias produtivas globais, plataformas tecnológicas e dados sensíveis consolida-se cada vez mais como instrumento estratégico de poder. Isso confere às tecnologias digitais, aos sistemas de comunicação e aos aparatos logísticos o status de infraestruturas críticas, cuja vulnerabilidade pode ser explorada por adversários em ações de guerra híbrida. A manipulação da opinião pública por meio de desinformação coordenada, a espionagem industrial, os bloqueios econômicos seletivos e as sanções comerciais se tornaram elementos recorrentes de disputas entre potências, substituindo, em muitos casos, o confronto militar direto.
Nesse contexto, o Brasil enfrenta desafios consideráveis. O país abriga a maior floresta tropical do mundo, imensas reservas de água doce, solos férteis, uma matriz energética majoritariamente renovável, recursos minerais críticos para a transição energética e uma rica biodiversidade com valor crescente na bioeconomia, além de já ser um dos maiores exportadores mundias de alimentos. Essas características o tornam um ativo geoestratégico cobiçado por outras potências e as empresas nelas sediadas.
Embargos, barreiras não tarifárias e campanhas de desinformação sobre padrões de produção e comércio tendem a ser cada vez mais utilizados como instrumentos de contenção da autonomia política e econômica brasileira. A isso se soma o fato de que a nossa capacidade militar encontra-se dependente de tecnologias críticas importadas, o que expõe o país a riscos de espionagem e vulnerabilidades operacionais. A interdependência tecnológica não é neutra. Softwares e equipamentos importados podem conter backdoors, restrições técnicas e falhas intencionais, o que compromete a soberania digital e a integridade de infraestruturas essenciais.
É nesse ponto que emerge a contradição gritante daqueles que, em vez de defenderem a soberania nacional, alinham-se de forma subserviente a interesses estrangeiros. O paradoxo é que muitos dos que falam em “defender a pátria” são os primeiros a traí-la. Fazem discursos inflamados contra supostos inimigos internos, mas se omitem ou mesmo aplaudem agressões externas. É preciso dizer de forma clara: é inaceitável que cidadãos que se dizem patriotas se prestem ao papel de instrumentos de desestabilização das instituições brasileiras! Não são patriotas: são porta-vozes de um projeto neocolonial.
De que vale bradar slogans nacionalistas se, na prática, defendem a subordinação das nossas decisões políticas às pressões e chantagens impostas por governantes de outros países? O verdadeiro patriotismo não se mede pela exibição de bandeiras e camisas verde-amarelas, mas pela disposição em proteger nossos recursos, fortalecer nossas instituições e preservar a capacidade do povo brasileiro de decidir seu próprio destino. Patriota é quem reconhece o valor do Brasil, protege suas riquezas, fortalece sua democracia e contribui para a construção de caminhos próprios de desenvolvimento, com justiça social e autonomia tecnológica em infraestruturas críticas.
A história brasileira está repleta de momentos em que a soberania foi ameaçada por forças externas, com a colaboração de atores internos. Mas o Brasil, com sua dimensão continental, sua diversidade cultural, suas riquezas naturais, seu amplo mercado interno e sua estrutura produtiva relativamente diversificada, não pode se permitir o luxo da servidão voluntária. É preciso resgatar o sentido profundo da independência, que não se esgota em celebrações cívicas ou em desfiles militares. Ela se concretiza quando o país decide, com autonomia, seu modelo de desenvolvimento, suas políticas econômicas e suas formas de inserção e cooperação internacional. A independência se fortalece quando as instituições democráticas são preservadas contra tentativas de captura por empresas e governos estrangeiros. E se afirma, sobretudo, quando o povo brasileiro se reconhece como protagonista do seu próprio destino.
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Márcio Gimene é Analista de Planejamento e Orçamento. Mais informações: www.gimene.com.br.
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