7 de março de 2026
Sociedade

Indústria 4.0 exige novas competências e uma nova forma de ensinar

A transformação digital dos sistemas produtivos demanda habilidades técnicas, interpessoais e cognitivas integradas, mas pesquisadores do IFAC desenvolveram modelo educacional que comprova ser possível qualificar trabalhadores mesmo enfrentando limitações estruturais


Por Rodrigo Duarte Soliani, Dion Alves de Oliveira, Jonas da Conceição Nascimento Pontes e Thais Diniz Reis Drumond

 

Indústria 4.0 representa uma transformação profunda dos sistemas produtivos, marcada pela convergência entre tecnologias digitais e processos industriais. Recursos como Internet das Coisas (IoT), inteligência artificial (IA), Big Data e automação inteligente estão sendo incorporados de forma crescente às operações, promovendo ganhos de eficiência, flexibilidade e conectividade. No entanto, essa transformação também redefine as exigências em relação à qualificação profissional. Dominar ferramentas técnicas já não basta; espera-se que os trabalhadores liderem equipes, tomem decisões baseadas em dados, resolvam problemas complexos, comuniquem-se com clareza e adaptem-se a ambientes dinâmicos e interdisciplinares.

Nesse contexto, torna-se cada vez mais necessário desenvolver programas formativos que acompanhem a velocidade das mudanças tecnológicas e preparem profissionais com um conjunto mais amplo e integrado de competências. Segundo o Fórum Econômico Mundial, cerca de 44% das habilidades exigidas no mercado serão modificadas até 2027, e aproximadamente metade da força de trabalho global precisará ser requalificada. No Brasil, esse desafio é ampliado por desigualdades regionais, baixa conectividade em determinadas áreas e pela ausência de políticas educacionais alinhadas às demandas da economia digital. Combinadas, essas limitações dificultam a implementação de estratégias formativas em larga escala e aprofundam o distanciamento entre os avanços tecnológicos e a realidade educacional de grande parte da população. Esse cenário reforça a necessidade de reestruturar os sistemas de qualificação profissional para reduzir o hiato entre inovação e capacitação.

Com o objetivo de enfrentar esse desafio, pesquisadores do Instituto Federal do Acre (IFAC) desenvolveram um modelo educacional baseado em competências voltado à qualificação profissional para a Indústria 4.0. A proposta foi aplicada no programa Mão na Massa na Indústria 4.0, realizado em Rio Branco (AC), com resultados expressivos. Trata-se de uma iniciativa pública que oferece evidências de que é possível promover inclusão produtiva mesmo em contextos com restrições estruturais significativas.

 

Um modelo estruturado por competências

Para atender às demandas da Indústria 4.0, o modelo adotado pelo IFAC segue uma abordagem centrada no desenvolvimento integrado de competências. A formação não se limita ao domínio técnico, mas busca preparar os participantes para atuar em ambientes produtivos digitalizados, que exigem também habilidades interpessoais e cognitivas. Com base em uma revisão sistemática da literatura e na análise das necessidades do setor, foram definidos três grupos principais de competências, conforme a tabela a seguir:

Essas competências foram desenvolvidas por meio de metodologias ativas, como projetos práticos, estudos de caso, design thinking e acompanhamento contínuo, integradas a uma formação estruturada em dois módulos complementares. O primeiro módulo tratou de fundamentos de gestão e cadeia produtiva na Indústria 4.0, com foco na utilização de sistemas como ERP e MES. O segundo abordou aplicações tecnológicas avançadas, incluindo sensores inteligentes, impressão 3D, machine learning e robótica colaborativa.

Ao final da formação, os participantes apresentaram soluções tecnológicas na Feira de Inovação, evento que teve como objetivo consolidar o conhecimento aplicado e fortalecer a conexão com o ecossistema produtivo local. Essa etapa prática reforça o vínculo entre o conteúdo da formação e as demandas reais do mercado regional.

 

Indicadores de impacto

A aplicação do modelo no programa Mão na Massa na Indústria 4.0 resultou em ganhos perceptíveis na formação dos participantes. Entre os 75 envolvidos, os dados indicam avanços consistentes em diferentes dimensões de competência. Cerca de 77% relataram maior confiança no uso de tecnologias digitais, enquanto 76% apontaram progresso em temas como cibersegurança e gestão de riscos. Melhorias em habilidades interpessoais foram mencionadas por 95% dos participantes, e 80% relataram evolução no pensamento crítico e na capacidade de resolver problemas. Por fim, 66% afirmaram ter ampliado suas oportunidades profissionais após o curso.

Os resultados mostram que, mesmo em um cenário de restrições, é possível alcançar impactos concretos na qualificação profissional quando há um alinhamento claro entre currículo, tecnologia e contexto produtivo. O modelo também demonstrou adaptabilidade a diferentes setores, como indústria, agronegócio, varejo e saúde, e sua estrutura modular favorece a implementação em contextos diversos, inclusive em regiões com infraestrutura tecnológica limitada.

 

Educação como vetor de inclusão produtiva

A experiência do IFAC mostra que é possível qualificar trabalhadores para a nova economia digital por meio de uma abordagem integrada, prática e orientada por competências. O modelo alia flexibilidade pedagógica ao alinhamento com as demandas reais do mercado, configurando-se como uma alternativa aplicável em políticas públicas de requalificação e inclusão produtiva. Iniciativas como essa devem servir de referência para políticas educacionais que pretendam aproximar a formação técnica da realidade digital do século XXI.

Para quem deseja conhecer em profundidade sua estrutura e os resultados obtidos, o artigo completo está disponível na revista Gestão & Produção, sob o título “Professional Training in Industry 4.0: A Competency-Based Educational Model”.


Acesse o artigo completo:

SOLIANI, R. D.; OLIVEIRA, D. A.; PONTES, J. C. N.; DRUMOND, T. D. R. Professional training in Industry 4.0: a competency-based educational model. Gestão & Produção, 32(e2225), 2025. https://doi.org/10.1590/1806-9649-2025v32e2225

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Rodrigo Duarte Soliani é doutor em Tecnologia Ambiental, mestre em Administração e professor de Engenharia de Produção no Instituto Federal do Acre (IFAC).

Dion Alves de Oliveira é mestre em Administração, especialista em Governança Pública e Gestão Administrativa, e professor de Administração no Instituto Federal do Acre (IFAC).

Jonas da Conceição Nascimento Pontes é doutorando em Informática pelo Instituto de Computação da Universidade Federal do Amazonas, mestre em Ciência da Computação e professor de Informática no Instituto Federal do Acre (IFAC).

Thais Diniz Reis Drumond é doutoranda em Biodiversidade e Biotecnologia pela Rede BIONORTE, mestra em Administração e professora de Administração no Instituto Federal do Acre (IFAC).
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