7 de março de 2026
Território

Planejar o território é cuidar do futuro

Pesquisa publicada pela Fiocruz propõe reconstruir o planejamento territorial brasileiro como instrumento de democracia e sustentabilidade, articulando políticas públicas integradas para enfrentar desigualdades históricas e os desafios do século XXI

 

Por Jaqueline Maria

O estudo Espaço, território, ambiente e população: estratégias para o desenvolvimento (regional) sustentável, de Antonio Carlos F. Galvão, publicado pela Fiocruz dentro do projeto Saúde Amanhã, convida o país a revisitar suas bases de desenvolvimento e pensar o futuro com outro olhar: o do território. Mais que um trabalho técnico, o texto é um chamado à reconstrução do planejamento público brasileiro.

O autor parte de uma análise histórica da trajetória econômica e territorial do Brasil ao longo do século XX. Entre 1939 e 1980, o país viveu um ciclo de crescimento extraordinário, com o PIB avançando 7,5% ao ano e a renda per capita triplicando. Mas o mesmo processo que ampliou o parque industrial e consolidou a urbanização também aprofundou desigualdades sociais e regionais. A economia brasileira, capaz de incorporar tecnologias e adaptar modelos produtivos, mostrou-se incapaz de gerar inovações próprias. Quando o impulso desenvolvimentista cedeu espaço à financeirização e à desindustrialização, o país se tornou dependente de exportações primárias e de ganhos especulativos, enfraquecendo sua base produtiva e sua coesão territorial.

Galvão mostra como as transformações pós-1980 — da abertura econômica às políticas neoliberais — resultaram num crescimento desigual e fragmentado, com ilhas de dinamismo convivendo com vastas áreas estagnadas. A concentração histórica em torno de São Paulo e do Sudeste cedeu, parcialmente, à expansão das fronteiras agrícolas e minerais no Centro-Oeste e no Norte, mas sem promover uma integração territorial estruturante. O país que avançou sobre o Cerrado e a Floresta Amazônica manteve os mesmos padrões de exclusão social que marcaram o século XX.

No plano social, o estudo destaca que as políticas implementadas após a Constituição de 1988 — como o Bolsa Família, o SUS e a valorização do salário mínimo — representaram um avanço civilizatório, mas não resolveram o núcleo da desigualdade brasileira. A pobreza voltou a crescer nos anos 2010 e 2020, atingindo mais de um quarto da população em 2023. As disparidades educacionais e raciais persistem: pessoas pretas e pardas têm, em média, quase dois anos a menos de escolaridade que as brancas; e as regiões Norte e Nordeste seguem com indicadores de renda e qualidade de vida inferiores à média nacional.

O retrato ambiental traçado por Galvão é igualmente contundente. Embora o desmatamento da Amazônia tenha diminuído desde os anos 1990, a devastação voltou a crescer a partir de 2012, impactando também o Cerrado. As queimadas, a perda de biodiversidade e a emissão de gases de efeito estufa colocam o país em alerta. Mesmo com avanços no uso de fontes renováveis — como derivados da cana-de-açúcar e energia hidráulica —, a dependência de combustíveis fósseis e o avanço da agropecuária sobre biomas estratégicos revelam um modelo produtivo ainda incompatível com a transição ecológica global.

 

Do diagnóstico à proposta: planejar o território, democratizar o futuro

É a partir desse diagnóstico que o estudo propõe um reposicionamento do planejamento no centro da ação pública. Para Galvão, o Brasil precisa reconstruir sua capacidade de planejar o território como instrumento de democracia, equidade e sustentabilidade. Isso significa articular políticas de saúde, educação, inovação e meio ambiente em torno de estratégias territoriais integradas, capazes de responder à diversidade social e geográfica do país.

O autor enfatiza que o futuro do desenvolvimento brasileiro não pode se limitar à lógica de mercado ou à retórica da eficiência fiscal. Ele depende de uma visão que una ciência, tecnologia e políticas públicas a um projeto nacional. 

Ao mesmo tempo, o estudo incorpora uma dimensão prospectiva, dialogando com relatórios internacionais que analisam as tendências globais até meados do século XXI. A convergência tecnológica — inteligência artificial, biotecnologia, automação e novos materiais — está redefinindo o mundo do trabalho e da produção. Essa transição, porém, não é neutra: pode ampliar desigualdades, concentrar poder e gerar novas formas de exclusão se não for acompanhada por políticas públicas de inclusão e regulação.

Galvão alerta que o Brasil precisa se preparar para esse novo paradigma, fortalecendo suas instituições científicas, valorizando o conhecimento local e promovendo inovação orientada ao interesse público. O território, nessa perspectiva, é a arena onde se expressam os desafios e as oportunidades do século XXI. Reorganizar a ação do Estado sobre ele — com participação social e visão de longo prazo — é o passo essencial para construir uma sociedade mais justa, integrada e sustentável.

Mais do que uma proposta técnica, o estudo da Fiocruz é um gesto político: reafirma o papel do planejamento como pilar da democracia e da soberania. Em um país marcado por desigualdades históricas e por uma economia cada vez mais fragmentada, pensar o futuro exige retomar a capacidade de planejar — com base em evidências, solidariedade territorial e compromisso público. Planejar o território, como conclui Galvão, é cuidar da vida. 


Fonte:
GALVÃO, Antonio Carlos F. Espaço, território, ambiente e população: estratégias para o desenvolvimento (regional) sustentável (Projeto Saúde no Brasil em 2050). Rio de Janeiro: Fiocruz, Saúde Amanhã, 2025. Disponível em: https://saudeamanha.fiocruz.br/textos-discussao/espaco-territorio-ambiente-e-populacao-estrategias-para-o-desenvolvimento-regional-sustentavel/

 

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Jaqueline Maria
é jornalista e gestora pública, com dez anos de experiência em assessoria de comunicação governamental.
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