A Região Concentrada, formada pelo Sul e Sudeste, articula os principais eixos produtivos, financeiros e tecnológicos do Brasil, mas enfrenta desafios como pobreza urbana, violência, congestionamentos e pressões ambientais crescentes
Por Márcio Gimene
A trajetória de formação das regiões brasileiras revela contrastes profundos e assimetrias persistentes. Entre elas, o Sul e o Sudeste destacam-se como áreas de maior densidade populacional, econômica e tecnológica do país. Milton Santos e María Laura Silveira cunharam a expressão “Região Concentrada” para se referir a esse espaço, onde convergem e se articulam os principais eixos produtivos, financeiros, científicos e informacionais do Brasil contemporâneo.
O caráter concentrador dessa região não é mero acaso geográfico, mas resultado de um processo histórico de especialização do trabalho e diversificação de atividades produtivas. No período colonial, os ciclos do ouro em Minas Gerais e do café em São Paulo e Rio de Janeiro estruturaram dinâmicas econômicas e redes de transporte que prepararam o terreno para a industrialização. O café não apenas gerou excedentes financeiros, como também atraiu força de trabalho imigrante, dinamizou o mercado interno e financiou a diversificação produtiva.
No século 20, a política de substituição de importações impulsionou o avanço industrial, sobretudo em São Paulo, que se consolidou como centro manufatureiro do país. Indústrias metalúrgicas, químicas e automobilísticas transformaram a região em polo de produção diversificada, atraindo migrantes de todo o Brasil e consolidando metrópoles como São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte. O Sul, por sua vez, fortaleceu-se em setores como a agroindústria e a metalmecânica, complementando o dinamismo do Sudeste.
Esse processo foi acompanhado por uma intensa urbanização, que transformou as metrópoles do Sudeste e as capitais do Sul em polos de atração populacional e dinamismo econômico. A lógica de concentração se consolidou com a instalação de infraestruturas – como ferrovias, rodovias, usinas hidrelétricas, portos e aeroportos –, que reforçaram os fluxos de mercadorias e pessoas.
A difusão de Universidades e centros de pesquisa possibilitou a retroalimentação entre atividades privadas e inovação, caracterizando a região como de alta densidade técnica, produtiva e informacional.
A partir da década de 1990, em meio à uma abertura comercial mal planejada e o desmonte de políticas de desenvolvimento produtivo, o avanço dos serviços e a financeirização transformaram São Paulo no maior centro financeiro da América Latina. Enquanto isso, os estados do Rio de Janeiro e Minas Gerais destacaram-se nas áreas de energia e mineração. Com o avanço da digitalização e da economia do conhecimento, a centralidade da região se consolidou na indústria, na logística, nas telecomunicações e nas tecnologias da informação, conectando cidades e empresas em redes complexas de informação e serviços.
Mas a Região Concentrada enfrenta grandes problemas
A persistência da pobreza é um deles. Nas maiores cidades, é comum encontrar pessoas em situação de rua ou vivendo sem acesso adequado à alimentação saudável e serviços básicos como água encanada, esgotamento sanitário, coleta de lixo, iluminação pública, pavimentação, áreas de lazer e equipamentos comunitários.
Outro problema crônico é a violência. Áreas com altos índices de criminalidade passam a ser estigmatizadas. Em muitos locais, as disputas entre milícias e outras facções criminosas impõem restrições à circulação de pessoas e mercadorias, com cobrança de taxas ilegais e exploração de serviços como transporte e gás. Além de limitar o exercício da cidadania, a violência dificulta a atração e a retenção de talentos (especialmente em atividades que exigem alta qualificação técnica e científica) e desestimula investimentos privados e o turismo.
O caos urbano também está relacionado aos constantes congestionamentos. O tempo excessivo de deslocamento nas cidades afeta tanto os usuários de transportes públicos quanto privados, o que provoca estresse e reduz a produtividade do trabalho.
As pressões ambientais também são motivo de preocupação. Muitas cidades cresceram sem planejamento urbano adequado. Com a intensificação de eventos extremos associados às mudanças climáticas, fenômenos como enchentes e deslizamentos de encostas têm resultado em tragédias sociais, impactando também as atividades produtivas.
O enfrentamento desses problemas sociais e ambientais precisa ser feito ao mesmo tempo em que são aproveitadas as oportunidades de geração de emprego e renda. Nesse sentido, entre as possibilidades para o desenvolvimento sustentável da Região Concentrada, podemos destacar:
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- a exploração sustentável dos recursos do mar e dos ambientes costeiros;
- a ampliação da oferta de cursos técnicos e de formação continuada em áreas tecnológicas, como ciência de dados, engenharia de software e automação;
- a consolidação de parques tecnológicos e incubadoras voltados a startups e empresas de base tecnológica, promovendo parcerias entre universidades, empresas e institutos de pesquisa;
- o desenvolvimento de produtos biotecnológicos, como vacinas, medicamentos de precisão e agricultura geneticamente avançada;
- a formação de clusters de inovação em áreas como saúde, energias renováveis e manufatura avançada;
- o fortalecimento das tecnologias de informação e comunicação, promovendo soluções em cibersegurança, software e infraestrutura digital;
- a expansão de atividades ligadas à automação, robótica, impressão 3D, Internet das Coisas, big data e inteligência artificial, focando em setores como automotivo, aeroespacial e farmacêutico; e
- o investimento em tecnologias de realidade aumentada, produção audiovisual de alta qualidade e design de produtos digitais, fomentando o crescimento das indústrias criativas.
No entanto, o desenvolvimento da Região Concentrada só será sustentável se contribuir para uma integração virtuosa com o meio ambiente, as demais regiões brasileiras e os países vizinhos, articulando polos de excelência com territórios menos dinâmicos. Assim será possível consolidar uma rede policêntrica de cidades que ofereçam mais segurança e qualidade de vida para os seus habitantes e as futuras gerações.
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Márcio Gimene é Analista de Planejamento e Orçamento. Mais informações: www.gimene.com.br.
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