8 de setembro de 2026
Sociedade

Patriotas de outras pátrias

Passado o 7 de setembro, enquanto os discursos cívicos se dissipam, vale fazer a pergunta: o que estamos celebrando? A nossa soberania nacional hoje é desafiada em sete frentes estratégicas.

Por Márcio Gimene

O Brasil é um encontro da natureza com povos indígenas, africanos, portugueses, espanhóis, italianos, japoneses, sírios, libaneses, haitianos, venezuelanos e tantos outros. Em meio ao genocídio indígena, escravidão e desigualdades que caracterizam o mercado de trabalho, a distribuição da terra, o acesso à justiça e a violência policial, no Brasil ainda prevalece uma cultura receptiva, disposta a absorver o diferente sem exigir que ele deixe de ser diferente. Uma sociedade em que a culinária, a religiosidade, a música e a língua incorporaram camadas sucessivas de outras origens sem se fragmentar em guetos irreconciliáveis. Um país continental com cerca de 220 milhões de habitantes, sem litígios territoriais com os países vizinhos, sem conflitos étnicos armados e sem movimentos separatistas ou xenófobos.

Não é pouco num mundo com deportações em massa, campos de detenção de migrantes, bombardeios contra populações civis, fome usada como método de guerra e sanções aplicadas contra autoridades de países soberanos por decisões tomadas dentro de suas próprias jurisdições.

A soberania, princípio que estruturou o direito internacional moderno, passou a ser tratada como privilégio de alguns e concessão revogável para os demais.

Nesse ambiente, o Brasil carrega um repertório raro: uma tradição diplomática de solução pacífica de controvérsias, de defesa do multilateralismo, de não proliferação nuclear e de não alinhamento automático. A projeção internacional brasileira se sustenta na credibilidade de quem dialoga com diversas partes sem ser instrumento de nenhuma. Essa credibilidade permite ao Brasil sentar-se simultaneamente à mesa dos BRICS e do G20, negociar com Washington e com Pequim, reivindicar reforma do Conselho de Segurança e propor agendas de combate à fome e de sustentabilidade socioambiental. 

 

Mas abertura não pode se confundir com ingenuidade

Ser acolhedor não significa ser servil, e o país que abre a porta para o estrangeiro tem o direito e o dever de decidir sem ingerência externa o que fazer dentro de casa. Isso exige entender que o modelo clássico de guerra, caracterizado por declarações formais, batalhas campais entre Estados soberanos e ocupações territoriais explícitas, cedeu lugar a formas mais difusas, assimétricas e sofisticadas de confronto. As chamadas guerras não convencionais incluem operações clandestinas, intervenções veladas, ataques cibernéticos, campanhas de desinformação, guerras econômicas, sabotagem tecnológica e manipulação de fluxos informacionais.

Essa nova configuração se articula com o uso intensivo de tecnologias avançadas: drones, satélites, inteligência artificial, algoritmos de reconhecimento comportamental e plataformas digitais de disseminação massiva de conteúdos. Os conflitos extrapolam os limites geográficos e temporais dos confrontos armados tradicionais e atingem esferas políticas, econômicas, sociais e cognitivas. O domínio sobre cadeias produtivas globais, plataformas tecnológicas e dados sensíveis consolidou-se como instrumento de poder. Isso confere às tecnologias digitais, aos sistemas de comunicação e aos aparatos logísticos o status de infraestruturas críticas, cuja vulnerabilidade pode ser explorada por adversários em ações de guerra híbrida. 

Nesse contexto, o Brasil enfrenta desafios consideráveis. O país abriga a maior floresta tropical do mundo, imensas reservas de água doce, solos férteis, uma matriz energética majoritariamente renovável, recursos minerais críticos para a transição energética e uma biodiversidade de valor crescente na bioeconomia — além de ser um dos maiores exportadores mundiais de alimentos. Essas características o tornam um ativo geoestratégico cobiçado por outros países e empresas privadas.

Embargos, barreiras não tarifárias e campanhas de desinformação sobre padrões de produção e comércio tendem a ser cada vez mais utilizados como instrumentos de contenção da autonomia política e econômica brasileira. A isso se soma o fato de que a capacidade militar do país depende de tecnologias críticas importadas, o que o expõe a riscos de espionagem e a vulnerabilidades operacionais. 

 

O que está em disputa

Convém ser concreto, porque a palavra “soberania” desliza facilmente para a retórica vazia. 

Primeiro, o sistema de pagamentos. Em julho de 2025, o governo dos Estados Unidos abriu contra o Brasil uma investigação com base na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974. Em junho de 2026, o USTR concluiu o procedimento e propôs tarifa adicional de 25% sobre produtos brasileiros. O relatório final não se restringe a questões tarifárias clássicas: classifica como prática irrazoável a soberania regulatória brasileira sobre plataformas digitais e coloca o Pix no banco dos réus, sob o argumento de que o Banco Central seria simultaneamente regulador e operador do sistema, limitando a receita de concorrentes privados estrangeiros. Traduzindo: uma política pública que reduziu custos de transação para milhões de brasileiros, incluiu financeiramente quem estava fora do sistema bancário e desconcentrou um mercado historicamente dominado por duas empresas estadunidenses passou a ser tratada como barreira comercial ilegítima. Vale registrar que a lista de exceções tarifárias, com dezenas de páginas, preserva aeronaves civis, medicamentos, fertilizantes, terras raras e alimentos tropicais. Ou seja, poupa aquilo que interessa a quem impõe a tarifa. O sócio menor é sempre convidado a fornecer a matéria-prima e a comprar o produto acabado. 

Segundo, a economia de dados. Como mostrou Thiago Varanda em artigo publicado neste espaço, a economia digital é menos etérea do que a metáfora da nuvem sugere. Ela é física, territorializada e intensiva em energia e água: depende de cabos de fibra óptica, satélites, data centers, dispositivos e, sobretudo, de um arcabouço institucional que define quem manda em quê. O ciclo tecnológico atual é dominado por dois países — Estados Unidos e China —, e o Brasil ocupa uma posição intermediária. Os avanços existem e são substantivos: a identidade digital e a plataforma gov.br, que reduzem a dependência de sistemas privados de autenticação; o próprio Pix; os esforços em torno de semicondutores, supercomputação e inteligência artificial soberana; a atuação de estatais como Serpro, Dataprev e Telebras. Mas as vulnerabilidades também são várias: o atrelamento da administração pública a um ecossistema proprietário de produtividade e nuvem; a dependência de hardware de maior conteúdo tecnológico; e a operação de data centers governamentais em parceria com as mesmas big techs cuja influência se pretende limitar. É esse conjunto que a pressão externa mira. Regular plataformas digitais, proteger dados pessoais, responsabilizar empresas por conteúdos que amplificam por decisão algorítmica, proteger crianças e adolescentes da lógica predatória do engajamento: tudo isso é apresentado como “barreira ao comércio digital”. A soberania regulatória é tratada como infração.

Terceiro, os minerais críticos. Como discutido por Raphael Padula em artigo recente, a diversidade das reservas brasileiras (nióbio, grafita, terras raras, níquel) oferece ao país uma janela de oportunidade para avançar além da exportação de minério bruto, buscando internalizar etapas de maior valor agregado – processamento, refino e manufatura avançada. Isso exige calibrar a velocidade de exploração dos minerais críticos brasileiros com a construção de capacidade produtiva e tecnológica doméstica. Nesse sentido, iniciativas de coordenação regional com países vizinhos precisam ser combinadas com negociações pragmáticas e simultâneas com múltiplos parceiros, para que o Brasil transforme sua abundância mineral em desenvolvimento produtivo e tecnológico, e, sobretudo, em soberania em áreas estratégicas como a energética e digital.

Quarto, a defesa nacional. Não há soberania sem capacidade de dissuasão, e não há dissuasão sem base industrial própria. Um país que compra sistemas prontos compra também as condições de uso desses sistemas: atualizações condicionadas, peças de reposição sujeitas a autorização, códigos-fonte inacessíveis, dados de operação trafegando por servidores alheios. O mesmo raciocínio vale para o setor espacial: órbitas, frequências e constelações de satélites estão sendo ocupadas de forma acelerada, e o que não for ocupado nesta década dificilmente será na próxima.

Quinto, a comida. O debate sobre fertilizantes mostra que soberania agrícola não se confunde com autossuficiência: envolve limites geológicos, bioinsumos, biotecnologia, pesquisa pública e capacidade de escolher fornecedores sem coerção. Um país que produz alimentos para o mundo, mas depende de importações para mais de 80% dos fertilizantes que utiliza, tem uma vulnerabilidade no centro do seu setor mais competitivo.

Sexto, a moeda. Um país que mantém taxas de juros reais entre as mais altas do mundo transfere renda da produção para o rentismo, encarece o investimento produtivo e reduz o espaço fiscal para políticas de desenvolvimento. A hierarquia monetária internacional, com o dólar no topo, agrava essa restrição — e o uso do sistema financeiro internacional como arma, por meio de sanções e bloqueios, evidencia o uso da moeda como instrumento explícito de política externa.

 

A guerra cognitiva chega à eleição

Há, porém, um sétimo vetor, que ordena todos os demais: o controle sobre aquilo que a população acredita ser verdade. A infraestrutura informacional brasileira é operada por empresas estrangeiras cujos modelos de negócio se baseiam na captura da atenção e na monetização do comportamento. A hierarquização do que cada cidadão vê é decidida por sistemas otimizados para engajamento — e o engajamento, sabemos, é maximizado pela indignação. O resultado é um ambiente favorável à desinformação e à erosão da confiança nas instituições.

Sobre essa infraestrutura, incidem operações deliberadas. Ao longo do último ano, brasileiros instalados no exterior articularam sanções contra autoridades brasileiras, pediram publicamente punições econômicas contra o próprio país e comemoraram tarifas que atingem exportadores, empregos e cadeias produtivas. Nos últimos meses, voltaram a ser lançadas dúvidas sobre a integridade do sistema eleitoral brasileiro. Se a candidatura apoiada por essa articulação perder, novamente será acionado o enredo da fraude e, com ele, a justificativa para contestar o resultado, mobilizar apoiadores e obter o reconhecimento seletivo de governos estrangeiros. É a mesma estratégia aplicada em outros países.

 

Patriotas de outras pátrias

Chegamos, assim, ao paradoxo que dá título a este artigo. Não são poucos os que fazem discursos inflamados contra supostos inimigos internos, mas se omitem — ou aplaudem — diante de agressões externas.

Não são patriotas: são porta-vozes de um projeto neocolonial. De que vale bradar slogans nacionalistas se, na prática, defendem a subordinação das nossas decisões políticas a pressões e chantagens impostas por governantes de outros países?

Nada disso é novidade histórica. A ameaça externa raramente chega sozinha; chega sempre acompanhada de intérpretes locais, dispostos a apresentar a rendição como modernização, a chantagem como parceria e a entrega como pragmatismo. Nos anos 1950, quem defendia o monopólio estatal do petróleo era acusado de atraso e xenofobia por quem preferia entregar a exploração a companhias estrangeiras. Nos anos 1960, institutos financiados com recursos externos operaram sistematicamente para desestabilizar um governo eleito, e a ruptura de 1964 contou com o apoio logístico de uma força naval estrangeira posicionada na costa brasileira. Nos anos 1990, a desnacionalização de setores estratégicos foi vendida como inevitabilidade técnica, e quem discordava era tratado como saudosista.

O vocabulário muda; a função é a mesma. Em cada ciclo, há brasileiros que se apresentam como modernizadores, realistas ou patriotas, e cuja atuação concreta consiste em reduzir o espaço de decisão do Brasil.

O que distingue o momento atual é o grau de explicitação. Não estamos diante de articulações discretas em gabinetes: estamos diante de pedidos públicos de sanções, de comemorações abertas de tarifas contra a economia nacional, de agradecimentos a autoridades estrangeiras por punições impostas a instituições brasileiras. Não é preciso atribuir intenções ocultas a ninguém: basta ler o que foi dito em público e postado em redes sociais.

 

O teste do eleitor

É contra esse pano de fundo que a eleição de outubro adquire seu significado mais profundo. Não se trata apenas de escolher entre projetos econômicos, modelos de gestão ou preferências morais. Trata-se de decidir se as decisões que afetam a vida do povo brasileiro serão tomadas no Brasil. Para isso, o eleitor dispõe de critérios objetivos, que independem de simpatia pessoal. Cinco perguntas bastam, e todas podem ser respondidas com o noticiário dos últimos meses.

1) Diante de uma agressão econômica externa contra o Brasil, o candidato ou candidata defendeu o país ou celebrou a agressão como instrumento de sua disputa doméstica?

2) Quando empresas sediadas em outros países pressionaram contra o Pix, contra a regulação de plataformas digitais ou contra o controle nacional de recursos estratégicos, ele ou ela defendeu o interesse público brasileiro ou atuou como facilitador?

3) Ele ou ela defende que o Brasil agregue valor àquilo que extrai — minerais críticos, alimentos, energia — ou aceita, em nome de um suposto pragmatismo, o papel de fornecedor de matéria-prima barata?

4) Ele ou ela fortalece ou corrói as instituições que garantem que o voto de cada cidadão seja respeitado?

5) Diante de um governo estrangeiro que pune autoridades brasileiras por decisões tomadas dentro da jurisdição brasileira, ele ou ela reafirma a soberania nacional ou pede mais punições?

Quem falha nas cinco não é adversário político em um jogo democrático: é operador de um projeto de subordinação nacional.

 

O dia seguinte

Seria um erro, contudo, tratar a eleição como ponto final. Nenhum resultado eleitoral, por si só, constrói capacidade estatal, forma profissionais, ergue plantas de refino, financia pesquisa de longo prazo ou reduz a dependência tecnológica de infraestruturas críticas.

A agenda de soberania envolve múltiplas frentes: um Estado ativo, com carreiras estruturadas, planejamento de longo prazo e capacidade de coordenação; investimentos plurianuais em infraestrutura e desenvolvimento produtivo que não sejam inviabilizados por restrições fiscais; política nacional de minerais críticos que condicione a exploração à agregação de valor; estratégia digital que reduza o atrelamento da administração pública a ecossistemas proprietários estrangeiros e trate infraestrutura pública digital como política de Estado; sistema de ciência, tecnologia e inovação que articule universidades, estatais e setor produtivo em torno de missões ancoradas nas necessidades da população brasileira; política de defesa apoiada em base industrial própria; e condução de política monetária que afaste o país da constrangedora posição de praticante de uma das taxas reais de juros mais altas do planeta.

Nada disso é simples de construir. Mas é a postura de cada um e cada uma diante de temas como esses que define quem é de fato patriota. O verdadeiro patriotismo se mede pela disposição de proteger nossos recursos, fortalecer nossas instituições e preservar a capacidade do povo brasileiro de decidir seu próprio destino. Patriota é quem reconhece o valor do Brasil, protege suas riquezas, fortalece sua democracia e contribui para a construção de caminhos próprios de desenvolvimento, com justiça social e autonomia tecnológica em infraestruturas críticas.

O Brasil, com sua dimensão continental, sua diversidade cultural, suas riquezas naturais, seu amplo mercado interno e sua estrutura produtiva relativamente diversificada, não pode se permitir o luxo da servidão voluntária. É preciso resgatar o sentido profundo da independência, que não se esgota em celebrações cívicas ou desfiles militares.

Ela se concretiza quando o seu povo decide, com autonomia, seu modelo de desenvolvimento, suas políticas econômicas e suas formas de inserção e cooperação internacional. A independência se fortalece quando as instituições democráticas são preservadas contra tentativas de captura por empresas e governos estrangeiros. E se afirma quando a população não se deixa enganar por falsos patriotas que agem a serviço de interesses contrários ao desenvolvimento soberano e inclusivo desse país acolhedor que ainda é o Brasil.

 


 

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Márcio Gimene
 é Analista de Planejamento e Orçamento. Mais informações em www.gimene.com.br.
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