Diante de pressões geopolíticas e oportunidades estruturais, o Brasil precisa renovar a sua política comercial, equilibrando soberania, inovação e sustentabilidade para conquistar seu protagonismo no novo cenário do comércio internacional
O comércio exterior brasileiro encontra-se diante de uma encruzilhada histórica. De um lado, emergem tendências estruturais que abrem novas oportunidades de inserção qualificada nas cadeias globais de valor, impulsionadas pela digitalização, pela transição para uma economia verde e pela intensificação das trocas internacionais de serviços e dados. De outro, acentuam-se incertezas geoeconômicas que desafiam até mesmo aspectos da soberania nacional, a exemplo do anúncio de 09 de julho de 2025 do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sobre a intenção de aplicar uma tarifa de 50% à importação de produtos brasileiros.
Essa medida extrapola os limites do protecionismo tradicional e configura uma tentativa direta de coerção política. Para além das tarifas, no dia 16 de julho, o Escritório do Representante de Comércio dos EUA, também a pedido de Trump, iniciou uma investigação sobre o Brasil por supostas práticas comerciais desleais, incluindo comércio digital e sistema de pagamento eletrônico, tarifas preferenciais e injustas, medidas anticorrupção, proteção da propriedade intelectual, tarifas ao etanol, e desmatamento ilegal.
A ofensiva norte-americana deve ser compreendida em seu devido contexto. Trata-se de um gesto que se insere no quadro de disputas geopolíticas intensificadas pela rivalidade sino-americana, pelo enfraquecimento do multilateralismo comercial e pelo recrudescimento de posturas nacionalistas nas grandes potências. Mais do que uma barreira comercial, a medida visa subordinar decisões internas e a estratégia externa brasileira (que inclui as articulações no âmbito do BRICs+) aos interesses do governo dos EUA, afrontando a autodeterminação do país e seu direito legítimo de buscar uma política de inserção internacional autônoma, diversificada e compatível com seus próprios objetivos de desenvolvimento.
Tais ações passam por reprovação até mesmo por jornais e especialistas nos Estados Unidos, afinal, a balança comercial do comércio bilateral entre EUA e Brasil é superavitária para os estadunidenses desde 2009, especialmente quando se consideram os serviços transacionados. Contudo, os Estados Unidos são um importante destino de exportações brasileiras de produtos industrializados, o que demanda maiores cuidados na gestão desta relação bicentenária entre ambas as nações.
Embora preocupantes, essas medidas não chegam a ser isoladas. Elas se somam a outras manifestações protecionistas promovidas por países desenvolvidos desde a crise de 2008 e, com mais intensidade, após a pandemia de covid-19. O que se observa é a consolidação de um cenário internacional onde o discurso de livre comércio convive, paradoxalmente, com práticas unilaterais que visam preservar muitas vezes a primazia das economias centrais e de seus próprios desafios internos. Nesse contexto, o Brasil precisa agir com inteligência, articulando uma resposta política à altura do desafio.
Mas os desafios não se restringem à geopolítica. O Brasil enfrenta fragilidades estruturais em sua inserção externa. A dependência excessiva da exportação de commodities — como soja, minério de ferro e petróleo — mantém o país vulnerável à volatilidade de preços e à chamada “doença holandesa”, que pode comprometer o dinamismo de setores industriais de maior valor agregado. Embora o desempenho dessas exportações seja robusto, especialmente devido à demanda de economias emergentes como a China, a ausência de uma estratégia nacional clara para agregar valor às cadeias produtivas limita o potencial de geração de renda e emprego qualificado no território nacional.
Ao mesmo tempo, há importantes janelas de oportunidade. A crescente digitalização das cadeias de valor, impulsionada por tecnologias como inteligência artificial, blockchain e Internet das Coisas, pode permitir ao Brasil superar obstáculos logísticos e ganhar competitividade internacional — desde que se realize uma reforma profunda em infraestrutura física e digital, além de massivos investimentos em qualificação da força de trabalho. A Indústria 4.0, por exemplo, é tanto uma ameaça quanto uma oportunidade: se negligenciada, poderá ampliar o hiato tecnológico entre o Brasil e os países líderes; mas, se incorporada com planejamento, pode posicionar o país em novos nichos globais.
Outro vetor de transformação é a ascensão do desenvolvimento sustentável e de energias alternativas. Com vastos recursos naturais e biodiversidade, o Brasil tem condições de assumir papel de destaque no fornecimento de bens e serviços sustentáveis, desde que se comprometa com metas ambientais sérias e combata o desmatamento ilegal. A pressão internacional por produtos de baixo impacto ambiental será crescente, especialmente por parte dos europeus, e o país precisa converter esse desafio em diferencial competitivo. Práticas agrícolas sustentáveis, bioeconomia, certificações ambientais e energia limpa podem se tornar elementos centrais de uma nova pauta exportadora.
Não menos relevante é o crescimento das trocas de serviços e dados no comércio global. O Brasil, que ainda apresenta desempenho modesto nesse campo, tem margem para crescer em setores como software, telemedicina, educação digital, design e conteúdos criativos. A revolução demográfica global — marcada pelo envelhecimento populacional — também aponta para uma expansão da demanda por produtos e serviços ligados à saúde, bem-estar e tecnologias assistivas. Setores como o farmacêutico, o de alimentos funcionais e o de equipamentos médicos oferecem espaço para inovação e agregação de valor, especialmente se articulados a políticas industriais e de ciência e tecnologia.
Frente a esse conjunto de tendências e desafios, a política comercial brasileira precisa ser mais do que reativa. Deve estar articulada a um projeto de desenvolvimento nacional que reconheça a centralidade da soberania e da justiça social, recusando soluções que subordinem o país aos interesses de potências estrangeiras ou de elites econômicas desconectadas do interesse público, ao mesmo tempo em que se defenda a integração entre os povos. As recentes medidas anunciadas pelos EUA exigem, por isso, uma resposta coordenada entre governo, diplomacia e setor produtivo, combinando firmeza institucional, diversificação de parceiros comerciais e reforço de alianças estratégicas.
Além disso, o Brasil deve investir na revitalização do multilateralismo comercial, participando ativamente da reforma da Organização Mundial do Comércio e promovendo uma governança internacional mais equitativa. A fragmentação do sistema de comércio global, caso se consolide, penalizará sobretudo os países em desenvolvimento que não conseguirem se inserir nos grandes blocos regionais. É, portanto, urgente fortalecer o Mercosul e ampliar a integração produtiva sul-americana, transformando a região em plataforma de competitividade e inovação. A própria aplicação da Lei de Reciprocidade Econômica aprovada em 2025, que visa suspender a aplicação do princípio da “nação mais favorecida”, precisa ser regulamentada em diálogo com os países vizinhos, sobretudo em virtude da tarifa externa comum no Mercosul, mesmo diante das dificuldades que as diferenças políticas impõem.
Por fim, o país precisa atualizar sua estratégia comercial com base em três princípios: diversificação, agregação de valor e sustentabilidade. A diversificação se refere tanto aos produtos quanto aos destinos das exportações, evitando dependências concentradas; a agregação de valor implica o fortalecimento de cadeias industriais e tecnológicas; e a sustentabilidade deve orientar todas as etapas da produção, do campo à indústria. Somente assim será possível consolidar uma inserção internacional que seja voltada ao bem-estar da sociedade brasileira.
A tentativa de intimidação vinda de Washington reforça a urgência de o Brasil assumir com coragem a condução do seu próprio destino, articulando uma política externa capaz de reduzir danos e ampliar sua margem de manobra frente aos desafios internacionais. A história mostra que momentos de tensão também são férteis para avanços estruturais. Com visão estratégica, coordenação entre Estado e setor privado e investimento em inovação, o Brasil pode transformar a adversidade em impulso e afirmar-se, nas próximas décadas, com maior protagonismo no novo comércio internacional. O que está em jogo não é apenas a balança comercial, mas o futuro do país no concerto das nações.
====================
Jean Lima | Doutor em Relações Internacionais pela UnB; Professor universitário no Instituto Brasileiro de Ensino, Desenvolvimento e Pesquisa (IDP) e na Universidade Católica de Brasília (UCB)
====================
📲 Participe do nosso grupo de avisos no WhatsApp e receba notificações de todas as nossas publicações. Clique AQUI e acesse.
Comente essa matéria no instagram do Contexto Brasil!

