7 de março de 2026
Território

Democracia como forma de vida: entre abstrações e desafios do presente

Democracia vai muito além de eleições e instituições formais: é uma forma de vida baseada em abstrações que criam igualdade onde só existe desigualdade. Mas essas abstrações estão em crise?

 

Por Jaqueline Maria

 

A democracia costuma ser tratada como um regime entre outros, definido por instituições, regras eleitorais e mecanismos de representação. Mas, como registra Renato Lessa em Da democracia como forma de vida (TD-94), sua essência extrapola o plano formal. Democracia é, antes de tudo, uma forma de vida: um modo de imaginar, organizar e partilhar a existência coletiva, sustentado por abstrações que tornam possível a invenção do comum e da igualdade.

Inspirado em Wittgenstein, Lessa retoma a noção de Lebensform — forma de vida — para mostrar que a democracia não se reduz a governos, parlamentos ou tribunais. Trata-se de um arranjo histórico-cultural no qual cidadãos se reconhecem como iguais, mesmo diante de profundas desigualdades materiais. A democracia moderna nasceu desse amálgama entre direitos civis, políticos e sociais; essa combinação, sempre incompleta e tensa, deu corpo ao “animal artificial” democrático, alimentado por expectativas de liberdade, igualdade e bem-estar.

Lessa distingue dois planos analíticos: o tempo lógico — a relação entre demos (o povo) e polis (a forma política) — e o tempo substantivo — a materialização histórica da democracia no século XX. No plano lógico, a condição de possibilidade da democracia exige que o povo seja reconhecido como imanente à ordem política; na prática, porém, essa coextensividade é sempre parcial, suscitando uma tensão produtiva entre representação e potência popular. No plano substantivo, a expansão do sufrágio, a institucionalização do Estado de bem-estar e a difusão do regime democrático após a Segunda Guerra consagraram a democracia como horizonte reivindicado globalmente — sem, contudo eliminar suas contradições.

Duas abstrações fundadoras sustentam esse arranjo: o comum e a igualdade. Em sociedades marcadas por diferenças e hierarquias, é preciso um salto imaginativo para conceber que todos pertencem a uma mesma comunidade política. Essa “alucinação” — na formulação de Lessa — torna possível tratar pessoas radicalmente distintas como iguais. Na tradição grega, isso apareceu como isonomia; nas democracias modernas, traduziu-se na expansão sucessiva de direitos políticos, sociais e culturais, sempre resultante de disputas e conflitos.

O tempo substantivo, ao consolidar a democracia no século XX, também expôs seus limites. A partir dos anos 1980, o avanço do neoliberalismo reduziu o alcance das políticas públicas e submeteu democracias às pressões de mercado; a crescente desigualdade corroeu a confiança nas instituições e o individualismo corroeu a noção de comum. Assim, a democracia enquanto forma de vida entrou em crise, sujeita a capturas oligárquicas, erosões institucionais e à ascensão de líderes autoritários eleitos.

Hoje as ameaças são externas e internas. No plano externo, avança a difusão de modelos autoritários e a manipulação transnacional da informação. No interno, o demos pode se transformar em agente de regressão quando maiorias circunstanciais legitimam políticas que atacam direitos e instituições — o que torna real o risco de corroer a própria democracia sob o pretexto da soberania popular. São ameaças que revelam o caráter paradoxal do regime: a própria condição de sua legitimação pode ser instrumentalizada para desmontá-la.

O Brasil ilustra esse dilema. A Constituição de 1988 inaugurou um ciclo de conquistas — o SUS, a expansão educacional, políticas de transferência de renda — que mostraram o poder de articular direitos civis, políticos e sociais. Mas fragilidades institucionais, desigualdade estrutural e a captura do debate público por desinformação minaram a confiança coletiva. A ascensão de projetos autoritários entre 2016 e 2022 demonstrou como o demos pode ser mobilizado contra si mesmo, legitimando retrocessos em nome de uma interpretação rasa de soberania.

Publicado no âmbito da Iniciativa Brasil Saúde Amanhã, da Fiocruz, o texto de Lessa lembra que a democracia depende também da imaginação política: é preciso cultivar as abstrações que nos permitem ver igualdade onde só há desigualdade e reconhecer pertencimento onde predominam divisões. Recuperar a democracia como forma de vida exige mais do que eleições periódicas; exige políticas que reconstruam o comum e reafirmem a igualdade como princípio orientador da vida pública.

Democracia não é adorno; é condição de convivência coletiva. Trata-se, portanto, de um imperativo político, ético e existencial: cuidar dela é cuidar do futuro comum.


 

🔗 Referência: LESSA, Renato. Da democracia como forma de vida (TD-94). Iniciativa Brasil Saúde Amanhã — Fiocruz, 2025. Disponível em: https://saudeamanha.fiocruz.br/wp-content/uploads/2025/08/Lessa_R_Da-democracia-como-forma-de-vida_TD-94_final-1.pdf

 

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Jaqueline Maria é jornalista e gestora pública com 10 anos de experiência em assessoria de comunicação governamental.
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