7 de março de 2026
Soberania

Brasil-China: dependência, soberania e os desafios de um desenvolvimento inclusivo

O Brasil está repetindo erros históricos ao exportar apenas commodities para a China e importar tecnologia avançada, ou pode transformar essa parceria estratégica em verdadeira alavanca de desenvolvimento nacional soberano?

 

Por Sérgio Braga e Angelita Matos Souza

 

As relações entre Brasil e China vêm ganhando centralidade no debate sobre o futuro do desenvolvimento nacional. Neste debate, estão em jogo modelos de inserção internacional, a capacidade do Estado brasileiro de orientar políticas de longo prazo e o espaço para uma trajetória soberana em um mundo marcado por desigualdades estruturais. A partir da lente da teoria da dependência, elaborada pelos sociólogos Fernando Henrique Cardoso e Enzo Faletto, em fins da década de 1960, é possível tentar avançar tanto na compreensão das oportunidades quanto dos riscos da parceria Brasil-China, visando a inserção soberana do Brasil no atual contexto geopolítico mundial.¹

A partir da virada dos anos 2000, a China consolidou-se como o principal destino das exportações brasileiras. Sabe-se que bens primários de pouco valor agregado tais como soja, minério de ferro e petróleo ainda dominam a pauta, confirmando a especialização da economia brasileira em produtos primários. Em contrapartida, o país importa manufaturas de alta intensidade tecnológica, o que se traduz em um padrão assimétrico de trocas. O quadro remete à clássica crítica dependentista: ao exportar bens de baixo valor agregado e importar produtos sofisticados, um país reforça sua vulnerabilidade externa e limita a sua capacidade de sustentar um ciclo mais autônomo de desenvolvimento. Entretanto, isso não significa que, necessariamente, a partir dessa relação assimétrica, não se abram janelas de oportunidade para o desenvolvimento sustentável brasileiro ou mesmo que isso implique em uma subordinação da economia nacional à dinâmica da economia chinesa, apenas pelo fato desta ser a principal parceira comercial do Brasil no momento.

Isso porque esse padrão não é fruto apenas da relação com a China, de fato, reflete escolhas históricas, ausência de uma política industrial consistente e a erosão da capacidade de planejamento estatal frente às pressões da globalização financeira. A dependência, aqui, não deve ser entendida como destino inevitável, nem como efeito automático de associações econômicas, e sim como produto de estruturas sociais e decisões políticas que podem — e devem — ser transformadas por meio da criação de capacidades estatais e empresariais compatíveis com o dinamismo de uma economia global cada vez mais digitalizada.

A presença chinesa, por sua vez, não se restringe ao comércio. Empresas e bancos do país asiático investem em setores estratégicos da economia brasileira: energia elétrica, infraestrutura, telecomunicações e, mais recentemente, tecnologia verde. Esses investimentos trazem capital e dinamismo, melhoram marginalmente a qualidade do capital humano, mas também levantam questões cruciais: estaria o Brasil apenas abrindo seu mercado a novos atores externos, reproduzindo velhas formas de dependência, e até que ponto é capaz de negociar transferências tecnológicas, parcerias produtivas e ganhos de autonomia, em prol da sua soberania?

Nesse contexto, é preciso fugir de duas visões simplificadoras. De um lado, o entusiasmo acrítico que enxerga na China a solução automática para todos os impasses enfrentados pelo Brasil visando ao desenvolvimento. De outro, a desconfiança geopolítica baseada em preconceitos ideológicos que reduz a relação a uma nova forma de imperialismo de cunho “comunista”. A teoria da dependência ensina que as relações internacionais são atravessadas por assimetrias, mas também por margens de manobra que podem ser ampliadas por meio de ação estatal coordenada e de estratégias nacionais claras, dentre as quais o fortalecimento das capacidades estatais de planejamento e de setores empresariais autóctones tem papel decisivo.

A questão central, portanto, não é escolher entre China ou Estados Unidos, mas construir uma inserção internacional que fortaleça a soberania e o desenvolvimento inclusivo e sustentável do Brasil. Isso exige recuperar políticas industriais e tecnológicas, ampliar o investimento público em ciência e inovação e estabelecer cláusulas mais rigorosas em contratos de investimento estrangeiro, que otimize os resultados para os dois lados da parceria. A integração regional também é fundamental: um Mercosul fortalecido e uma América Latina articulada ampliam o poder de barganha do Brasil diante dos grandes blocos geopolíticos, em um mundo que tende a ser cada vez mais multipolar.

O cenário internacional oferece, portanto, riscos e oportunidades. A transição energética, a reconfiguração das cadeias produtivas e as disputas tecnológicas abrem espaços para países em desenvolvimento que souberem se posicionar com visão estratégica de futuro e projetos nacionais soberanos, não subordinados a potências estrangeiras, sejam quais forem elas. O Brasil, com sua biodiversidade, matriz energética relativamente limpa e base industrial ainda significativa, possui vantagens comparativas que não podem ser desperdiçadas. No entanto, sem políticas consistentes, essas vantagens podem se converter apenas em nova rodada de especialização primário-exportadora.

Em última instância, a relação com a China deve ser analisada sob o prisma do projeto nacional que se deseja construir. Se aceitar a lógica da dependência como natural, o Brasil tende a se estabelecer como fornecedor de commodities e importador de tecnologia. Se, ao contrário, for aproveitada a parceria para negociar condições mais equilibradas dentro dos princípios das “relações de ganho mútuo”, uma oportunidade de transformação qualitativa pode ser criada, no sentido de alavanca para o desenvolvimento soberano, inclusivo e sustentável, concretizando uma via de desenvolvimento capitalista especificamente brasileira que possibilite prosperidade moderada para o conjunto dos concidadãos, fortalecendo vínculos patrióticos e comunitários.

O debate público precisa avançar nesse sentido. É hora de discutir não apenas a balança comercial, mas os rumos do país: que tipo de economia se almeja estruturar, com qual atuação do Estado planejador, que papel o país pode desempenhar em um mundo com riscos de guerras e ameaças militaristas de superpotências agressivas e decadentes. A relação Brasil-China pode ser parte da resposta — desde que não seja desconsiderado que a chave do desenvolvimento passa, em última instância, pelas decisões coletivas tomadas pelo país agora.

 


 

¹ Quem tiver interesse em conhecer o argumento ver: Braga, S., & Matos, A. (2025). As relações Brasil-China sob a ótica da teoria da dependência. Caderno CRH38. Disponível em https://doi.org/10.9771/ccrh.v38i0.51075 

 

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Sérgio Braga (UFPR) é Professor Titular da UFPR e do Programa de Pós-Graduação em Ciência Política da Universidade Federal do Paraná, bolsista de produtividade nível 2 em pesquisa do CNPq e Doutor em Desenvolvimento Econômico pela Univ. Estadual de Campinas (Unicamp). 

Angelita Matos Souza (UNESP) é Professora Assistente Doutora (Livre-Docente) no Instituto de Geociências e Ciências Exatas da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (UNESP), no Departamento de Geografia e Planejamento Ambiental (DGPA-IGCE). Pesquisadora junto ao Instituto de Políticas Públicas e Relações Internacionais (IPPRI-UNESP). 
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