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Rumo e contracorrentes: o que a nova nota técnica do Ipea revela sobre pobreza e desigualdade no Brasil

Pesquisa revela que Brasil alcançou em 2024 os melhores indicadores históricos de renda e desigualdade, combinando recuperação do mercado de trabalho com fortalecimento de transferências assistenciais e proteção social efetiva

 

Por Jaqueline Maria 

A Nota Técnica nº 120 do Ipea, Pobreza e Desigualdade no Brasil no Curto e no Longo Prazo, assinada pelos pesquisadores Pedro H. G. Ferreira de Souza, técnico de Planejamento e Pesquisa da Diretoria de Estudos e Políticas Sociais, e Marcos D. Hecksher, assessor especializado da Diretoria de Estudos Setoriais, de Inovação, Regulação e Infraestrutura, entrega mais que um diagnóstico estatístico: oferece uma leitura atualizada sobre quase três décadas de transformações sociais no país, incorporando revisões recentes do Banco Mundial e da série da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNADC), além de uma leitura crítica das limitações intrínsecas às pesquisas domiciliares.

Ao reconstruir a trajetória da renda, da pobreza e da desigualdade desde 1995, encadeando dados da antiga PNAD e da PNADC, os autores mostram que o Brasil avançou muito no período analisado: a renda média cresceu cerca de 70%, a desigualdade medida pelo coeficiente de Gini caiu quase 18 pontos e a taxa de extrema pobreza despencou de cerca de 25% para menos de 5%. Esses avanços, no entanto, ocorreram de forma irregular, concentrados em dois grandes ciclos: o período de forte redução da desigualdade entre 2003 e 2014 e a recuperação pós-pandemia entre 2021 e 2024, quando o ritmo de melhora foi até mais rápido do que na década anterior. Entre esses dois momentos, o país atravessou estagnação, retrocessos e turbulências — especialmente durante a recessão de 2014 a 2016 e a crise sanitária. Ainda assim, 2024 aparece como o ano de melhores indicadores da série histórica, tanto para renda média quanto para desigualdade e pobreza.

Um dos pontos mais importantes do estudo está nas decomposições utilizadas pelos autores. Ao recorrerem aos métodos de Shapley–Shorrocks e Datt–Ravallion, eles conseguem identificar o peso das diferentes fontes de renda nas variações da desigualdade e da pobreza. Não se trata de estabelecer causalidade, mas de mapear o que mais contribuiu em cada período. Entre 2021 e 2024, por exemplo, a queda de 3,9 pontos no coeficiente de Gini se dividiu praticamente pela metade entre dois motores: 49% do efeito veio do mercado de trabalho e 44% das transferências assistenciais. A extrema pobreza seguiu proporção semelhante. Esses resultados deixam evidente que os ganhos distributivos recentes não são fruto de um único canal, mas da combinação entre recuperação do emprego e fortalecimento da rede de proteção social.

Os autores também chamam atenção para nuances importantes. No biênio 2023/2024, a contribuição do Bolsa Família diminui, não por perda de efetividade, mas porque o ciclo de expansão do programa se encerrou. Parte das mudanças recentes captadas nas pesquisas deriva do crescimento do BPC — cujos valores, porém, são sistematicamente subdeclarados na PNADC, o que pode subestimar a real intensidade da redistribuição. Nos anos anteriores, a dinâmica havia sido oposta: durante a recessão de 2014-2016 e a pandemia, o mercado de trabalho elevava a desigualdade, enquanto as transferências evitavam que essa piora fosse ainda maior.

Souza e Hecksher deixam claro que todas as estimativas dependem das pesquisas domiciliares, que enfrentam dificuldades estruturais para captar rendimentos de trabalhadores por conta própria, empregadores, rendimentos de capital e transferências assistenciais — inclusive BPC e parte do Bolsa Família. Além disso, os dados tributários mostram que a concentração no topo é muito maior e segue trajetória distinta, o que significa que a melhoria observada pelas pesquisas pode não capturar completamente a realidade dos mais ricos. A nota também integra revisões metodológicas recentes — como a atualização das linhas internacionais de pobreza do Banco Mundial com base nos fatores de paridade de 2021 e a reponderação da série da PNADC com base no Censo 2022 — que tornam as estimativas mais consistentes e comparáveis.

Ao final, o estudo deixa uma mensagem inequívoca: a combinação recente de crescimento econômico e redução da desigualdade não é trivial nem garantida. Nos últimos anos, o país avançou porque cresceu e redistribuiu simultaneamente, algo raro em nossa trajetória. Mas, como os próprios autores alertam, o ciclo de ampliação das transferências assistenciais se encerrou; portanto, a manutenção dos avanços dependerá cada vez mais do desempenho do mercado de trabalho. E, paralelamente, dependerá também da capacidade do Estado brasileiro de aprimorar sua produção de dados — integrando pesquisas domiciliares, registros administrativos e dados tributários — para que a sociedade tenha um retrato mais preciso das desigualdades e dos avanços na sua superação.

O arco histórico narrado por Souza e Hecksher é, portanto, uma história de progresso real, mas irregular; de avanços marcantes, porém sujeitos a retrocessos; de conquistas que exigem, para serem preservadas, políticas que contribuam para a manutenção e ampliação das oportunidades de trabalho e informação pública de qualidade. Talvez essa seja a principal lição da nota: se os brasileiros e brasileiras quiserem transformar os episódios de redução da pobreza e da desigualdade em tendência duradoura, precisarão continuar apostando na combinação de proteção social, dinamização econômica e estatísticas públicas sólidas. Sem isso, a trajetória das últimas três décadas — feita de picos virtuosos e retrocessos decorrentes do desmonte de políticas públicas — tende a se repetir.

Leia a Nota Técnica completa aqui: https://repositorio.ipea.gov.br/entities/publication/5263f6e1-04ed-4c86-9084-5744cb7ab5d8

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Jaqueline Maria
é jornalista e gestora pública, com dez anos de experiência em assessoria de comunicação governamental.
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