A grande questão para o Brasil é como qualificar seu multifacetado setor terciário, criando novas e criativas conexões com os demais setores produtivos, para garantir empregos qualificados e bem remunerados
Com a divulgação do PIB de 2024, ficou mais uma vez estabelecida a importância do setor de serviços para o Brasil. Com crescimento de 3,7% sobre 2023, o setor continua sendo o maior empregador do Brasil. Que caminho esse fato inexorável nos aponta?
A chegada do Brasil ao patamar de país de renda média foi uma consolidação histórica que atinge um grau de maturidade na última década do século XX. O país havia construído um virtuoso processo de superação das heranças coloniais escravistas por meio de um esforço pela urbanização e industrialização, determinando uma nova cara para a sociedade brasileira nos anos que sucedem o regime militar (1964-1985). Entretanto, o esgotamento do modelo fordista de produção e acumulação, em todo o Ocidente, ajudou a provocar no Brasil uma transição que coincidiu com uma nova revolução tecnológica e com uma importante mudança no cenário político mundial.
É no quadro de uma tremenda alteração geopolítica e econômica que, ao final dos anos 1980, a economia brasileira, até ali candidata a potência industrial, se vê sem fôlego para seguir crescendo pelo modelo que a trouxera à renda média. Um vasto contingente populacional já havia se deslocado para as cidades, e ao mesmo tempo uma leva de novos conceitos de política econômica recomendavam aos países a abertura comercial e financeira como forma de integrar as massas sociais a um novo modelo de produção e um novo mercado de trabalho.
Enfraquecendo as cadeias nacionais de produção industrial em todos os países periféricos, este processo apresentou a alternativa do setor de serviços como substituto supostamente moderno às indústrias nacionais. A aplicação destes conceitos veio a se refletir tanto na participação do setor de serviços nos produtos internos brutos dos países como também, naturalmente, em seus mercados de trabalho.
No Brasil, não foi diferente. A partir da crise dos anos 1980, e ainda com maior força a partir da estabilização da economia nacional em 1994, uma sequência de privatizações, desregulações econômicas e aberturas financeiras mudaram novamente a cara da economia brasileira, que assim passou a oferecer muito mais empregos nos serviços urbanos do que nos setores tradicionais da indústria, agricultura e mineração.
Atualmente, ainda que se discuta muito o que o pós-fordismo trouxe aos países em termos de elevação dos padrões de desenvolvimento, não há claros sinais de que surja um novo paradigma. Ainda se verifica a equação que tenta compatibilizar uma enorme concentração demográfica em regiões metropolitanas e uma oferta de trabalho muito limitada ao setor terciário da economia.
O fenômeno não é necessariamente nefasto. Basta pensar que em todos os países desenvolvidos, há uma taxa de concentração laboral no setor de serviços igual ou talvez até maior do que os cerca de 70% que há no Brasil. Mas em tais situações, o mercado de trabalho em serviços apresenta médias de remuneração melhores e contribui com mais consistência para o produto nacional. Qual a diferença?
Para muitos, a chave para compreender essa disjuntiva é a existência de mais serviços sofisticados em países desenvolvidos do que em países não desenvolvidos. Os serviços de maior sofisticação (a exemplo de tecnologias de informação, arquitetura, gerenciamentos de crise, análises de risco integral e muitos outros) são mais demandantes de educação superior, são internacionalizáveis e tendem a ser providos por companhias mais bem capitalizadas. A ocorrência de uma concentração de mão de obra nestes serviços seria causa de um panorama econômico nacional forte e pujante, apesar de concentrado em serviços.
Enquanto isso, o oposto seria caracterizado por uma alta concentração de mão de obra em serviços de pouca complexidade e baixa produtividade (a exemplo de serviços de instalação e manutenção de infraestruturas comuns, comércios de varejo, atendimentos telefônicos, seguros e muitos outros). Nesta situação, um país estaria marcado por baixa renda média do trabalho no setor terciário, em função de sua modesta contribuição per capita para o produto, que seria reflexo de uma menor demanda por profissionais qualificados e portanto menor intensividade de capital humano.
Um eixo de análise que pode ser interessante, por integrar o fator histórico na interpretação, é aquele que percebe a integração dos setores tradicionais com o setor de serviços, em ambos os contextos. Em países desenvolvidos, a consumação do desenvolvimento industrial, com seus impactos positivos tanto na elevação da renda média como na qualificação do restante das cadeias produtivas, seria o fator explicativo para a maior ocorrência de serviços mais bem remunerados e de maior produtividade. Por outro lado, a interrupção do desenvolvimento industrial em outros países explicaria a maior ocorrência de serviços de pior remuneração média e menor taxa de produtividade. E por que?
A resposta dada por esta tese reside no fato de que, durante a vigência histórica do modelo fordista de produção e acumulação, o desenvolvimento industrial gerava economias de escala capazes de produzir significativo crescimento real da renda média, ao mesmo tempo em que tendia a se espalhar pelo restante da economia como demandante de produtos e serviços qualificados e como irradiador de oportunidades de negócio e de empregos.
A maioria dos analistas considera muito improvável que a oportunidade que se abriu naquele período se repita, ao menos não da forma como aconteceu antes. Isso significaria, portanto, que para países como o Brasil, onde não houve a consumação do desenvolvimento industrial durante a era fordista, a perspectiva de trabalho continuará majoritariamente atrelada ao setor de serviços.
A grande questão para a economia brasileira seria, portanto, como achar oportunidades de qualificar seu multifacetado setor terciário mediante a criação de novas e criativas conexões com os demais setores produtivos, na perspectiva de encontrar economias de escala que possam acelerar os crescimentos setoriais e assim carregar maiores contingentes sociais para além da renda média. Em outras palavras, como industrializar a economia neste novo paradigma laboral, urbano e tecnológico em que vivemos. Um desafio histórico.
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Fausto Oliveira é jornalista de economia com experiência nacional e internacional em setores industriais e infraestrutura.