12 de março de 2026
Entrevistas

Entrevista: Simone Tebet, ministra do Planejamento e Orçamento

Ministra do Planejamento e Orçamento defende planejamento estratégico de longo prazo para enfrentar instabilidades globais, orientar investimentos públicos, reduzir desigualdades e garantir previsibilidade ao desenvolvimento brasileiro além dos ciclos eleitorais

 

Em um cenário internacional cada vez mais marcado por tensões geopolíticas, transformações tecnológicas aceleradas e desafios climáticos globais, cresce a necessidade de que os países fortaleçam sua capacidade de planejamento estratégico. Para a ministra do Planejamento e Orçamento, Simone Tebet, o Brasil precisa responder a esse contexto com uma visão clara de longo prazo, capaz de orientar políticas públicas, investimentos e prioridades nacionais para além dos ciclos de governo.

Nesta entrevista, a ministra apresenta os principais fundamentos da Estratégia Brasil 2050, publicação que será divulgada em breve. A iniciativa busca estruturar um horizonte de desenvolvimento para o país nas próximas décadas. Ao longo da conversa, Simone Tebet detalha como o planejamento estratégico pode ajudar a enfrentar desafios estruturais da economia brasileira, reduzir desigualdades e criar um ambiente mais previsível para o setor produtivo e para a sociedade.

 

Contexto Brasil: Em um ambiente internacional marcado por instabilidade geopolítica e competição tecnológica, qual a importância de se planejar a longo prazo para o país?

Ministra Simone Tebet: Planejar o longo prazo é ainda mais essencial em um mundo marcado por instabilidade geopolítica, competição tecnológica e pressões climáticas crescentes. Sem um horizonte estratégico comum, o país corre o risco de reagir aos acontecimentos de forma fragmentada, quando o que precisamos é antecipar tendências, reduzir vulnerabilidades e orientar, com soberania, nosso próprio destino. A Estratégia Brasil 2050 organiza essa capacidade de antecipação ao colocar a Visão de Futuro como elemento central: um norte claro, capaz de dar coerência às decisões presentes e estabilidade às prioridades do Estado brasileiro.

Para os próximos 25 anos, nossa Visão de Futuro é: “uma nação desenvolvida e inovadora, que cresce com justiça social e ambiental, assegura oportunidades para todas as pessoas e lidera a oferta de soluções globais para um mundo mais sustentável e inclusivo”. Essa Visão se desdobra em valores, diretrizes, eixos, objetivos nacionais de longo prazo, indicadores e metas, orientando políticas públicas diante das grandes transformações que vão moldar o século XXI: emergência climática, revolução tecnológica, reorganização das cadeias produtivas e transição demográfica.

E há um ponto decisivo: ao institucionalizar processos de planejamento, governança (em diversos níveis) e integração federativa, a EB2050 enfrenta um problema histórico brasileiro: a descontinuidade do planejamento. Em síntese, planejar o longo prazo é garantir propósito, coerência e capacidade soberana de agir em um cenário global cada vez mais incerto.


Contexto Brasil: Como a Estratégia Brasil 2050 será monitorada e revisada para incorporar mudanças políticas, econômicas e sociais, respeitando as escolhas democráticas da população a cada quatro anos?

Ministra Simone Tebet: A Estratégia Brasil 2050 foi concebida para atravessar ciclos políticos e, ao mesmo tempo, se adaptar às mudanças econômicas, sociais e tecnológicas das próximas décadas. Sua governança foi desenhada para combinar continuidade institucional com abertura às escolhas democráticas.

No centro dessa governança está o Observatório Brasil 2050, uma estrutura de Estado, já prevista na Lei do Plano Plurianual (PPA) e que será regulamentada a partir da institucionalização da Estratégia Brasil 2050. O Observatório consolidará dados, indicadores e evidências para acompanhar, de forma contínua, o avanço do país rumo à Visão de Futuro, integrando informações do PPA, de planos setoriais e de bases federativas.

O desenho prevê monitoramento e avaliação, de modo que a Estratégia seja acompanhada com regularidade independentemente de mudanças de governo. Também estão previstas revisões periódicas, para incorporar prioridades legitimadas nas urnas e manter a atualidade do planejamento em face das mudanças da realidade. Isso garante que o planejamento de longo prazo seja estável, mas não rígido: ele se atualiza com o país, sem perder coerência com a trajetória estratégica que foi definida coletivamente.

Assim, o monitoramento, avaliação e revisões periódicas equilibram continuidade e adaptabilidade: protegem a trajetória de longo prazo e, ao mesmo tempo, institucionalizam a incorporação das escolhas democráticas da sociedade.

 

 

Contexto Brasil: A Estratégia projeta a duplicação do PIB per capita até 2050. Que transformações estruturais isso exige da economia brasileira?

Ministra Simone Tebet: A duplicação do PIB per capita até 2050 não é apenas crescer mais: é crescer melhor, com produtividade, inovação, sustentabilidade e inclusão. Essa ambição se traduz nos objetivos nacionais de longo prazo, orientações estratégicas e um conjunto de indicadores e metas que indicam caminhos para que essa transformação aconteça.

Do ponto de vista econômico, a Estratégia prevê uma trajetória de crescimento sustentada por ganhos de produtividade e por políticas públicas como expansão da educação profissional e superior, fortalecimento de competências STEM (ciência, tecnologia, engenharia e matemática), digitalização, inclusão produtiva e requalificação da força de trabalho. Esse caminho se desdobra em metas para outros grandes desafios – como elevar o dispêndio nacional em pesquisa e inovação (P&D) para 3% do PIB até 2050 e ampliar a participação da indústria de transformação no PIB – em conexão direta com agendas em curso, como a Nova Indústria Brasil, as estratégias de inovação e o Plano Nacional de Educação. Nesse conjunto, entram também componentes estruturantes como o aumento da taxa de investimento ao longo do período e o aperfeiçoamento da justiça tributária, que fortalecem o ambiente econômico e ampliam a capacidade de financiamento do desenvolvimento.

A transformação produtiva também depende de infraestrutura integrada e descarbonizada, articulada por um conjunto de planos e programas existentes ou em elaboração/atualização: Plano Nacional de Logística 2050, Plano Nacional de Energia 2050, Plano Clima, Política Nacional de Transição Energética, Plano Nacional de Segurança Hídrica e expansão da conectividade digital. A Estratégia Brasil 2050 não substitui essas agendas: ela as organiza e as sincroniza em torno de diretrizes, objetivos, metas e indicadores-chave nacionais, garantindo sua convergência por meio de uma governança multinível e federativa, algo que antes inexistia de forma estruturada.

Do ponto de vista social e distributivo, o crescimento sustentado deve estar acompanhado da redução das desigualdades. Nesse contexto, a Estratégia estabelece metas como a redução da pobreza para 2% e a diminuição do índice de Gini para 0,417. Essas metas integram um conjunto de 41 indicadores, articulados a 92 orientações estratégicas, além de planos e políticas já existentes em áreas como proteção social, educação básica, saúde, cuidados e segurança pública.

Por fim, a Estratégia define mecanismos de gestão: integração com PPAs sucessivos, revisões, acompanhamento via Observatório, articulação federativa e participação social institucionalizada. Esses instrumentos tornam a trajetória factível, garantindo continuidade, alinhamento orçamentário e capacidade de correção de rumos, sempre ancorados na Visão de Futuro definida coletivamente.

Ou seja: duplicar o PIB per capita não é uma promessa vazia. É um objetivo desafiador, mas estruturado com metas, governança e instrumentos concretos para orientar e mobilizar a ação do Estado e da sociedade nas próximas décadas. E, embora não seja um objetivo fácil, é factível!

 

Contexto Brasil: De que forma o setor produtivo pode utilizar esse referencial de longo prazo para orientar seus investimentos?

Ministra Simone Tebet: A Estratégia Brasil 2050 oferece ao setor produtivo um horizonte estável e compartilhado, um referencial de longo prazo que não depende de ciclos de governo. Não se trata de um plano restrito à esfera federal nem de um plano de governo, mas de um plano de nação. Ao organizar objetivos, metas e orientações estratégicas com horizonte de 25 anos, a Estratégia dá previsibilidade às transformações estruturais que o país precisa realizar — desde a transição energética até a qualificação da força de trabalho, a ampliação da taxa de investimento e o fortalecimento da justiça tributária.

Para empresas e investidores, isso significa clareza sobre a direção estratégica e prioridades na agenda nacional: inovação, bioeconomia, infraestrutura integrada, produção de baixo carbono, economia digital, reindustrialização em novas bases e serviços intensivos em conhecimento. Como essas prioridades estão articuladas ao Plano Plurianual (PPA) – o planejamento público de médio prazo –, a planos setoriais e a mecanismos de monitoramento e revisão, o setor produtivo passa a operar com menos incerteza estrutural e maior estabilidade regulatória e institucional – elementos essenciais para decisões de investimento de longo prazo.

Além disso, metas estruturantes, como a de duplicar o PIB per capita até 2050, só serão alcançáveis se houver cooperação real entre União, estados, municípios, setor privado e sociedade civil. A Estratégia explicita esse arranjo: investir, inovar, formar pessoas, regular com previsibilidade, tributar com justiça e coordenar políticas públicas em todos os níveis da Federação. O setor produtivo é parte essencial desse esforço, tanto na expansão da capacidade produtiva quanto na difusão tecnológica e na geração de empregos qualificados.

Em síntese, a EB2050 permite que o setor produtivo planeje melhor porque estabelece um horizonte estável, compartilhado e nacional. Ela cria um campo comum de expectativas que reduz riscos, orienta escolhas de investimento e alinha o esforço público e privado em direção à Visão de Futuro definida coletivamente.

 

Contexto Brasil: Em uma frase, o que está em jogo com a Estratégia Brasil 2050?

Ministra Simone Tebet: O que está em jogo é o futuro do Brasil e a nossa capacidade de sustentar, de forma coletiva e contínua, um rumo de desenvolvimento que combine prosperidade, inclusão, justiça social e sustentabilidade, com resultados concretos para a vida das pessoas.


 

Fotos: Washington Costa/MPO (topo da matéria) e Diogo Zacarias (acima)

 

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