As mudanças climáticas colocam em risco a produção e acesso a alimentos no Brasil. Estudo da Iniciativa Brasil Saúde Amanhã projeta 2050 e alerta: segurança alimentar é questão de soberania
Por Jaqueline Maria
O estudo “Segurança e Soberania Alimentar no Brasil em 2050: Mudanças Climáticas e Sistema Alimentar”, de Gustavo Souto de Noronha, Jaim José da Silva Junior e Thiago Varanda Barbosa, publicado pela Fiocruz no âmbito da Iniciativa Brasil Saúde Amanhã, lança luz sobre um tema que deveria estar no centro do debate público: o futuro da comida no país. Não se trata apenas de saber o que vamos comer em 2050, mas de compreender se teremos condições de produzir e distribuir alimentos de forma justa, saudável e soberana em meio à crise climática.
O Brasil, que se consolidou como potência agroalimentar mundial, pode ver essa posição ameaçada se não mudar a rota. O estudo mostra que o modelo atual de produção — intensivo em agrotóxicos, monoculturas e uso predatório de recursos naturais — está no limite da sua sustentabilidade. O aumento das temperaturas, a irregularidade das chuvas e a maior frequência de eventos extremos já afetam as safras, reduzem a produtividade e agravam conflitos por terra e água. Se nada for feito, a segurança alimentar da população brasileira — e de boa parte do planeta — estará em risco.
A projeção para 2050 desenha um cenário de incertezas. As mudanças climáticas não apenas reduzem a oferta de alimentos, mas também elevam os preços e aumentam a vulnerabilidade das populações mais pobres. As áreas mais afetadas serão as regiões Norte e Nordeste, onde a agricultura familiar tem papel central na produção de alimentos básicos e na geração de renda local. Ali, a insegurança alimentar pode crescer mesmo em um país que exporta toneladas de grãos.
O texto destaca uma contradição que o Brasil insiste em manter: enquanto exporta soja, milho e carne em larga escala, milhões de brasileiros ainda convivem com a fome. Em 2050, se o país não diversificar sua matriz produtiva e fortalecer a agricultura de base sustentável, corre o risco de ampliar a dependência de importações de alimentos essenciais.
O estudo é incisivo ao afirmar que enfrentar os impactos climáticos exige repensar o sistema alimentar como um todo. Isso envolve desde o modo de produzir até as formas de consumo e distribuição. O caminho apontado é o da transição agroecológica, com incentivo a práticas agrícolas sustentáveis, uso racional da água, proteção de biomas e valorização do conhecimento tradicional de comunidades rurais e povos indígenas. Mais do que um discurso ambiental, trata-se de uma estratégia de sobrevivência nacional.
Outro ponto crucial abordado é o papel das políticas públicas. O Brasil precisa articular suas políticas de segurança alimentar e nutricional — que já foram referência mundial — com as agendas de clima, saúde e desenvolvimento sustentável. A extinção do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea), em 2019, representou uma ruptura grave na governança dessas políticas. Sua recriação recente é um passo importante, mas insuficiente se não houver integração entre os ministérios e prioridade orçamentária para o tema.
A pesquisa também chama atenção para o impacto das transformações urbanas. Em 2050, cerca de 90% da população brasileira viverá em cidades. Isso significa que a segurança alimentar dependerá cada vez mais de cadeias curtas de abastecimento, do fortalecimento de feiras locais e da redução do desperdício. O planejamento urbano e o transporte de alimentos passam a ser tão estratégicos quanto a produção no campo.
Na dimensão da saúde, o alerta é claro: as mudanças climáticas tendem a agravar o quadro de desnutrição e doenças associadas à má alimentação. O aumento da temperatura e da poluição atmosférica afeta a qualidade dos alimentos e favorece a disseminação de pragas e doenças. O estudo reforça que a alimentação saudável — baseada em produtos frescos, de origem local e sem excesso de ultraprocessados — é também uma medida de adaptação climática.
O estudo rompe com a ideia de que o problema da fome se resolve apenas com aumento de produção. Trata-se, antes, de garantir o direito de todos a uma alimentação adequada, culturalmente aceita e produzida de forma justa. É uma discussão que passa pela reforma agrária, pela regulação do mercado de alimentos e pela democratização do acesso à terra e à água.
Pensar o Brasil de 2050 sob a ótica da alimentação é pensar o próprio projeto de país. O que o estudo deixa evidente é que o tempo das escolhas está se esgotando. O modelo atual de desenvolvimento, baseado na expansão do agronegócio exportador e na destruição ambiental, não garantirá nem comida no prato nem equilíbrio climático. Planejar o futuro alimentar do Brasil é, portanto, uma questão de soberania nacional.
O alimento é mais do que mercadoria: é vida, cultura, território e saúde pública. E o que está em jogo, como lembra o estudo, é se o Brasil será capaz de alimentar seu povo sem destruir o solo que o sustenta. Entre o colapso e a transformação, ainda há espaço para decidir — mas o tempo, este sim, está se tornando cada vez mais escasso.
Referência:
NORONHA, G.; JUNIOR, J.; BARBOSA, T. Segurança e Soberania Alimentar no Brasil em 2050: Mudanças Climáticas e Sistema Alimentar. Texto para Discussão nº 96. Rio de Janeiro: Fiocruz / Iniciativa Brasil Saúde Amanhã, 2025.
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Jaqueline Maria é jornalista e gestora pública com 10 anos de experiência em assessoria de comunicação governamental
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