A bioenergia desponta como rota promissora para uma matriz energética sustentável. O Brasil, com o etanol e novas tecnologias, pode liderar soluções viáveis que unam engenharia, natureza e desenvolvimento econômico
Depois de um quarto de século em que o problema climático foi repetidamente comentado e didaticamente apresentado à atenção das sociedades em todo o planeta, já ficou claro que existe uma tarefa transformadora de larguíssima escala diante da humanidade. Mas a distribuição desta tarefa de transição para um novo modo de vida é distribuída de forma heterogênea pelos diferentes setores da economia e da vida social.
Uma miríade de problemas e potenciais soluções apareceu em poucos anos, sendo difícil acompanhar e conhecer cada uma das possibilidades de futuro que hoje se comenta. Há muita dissonância também, misturando-se perspectivas consistentes e realistas com possibilidades por vezes inviáveis, ou ainda muito imaturas. Assim, tem-se um debate muito carregado e ainda nebuloso.
Alternativas para o cenário da bioenergia
Existem diversas experiências em desenvolvimento no mundo hoje para criar alternativas energéticas a partir de base biológica. Nem todas verão a luz do dia, naturalmente, e muitas ainda soam um pouco como ficção científica. Porém, o grande critério que demarca o avanço ou o fracasso de tecnologias é a viabilidade econômica, e nisto a maioria das propostas ainda corre atrás do seu aval. Para várias delas, é possível que se consiga viabilizar.
Uma delas é o uso de microrganismos geneticamente modificados para converter resíduos agrícolas, biomassa ou gases industriais em biocombustíveis. Esta engenharia biológica está tentando desenvolver enzimas e bactérias que consigam digerir estes resíduos para gerar cargas energéticas. Neste sentido, o uso de biodigestores de grande escala pode permitir o melhor uso possível do lixo urbano, por exemplo, que seria sua transformação em energia.
Pesquisadores da nanotecnologia desenvolvem outra rota tecnológica, esta ligada a um processo artificial similar à fotossíntese natural. Por meio desta técnica, seria possível converter luz natural e gás carbônico em combustíveis líquidos ou hidrogênio, usando biocatalisadores.
Um outro campo de pesquisa experimental é a criação de baterias biodegradáveis e sistemas de capacitação otimizada de energia com base em novos materiais híbridos compostos a partir de organismos vivos. Seria o caso, por exemplo, do uso de enzimas imobilizadas ou polímeros com condutividade elétrica com filmes de grafeno. Um híbrido como esse poderia ser capaz de armazenar cargas elétricas elevadas, promovendo mais autonomia e segurança energética para locais remotos.
Todos estes processos ainda experimentais podem conseguir alcançar a viabilidade técnica e econômica, mas para que isso aconteça serão necessários muitos investimentos públicos e privados em estruturas de pesquisa e inovação. Uma ação coordenada entre governo, universidades e empresas privadas será, como sempre no tema do desenvolvimento, crucial. Também não se pode ignorar a necessidade de criar regulações e estruturas de biossegurança pari passu ao desenvolvimento das tecnologias. Afinal, a introdução de organismos geneticamente modificados em larga escala, ou ainda o uso de materiais biológicos em processos não biológicos, pode representar riscos ambientais sérios para a coletividade.
Opções economicamente viáveis
Com tantas rotas de futuro disponíveis e a urgência impondo um ritmo de inovação jamais visto na história, o retorno ao velho casamento entre engenharia e natureza surge como o caminho com maior potencial de viabilidade futura, simplesmente porque sua tradicional racionalidade avalia custos e benefícios para encontrar aquilo que melhor funciona ao menor custo marginal possível. Afinal, se este foi o cálculo feito para energizar o mundo da forma que o desenvolveu (embora desigualmente), é mais provável que este seja o cálculo que corrija a terrível externalidade negativa que ele mesmo gerou.
O novo casamento entre engenharia e natureza se dá, portanto, num aproveitamento qualitativo dos recursos naturais. No futuro, não se planejarão usos intensivos de jazidas medidas em dezenas de milhões de metros cúbicos, mas sim o uso qualitativo de elementos do mundo natural, na perspectiva de escalar sem necessariamente esgotar.
Para a realidade brasileira contemporânea, é certo afirmar que o trabalho já realizado pelo setor de etanol é uma rota segura. O uso de etanol misturado à gasolina no Brasil, que veio associado ao desenvolvimento dos motores Flex, é uma experiência já consolidada e de ótimos resultados.
Mas o setor vem desenvolvendo inovações em cima deste e outros sucessos, como por exemplo as biorrefinarias que se tornarão produtoras de eletricidade em larga escala. Outro desenvolvimento que merece destaque é a pesquisa sobre o etanol feito a partir de milho, o que se conjuga com ainda outras possibilidades como o biometano (gás) e o Sustainable Aviation Fuel (SAF) que pode ser a alternativa para limpar as emissões do setor aéreo.
Todas possibilidades técnicas são interessantes, sem dúvida, mas poucas já se provam viáveis técnica e economicamente. Por enquanto, o cenário da bioenergia está sendo responsavelmente levado à frente no Brasil por uma indústria de etanol que desenvolve soluções que vão no sentido de uma matriz mais limpa. Cabe ao país como um todo reconhecer este esforço, adotá-lo e apoiá-lo, e fazer com que nossas soluções sejam exportadas para melhorar o panorama ambiental mundial.
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Fausto Oliveira é jornalista de economia com experiência nacional e internacional em setores industriais e infraestrutura.
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