4 de abril de 2025
Assistência social Sociedade

Notas Sobre a Atual Inflação dos Alimentos

A inflação dos alimentos segue em alta, impulsionada pelo modelo agroexportador, especulação e falta de políticas públicas. O governo aposta no PAA e na reforma agrária para conter os preços.

 

A comida está cara. Muito cara. E, como sempre, quem sente primeiro e mais forte são aqueles que já vivem no limite. Nos últimos meses, a inflação dos alimentos no Brasil voltou a preocupar, corroendo o poder de compra da população e aprofundando a insegurança alimentar. Mas afinal, o que explica essa alta persistente dos preços?

O diagnóstico que domina o debate público é quase sempre o mesmo: um suposto excesso de demanda. Não importa a realidade de desemprego, desalento e baixos salários, os economistas de mercado insistem que o problema está no consumo e na necessidade de segurar a economia. Esse discurso justifica políticas de aumento de juros e contenção fiscal, mas ignora completamente o impacto dos problemas estruturais na formação dos preços.

Na prática, o que temos é um problema no lado da oferta, agravado por gargalos produtivos, pela especulação e pelo desmonte de políticas públicas essenciais. Para entender essa inflação, precisamos olhar além da superfície e observar as dinâmicas reais do setor agroalimentar brasileiro.

O impacto da estrutura produtiva na inflação dos alimentos

Uma das principais razões para a alta dos preços dos alimentos está na estrutura produtiva do agronegócio brasileiro. Historicamente, o modelo de produção agrícola no país tem sido voltado para exportação, privilegiando commodities como soja, milho e carne bovina. Isso significa que grande parte da produção nacional não está voltada ao mercado interno, mas sim à demanda externa, o que acaba encarecendo os preços dos produtos básicos para o consumidor brasileiro.

O impacto dessa lógica de exportação fica evidente ao analisarmos os dados de área plantada. Enquanto cultivos voltados à exportação ocupam extensas áreas, a produção de alimentos essenciais para o consumo doméstico enfrenta dificuldades para se expandir. Os números revelam que, nos últimos anos, culturas como soja e cana-de-açúcar tiveram um aumento significativo de área plantada, enquanto cultivos como feijão e arroz – alimentos essenciais na dieta do brasileiro – enfrentaram estagnação ou até retração.


Fonte: Pesquisa Agrícola Municipal (PAM), IBGE

Essa concentração da produção em commodities voltadas para exportação faz com que os preços internos dos alimentos fiquem dolarizados. Quando os preços internacionais sobem, os produtores priorizam a exportação, reduzindo a oferta no mercado doméstico e pressionando os preços para cima.

Além disso, a produção brasileira depende fortemente de insumos importados, como fertilizantes e defensivos agrícolas. Isso significa que a desvalorização do real frente ao dólar impacta diretamente os custos de produção, repassando aumentos ao consumidor final. A guerra sem fim na Ucrânia, por exemplo, também afeta a oferta global de fertilizantes, tornando-os mais caros e impactando a produção nacional.

A retomada das políticas de abastecimento: o PAA e a reforma agrária

Diferente do governo anterior, que desmontou diversas políticas voltadas para a segurança alimentar, o governo atual está retomando o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) com investimentos cada vez maiores. Essa política tem um duplo papel estratégico: de um lado, fortalece a agricultura familiar, garantindo a compra da produção a preços justos e incentivando o pequeno produtor; de outro, reforça os estoques de alimentos para abastecimento da população, reduzindo a volatilidade dos preços.

O impacto do PAA na inflação é direto. Quando o governo adquire alimentos e destina para programas sociais, a segurança alimentar é ampliada, o que ajuda a conter aumentos especulativos. Além disso, o programa cria uma rede de proteção para os pequenos agricultores, garantindo que sua produção não fique refém das oscilações de mercado e do poder das grandes redes de varejo.

Outra política que está sendo retomada e que tem potencial para impactar positivamente os preços dos alimentos a médio e longo prazo é a reforma agrária. Diferente da narrativa de que reforma agrária não tem papel relevante na segurança alimentar, os dados mostram que a agricultura familiar é responsável pela maior parte da produção de alimentos consumidos internamente. Quando mais pessoas têm acesso à terra, a produção se diversifica e a oferta de alimentos cresce, o que tende a reduzir os preços.

O governo atual já anunciou a retomada da política de reforma agrária, com desapropriações de terras improdutivas e a concessão de novos assentamentos. Isso significa que, nos próximos anos, poderemos ver um crescimento na produção de alimentos básicos no Brasil, reduzindo a dependência de importações e melhorando o abastecimento interno.

Se combinadas com políticas de crédito, assistência técnica e fortalecimento dos estoques reguladores, essas ações têm o potencial de transformar estruturalmente o mercado de alimentos no Brasil, reduzindo preços e garantindo mais estabilidade para o consumidor.

Produção per capita e a dificuldade de acesso aos alimentos

Se analisarmos os dados de produção per capita, veremos que, mesmo com o crescimento da produção agrícola total, a distribuição dessa produção não necessariamente reflete um aumento na disponibilidade de alimentos básicos para a população.

A relação entre produção total e crescimento populacional é um fator crucial para entender a inflação dos alimentos. Se a produção de um determinado alimento cresce, mas a população cresce em um ritmo ainda maior, a oferta por habitante diminui, encarecendo os produtos.

Nos últimos anos, enquanto a produção de grãos como soja e milho disparou – abastecendo os mercados internacionais –, a produção per capita de alimentos essenciais como arroz e feijão tem apresentado sinais preocupantes. A redução do estoque desses alimentos no mercado interno tem sido um dos fatores que impulsionam a inflação alimentar.

Fonte: Elaboração própria a partir da Pesquisa Agrícola Municipal (PAM) e Estimativa da População, IBGE 


Fonte: Elaboração própria a partir da Pesquisa Agrícola Municipal (PAM) e Estimativa da População, IBGE 

A retomada do PAA e da reforma agrária são caminhos necessários para reverter essa tendência, aumentando a oferta de alimentos básicos e reduzindo a inflação alimentar nos próximos anos.

Conclusão

A inflação dos alimentos no Brasil não é um fenômeno isolado, mas sim o resultado de uma série de fatores estruturais e políticas equivocadas. O modelo agroexportador, a falta de estoques reguladores, o desmonte de políticas públicas e a alta nos combustíveis criam um ambiente em que os preços disparam, penalizando a população mais vulnerável.

No entanto, diferentemente dos últimos anos, o governo atual está retomando políticas que podem ajudar a conter essa alta de preços. O PAA está sendo ampliado, garantindo uma política pública de compras de alimentos que reduz a vulnerabilidade do mercado interno. A reforma agrária volta a ser prioridade, o que pode impactar a estrutura produtiva no médio prazo, gerando maior oferta de alimentos.

Se essas políticas forem acompanhadas de ações complementares, como a retomada dos estoques reguladores, a revisão da política de preços da Petrobras e o incentivo ao fortalecimento da agricultura familiar, é possível que nos próximos anos os preços dos alimentos se estabilizem e até recuem.

Ou seja, o cenário atual da inflação dos alimentos é preocupante, mas há sinais concretos de mudanças na política pública que podem transformar essa realidade. O desafio agora é garantir que essas medidas avancem de forma contínua, assegurando-se o orçamento necessário para tanto, consolidando um modelo que prioriza a segurança alimentar da população brasileira.

 

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Gustavo Souto de Noronha é economista do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra).