A substituição da indústria petroquímica por uma bioindústria exige planejamento estratégico. O Brasil pode liderar essa transição sem abrir mão da exploração da Margem Equatorial. Entenda o impacto dessa mudança.
O consenso mundial a respeito das causas da crise climática contemporânea indica um declínio no uso de combustíveis fósseis em variadas áreas da atividade humana. A principal fonte fóssil de energia — o petróleo — vem sendo colocado em questão desde o início deste século. É considerado o maior culpado pelo aquecimento global por ser a matéria prima de combustíveis que uma vez queimados acumulam CO2 na atmosfera. Por outro lado, embora tenha altas emissões relacionadas, o petróleo fica atrás do carvão, cuja queima ainda é fonte de energia termoelétrica em diversos países.
Assim, a descarbonização vem sendo situada em pontos diferentes do espectro econômico. Há quem defenda, por exemplo, a suspensão total da extração de petróleo a fim de contribuir para redução de emissões. Segundo este raciocínio, isto forçaria as economias a acelerar a transição para mobilidade elétrica, que emite menos CO2. Porém, o consequente aumento na demanda por eletricidade, cuja produção nem sempre é livre de emissões, pode arruinar parte deste enorme esforço histórico.
Enquanto este, que talvez seja o grande tema do século XXI, é discutido numa chave ainda razoavelmente limitada, seguimos ignorando aspectos importantes relacionados ao petróleo. Deixar de falar na petroquímica equivale a encomendar uma legião de perguntas sem resposta, e se a opção contra o petróleo se intensificar sem que se implementem alternativas a seus derivados petroquímicos, logo precisaremos de novos ciclos de readaptação industrial em escala mundial. Talvez, com urgência.
Isto porque o petróleo não é apenas uma fonte fóssil de energia para locomoção de veículos. Embora esta seja sua principal aplicação em termos quantitativos, está longe de ser a única. A petroquímica, que também poderia ser definida como o processamento industrial do petróleo, é uma parte essencial de longas e diversificadas cadeias produtivas.
Sendo originadora do plástico e borrachas sintéticas, ela afeta as indústrias automotiva, de embalagens, de construção civil, de eletroeletrônicos e eletrodomésticos, e uma série de outras. Por ser a origem de fertilizantes, afeta a produção agrícola. Por ser a origem de moléculas sintéticas, ela afeta a indústria farmacêutica, a indústria química e de produtos de limpeza. Por ser a origem de fibras sintéticas, ela afeta a indústria têxtil e de vestuário. Por ser a origem de gases usados em residências, ela afeta a rotina alimentar de bilhões de seres humanos e toda a cadeia de serviços alimentícios e hospitalares em cidades.
Não é simples implementar alternativas livres de petróleo para toda a cadeia produtiva ligada à petroquímica. Entretanto, pode-se considerar que isto seja uma meta a perseguir, algo até mesmo desejável, uma vez que o petróleo é um recurso finito e em qualquer situação sempre é melhor dispor de mais alternativas.
Margem Equatorial
Tão mal conduzida é a discussão atual sobre petróleo no Brasil que a exploração da Margem Equatorial continua travada por autoridades ambientais. Situada a cerca de 500 quilômetros da foz do rio Amazonas, esta reserva de petróleo submarino tem potencial para gerar riqueza e desenvolvimento para a região mais empobrecida do Brasil, o Norte. Não explorá-la, sabendo que poucos quilômetros além da fronteira náutica brasileira com a Guiana Francesa o petróleo vem sendo explorado por outros agentes, seria um erro histórico.
Os rigores ambientais da legislação brasileira, uma das mais estritas do mundo, e a especialidade da Petrobras em segurança na exploração e produção de petróleo, deveriam garantir à sociedade brasileira a tranquilidade necessária para apoiar o projeto. Caso ele não seja levado adiante, toda essa riqueza deixará de ser aplicada para bem do povo do norte brasileiro, sendo revertida em ganhos socioeconômicos para cidadãos do território francês, do Suriname e da Guiana.
Contrariamente ao senso comum, a exploração de petróleo na Margem Equatorial pode ajudar e acelerar a transição para uma economia fundada em novos materiais. Como se sabe, a Petrobras é uma empresa de energia com capacidade para liderar todo tipo de transição, inclusive na petroquímica. Mas para isso, não pode desperdiçar recursos como aqueles que provirão da Margem Equatorial.
Portanto, a tarefa histórica de substituir a matriz fóssil por uma nova matriz biológica em tantas cadeias produtivas depende de que o debate seja feito de forma inteligente e lúcida, sem demandar uma parada brusca na exploração de petróleo. Outro ponto crucial é entender que uma transição tecnológica desta monta não acontece espontaneamente ou por meros incentivos econômicos ou oportunidades de mercado.
A construção de uma base biotecnológica capaz de, aos poucos, substituir as múltiplas aplicações da petroquímica depende necessariamente de um grande projeto econômico e político a ser conduzido pelo Estado. Quanto mais países se comprometam com isso, melhor. Mas a qualidade do compromisso é fundamental: não bastam boas intenções enquanto se delegam as ações a iniciativas puramente mercadológicas. Serão necessárias políticas industriais de longo prazo para fazer a bioeconomia crescer e melhorar a ponto de substituir aquilo que a petroquímica construiu por ter se aproveitado de décadas de políticas industriais semelhantes nos países centrais ao longo do século XX.
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Fausto Oliveira é jornalista de economia com experiência nacional e internacional em setores industriais e infraestrutura.