7 de março de 2026
Sociedade

Mudanças climáticas ampliam os desafios para uma estratégia de desenvolvimento sustentável no Brasil

Com base na Iniciativa Brasil Saúde Amanhã, especialistas alertam que sem um planejamento sustentável adequado o país pode ampliar desigualdades históricas e comprometer gravemente o futuro das nossas próximas gerações

 

Por Jaqueline Maria

As mudanças climáticas já não são mais uma previsão distante, mas uma realidade que se manifesta de forma intensa no cotidiano dos brasileiros. O estudo “Mudanças Climáticas e os Desafios para uma Estratégia de Desenvolvimento Sustentável no Brasil” (TD 95), elaborado por Marcelo Medeiros, Carlos Ocké-Reis, Luciana Servo e Lígia Bahia, no âmbito da Iniciativa Brasil Saúde Amanhã (Fiocruz), mostra que o país está entre os mais vulneráveis aos impactos de eventos extremos, como enchentes, secas prolongadas, ondas de calor e perda acelerada da biodiversidade. Esses fenômenos afetam diretamente a saúde da população, a produção de alimentos, a segurança hídrica e energética, além da própria sustentabilidade do desenvolvimento econômico.

A vulnerabilidade brasileira se explica não apenas pela dimensão de seus recursos naturais, mas também pelas desigualdades sociais que expõem milhões de pessoas a riscos maiores. Comunidades indígenas, ribeirinhas, quilombolas, populações periféricas e trabalhadores rurais estão entre os grupos mais atingidos, o que transforma a crise climática também em uma questão de justiça social. Para esses segmentos, desastres ambientais não significam apenas perdas materiais, mas ameaçam a sobrevivência, a saúde e o acesso a direitos básicos.

A agricultura, um dos pilares da economia brasileira, já sente os efeitos da instabilidade climática. Secas mais prolongadas e mudanças no regime de chuvas reduzem a produtividade, elevam os custos de produção e provocam instabilidade nos preços dos alimentos. Além de comprometer o abastecimento interno, esse quadro ameaça a competitividade do Brasil no mercado internacional. A situação é semelhante no setor energético, ainda fortemente dependente da matriz hidrelétrica. A queda do nível dos reservatórios em períodos de estiagem compromete a geração de energia e aumenta a necessidade de recorrer a fontes mais caras e poluentes, como as termelétricas, pressionando as contas públicas e colocando em risco a segurança energética.

Nas áreas urbanas, a combinação de crescimento desordenado e eventos climáticos extremos tem consequências cada vez mais graves. Chuvas intensas resultam em enchentes e deslizamentos, provocando mortes, desabrigados e prejuízos materiais. Essas tragédias expõem de forma clara a desigualdade urbana: enquanto bairros com maior infraestrutura conseguem se proteger, periferias e ocupações irregulares concentram os impactos, reforçando um ciclo de vulnerabilidade e exclusão.

O estudo também alerta para os riscos à biodiversidade, patrimônio estratégico para o equilíbrio ambiental e para a própria economia. O desmatamento e a degradação dos biomas reduzem a capacidade de absorção de carbono e comprometem a regulação do clima, agravando os efeitos das mudanças globais. Essa perda afeta ainda comunidades que dependem diretamente da floresta e dos recursos naturais para sua subsistência, como povos indígenas e ribeirinhos.

Outro impacto destacado é o da saúde pública. A elevação das temperaturas médias e as alterações no regime de chuvas favorecem a proliferação de vetores de doenças como dengue, zika e chikungunya. Além disso, ondas de calor e aumento da poluição intensificam problemas respiratórios e cardiovasculares, ampliando a pressão sobre o Sistema Único de Saúde (SUS), que já lida com a crescente demanda provocada pelo envelhecimento populacional e pela alta prevalência de doenças crônicas.

Para os pesquisadores, a resposta a esse cenário não pode se limitar a medidas pontuais. O Brasil precisa adotar uma estratégia integrada de desenvolvimento sustentável que una crescimento econômico, proteção ambiental e redução das desigualdades. Isso significa avançar na transição para uma economia de baixo carbono, diversificar a matriz energética, investir em ciência, tecnologia e inovação e fortalecer políticas de adaptação que aumentem a resiliência das cidades e da infraestrutura nacional. Ao mesmo tempo, a preservação e a recuperação de biomas como Amazônia, Cerrado e Pantanal são vistas como condições indispensáveis para frear o agravamento da crise climática.

O estudo enfatiza que o Brasil tem potencial para assumir papel de liderança no cenário internacional da agenda climática. A abundância de recursos naturais, a matriz energética com forte presença de renováveis e a possibilidade de desenvolver agricultura de baixo carbono colocam o país em posição estratégica. No entanto, esse protagonismo depende de superar contradições internas, como o avanço do desmatamento ilegal, a fragilidade na fiscalização ambiental e a dificuldade de implementar políticas de longo prazo.

Sem uma ação coordenada, o país corre o risco de ampliar desigualdades históricas e comprometer sua capacidade de crescer de forma sustentável. Como alerta o relatório, as mudanças climáticas não são apenas uma questão ambiental, mas também econômica, social e política. As escolhas feitas hoje determinarão se o Brasil seguirá em um ciclo de crises recorrentes ou se conseguirá construir um modelo de desenvolvimento capaz de proteger a população, preservar seus recursos e garantir prosperidade para as próximas gerações.

O texto completo do estudo pode ser acessado em: saudeamanha.fiocruz.br/textos-discussao/td-95-mudancas-climaticas-e-os-desafios-para-uma-estrategia-de-desenvolvimento-sustentavel-no-brasil

 

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Jaqueline Maria é jornalista e gestora pública com 10 anos de experiência em assessoria de comunicação governamental.
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